“Por que Deus permite que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba,
veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade…”
A primeira vez que tive contato com este poema de Carlos Drummond de Andrade foi na missa de sétimo da mãe de uma amiga do trabalho, lá nos anos 2000 e pouco. Chorei, achei os versos e a entrega dos santinhos feita pela minha amiga uma das coisas mais lindas que eu nunca esqueci.
Pois chegou mais um Dia das Mães. Eu ainda tenho a minha, por quem sou muito grata por tudo que sempre dedicou a mim. Desde pequena apresentei pavores da humanidade e era embaixo de suas asas que eu conseguia um certo conforto. Foi ela quem me levava todas as vezes à minha terapia, ainda com sete anos, e torcia para que o tratamento fizesse um grande efeito naquela menina assustada. Também foi ela quem segurou a barra quando tive minhas internações por conta do alcoolismo.
Mãe é mãe. Não tem muita conversa, e sim uma sintonia enorme. Apesar de não gostar de datas comemorativas, nesta faço questão de combinar com meus irmãos onde vamos almoçar, o que faremos para ela, etc. Tenho a sorte de ainda tê-la ao meu lado. Aprontei inúmeras situações que a aborreceram muito, mas o tempo foi se encarregando de levar as tristezas embora.
Uma vez, viajando com ela e minha irmã, lembro de ter deixado a bolsa cair em algum canto, depois de ter tomado alguns copos de vinho. Estavam todos os meus documentos, o que era um problema por precisar deles para voltar ao Brasil.
Fomos as três, pelas ruas de Buenos Aires, em busca de uma delegacia para fazer um boletim de ocorrência para que eu pudesse pegar meu voo de volta. Nesta noite, minha mãe passou mal, a ponto de minha irmã ter que chamar a ambulância no hotel. Fiquei ali, ainda meio embriagada e triste demais, sabendo talvez que estava matando minha mãe.
Será que não fiz isso aos poucos? Sei que a pressão arterial dela, que sempre foi normal, subiu muito nos meus piores momentos, não só com a bebida, mas mais recentemente com o surto da bipolaridade.
Não sou mãe, não posso me colocar no lugar dela. Sou a filha que sente muito por todos os males causados. Serei a filha eterna? Tive certeza, algumas vezes, de que ela morreu aos poucos com minhas doenças todas. Sinto muito não ter dado uma neta/o a ela para amenizar a situação. Faz sentido isso? Vejo que as avós são mais felizes.
Mas quem sabe não seria pior? De toda forma, também sei que muitas mães sofrem com o alcoolismo e, ao contrário de mim, sentem culpa de terem deixado seus filhos desamparados. Cada um com seu fardo. Mãe não é apenas de sangue, e sim da tal sintonia. Sei que isso acontece e muito. Também tenho minhas mães postiças.
O bom mesmo da relação é que há perdão; às vezes demora, parece que não vai chegar, mas chega. E aparece para mostrar que a ligação é forte e, por isso mesmo, o poema de Drummond me emociona. “Mãe não tem limite”, e acredito que não tenha mesmo. Pelo menos, é o que vivencio com a minha.
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Autor: Folha




















