Após quatro décadas de circulação contida, o vírus oropouche voltou a circular com força nas Américas, tendo Manaus como um epicentro de transmissão.
A conclusão é de um estudo de pesquisadores da USP, Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, em parceria com a Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas.
Segundo o estudo, publicado em março na revista Nature Medicine, no biênio 2023-2024, a população manauara com anticorpos para o vírus saltou de 11,4%, em novembro do primeiro ano, para 25,7% no mesmo mês do ano seguinte.
Isso significa que, em apenas um ano, cerca de 14% da população da capital amazonense foi infectada, percentual recorde da série histórica iniciada em 1960.
O surto superou em magnitude o último grande evento similar, registrado na década de 1980. À época, a soroprevalência, isto é, a presença de anticorpos para o vírus em humanos, que era de 1,8% na população, foi para 14,9% em 1981.
Manaus referenciou a pesquisa por ser uma incubadora do oropouche. O vírus é transmitido pelo mosquito Culicoides paraensis, popularmente conhecido como mosquito-pólvora, que depende de áreas com solo úmido para viver e se reproduzir.
Segundo o pesquisador José Luiz Modena, professor de virologia do Instituto de Biologia da Unicamp, o surto configura um problema de saúde pública à medida que, com o vírus espalhado e sem monitoramento, aumenta a possibilidade de mutações que facilitam sua chegada aos centros urbanos. Seria como “gestar uma nova dengue“, segundo o pesquisador.
“Essa mosquinha que transmite oropouche tem circulação pequena. Porém, quando uma pessoa de fora da região amazônica vai a Manaus, é picada e contrai a doença, ela leva consigo o patógeno, que depois pode ser transmitido ao mesmo vetor (o mosquito-pólvora) em outro local, dando início a uma transmissão própria”, explica Modena.
Além de Manaus, o mosquito-pólvora habita outras regiões úmidas do Brasil. Se uma pessoa de Porto Alegre, por exemplo, viajar à capital do Amazonas e contrair a doença, ela pode ser picada na sua região de origem e transmitir o vírus ao mosquito, que vai, por sua vez, ampliar a transmissão.
Isso já acontece, segundo o estudo. Há testes positivos para o vírus em todos os estados do Brasil e em outros países do continente, como Peru, Colômbia, Equador, Cuba e República Dominicana.
Trata-se da expansão de um vírus que, até então, era tido como circunscrito à região amazônica. Há riscos associados a isso.
Com maior circulação, o vírus muda e ganha resistência à imunidade, mesmo em pessoas que já tiveram a doença e, portanto, têm alguma resposta imunológica.
Há também o risco de adaptação a outros vetores, o que aceleraria mais a transmissão.
“O grande receio é esse vírus ser transmitido por mosquitos do gênero Aedes, o mesmo da dengue e chikungunya. Esses outros, diferente do mosquito-pólvora, são urbanos, vivem em áreas de grande contato com humanos. Surgiria uma nova arbovirose”, diz Modena.
Não há indícios de transmissão do oropouche pelos Aedes na natureza, apenas em laboratório. “Mas vírus mudam muito rápido”, acrescenta o pesquisador.
COMO O VÍRUS FUGIU
Segundo Modena, os inícios de epidemias ocorrem muitas vezes em comunidades no meio da Amazônia, onde há uma dificuldade crônica de acesso à saúde e, portanto, de vigilância.
“Em alguns lugares, o deslocamento para um posto de saúde passa de 24 horas, e as pessoas só procuram se estiverem de fato muito doentes. Para arbovírus, é fundamental o diagnóstico entre o primeiro e quinto dia de sintoma”, explica o pesquisador.
A baixa testagem também é um problema. Como a dengue é a arbovirose predominante na região amazônica, pessoas com sintomas de oropouche são comumente diagnosticadas com dengue. “A testagem só ocorre quando grande parte das pessoas com sintomas testam negativo para dengue, e aí passa-se a testar o oropouche”, diz Modena.
Diante do aumento de casos, o Ministério da Saúde emitiu nota técnica, em 2024, orientando testagem em todas as pessoas que tiveram negativo para dengue, zika e chikungunya.
O Painel Epidemiológico da pasta notifica cinco mortes pela doença desde 2023, e cerca de 11 mil casos.
Divididos entre os anos, porém, os dados do painel reforçam a tese de epidemia silenciosa já que, considerando-se apenas a população de Manaus, de cerca de 2,3 milhões, o número de soropositivos ultrapassa 500 mil.
Segundo o estudo, o fenômeno do aquecimento global favorece a disseminação do vírus. Modena explica que correntes de ar quente formadas na Amazônia podem transportar o mosquito para distâncias muito superiores à sua natural, viajando a 300 quilômetros.
Outro fator é a atividade humana na floresta. A abertura de ramais em estradas da região cresceu nos últimos anos. Esses caminhos aumentam contato da floresta com pessoas; simultaneamente, permitem circulação maior de pessoas de outras áreas.
Não há tratamento nem vacinas contra a febre oropouche, considerada uma doença negligenciada.
Os sintomas são parecidos com os da dengue e de outras arboviroses e incluem:
- Febre alta
- Dor de cabeça
- Dor muscular
- Dor articular
- Tontura
- Calafrios
- Náuseas
- Vômitos
- Dor nos olhos
Segundo o Ministério da Saúde, manifestações hemorrágicas e acometimento do sistema nervoso podem ocorrer.
Há poucos indícios de que repelentes sejam eficazes para o mosquito-vetor da doença, mas o uso é recomendado pela pasta. Outras medidas de contenção são paliativas, e incluem o uso de roupas longas, aplicação de telas em janelas e portas e limpeza de ambientes em regiões com casos notificados, evitando sobretudo acumulo de material orgânico no solo.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
Autor: Folha








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