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Resposta aos terremotos aumentam pressão sobre o chavismo

A criticada resposta aos fortes terremotos registrados na Venezuela na semana passada está colocando em xeque o regime da ditadora interina Delcy Rodríguez e aumentando a pressão política sobre o chavismo, que governa o país desde 1999.

Em relatório reproduzido pela agência Bloomberg logo após os sismos, o analista político venezuelano Benigno Alarcón disse que a emergência era “simultaneamente um risco e uma oportunidade” para o regime chavista.

“[Se a resposta for eficiente,] o governo interino pode recuperar a legitimidade de desempenho. Se for opaca, militarizada, excludente ou corrupta, o custo social, a pressão internacional e a probabilidade de fraturas aumentarão”, afirmou Alarcón.

De fato, o segundo cenário se confirmou: a gestão Delcy Rodríguez está sendo acusada de demora, politização e burocracia nas operações de busca e resgate e distribuição de ajuda humanitária, desgaste que se soma a decisões contestadas, como militarizar e limitar o acesso a La Guaira, a região mais afetada pelos terremotos.

“O regime de Delcy Rodríguez, que se vangloria de manter uma aliança civil-militar, apresentou uma resposta tardia que só se concretizou 48 horas após o terremoto. As Forças Armadas, chamadas a liderar em situações de emergência desse tipo, foram as grandes ausentes. Ainda mais grave foi a exposição da falta de um sistema nacional de gestão de desastres capaz de responder imediatamente, de forma coordenada e eficaz”, acusou em comunicado o partido oposicionista Vontade Popular.

“Em vez de coordenar os esforços de resgate, estabelecer perímetros de segurança, montar centros de assistência e informar a população com clareza, as autoridades interinas implementaram um sistema burocrático que dificultou a atuação da sociedade civil e gerou desinformação e incerteza”, acrescentou a legenda.

A discussão chegou aos Estados Unidos, onde deputados do Partido Republicano fizeram acusações ao chavismo.

“Meus eleitores venezuelano-americanos compartilharam comigo evidências alarmantes de que o regime socialista está politizando a distribuição de ajuda e obstruindo os esforços de resgate. O regime é responsável pela morte de milhares de pessoas na Venezuela que estão presas sob os escombros!”, acusou o deputado Carlos A. Gimenez em post no X.

Outro parlamentar republicano, Mario Díaz-Balart, disse na mesma rede social que “Delcy Rodríguez, Diosdado Cabello [ministro da Justiça venezuelano] e o restante dos seus comparsas devem saber que os Estados Unidos estão acompanhando essa situação bem de perto, e é melhor que não interfiram nem sabotem esses esforços de ajuda humanitária”.

María Corina diz ter sido impedida de voltar à Venezuela

A líder oposicionista María Corina Machado, que só não disputou as eleições fraudadas de 2024 porque foi impedida pelo chavismo, manifestou no fim de semana a intenção de antecipar seu retorno à Venezuela devido aos terremotos. Porém, na segunda-feira (29), acusou o regime chavista de ter fechado o espaço aéreo venezuelano para impedir sua entrada no país.

“O regime quer bloquear meu retorno à Venezuela”, declarou Machado em vídeo compartilhado nas redes sociais. “Não se trata de mim; somos milhares que querem estar juntos em um país enlutado, que precisa se consolar unido”, acrescentou.

A volta de Machado à Venezuela representaria um impasse para os Estados Unidos, que em janeiro realizaram uma operação militar em Caracas para capturar o então ditador Nicolás Maduro.

O presidente americano, Donald Trump, se recusou a apoiar Machado para comandar a Venezuela, alegando que ela não teria o apoio necessário dentro do país, e se aproximou da substituta de Maduro, Delcy Rodríguez, que tem recebido vários elogios do republicano.

Embora a gestão Trump defenda eleições limpas e livres na Venezuela, não sinalizou pressa para que esse processo aconteça. Em janeiro, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou um plano de três fases para a Venezuela, com ações na seguinte ordem: estabilização do país, recuperação e transição para eleições livres.

No início de junho, em audiência no Congresso americano, Rubio disse que três condições precisam ser atendidas para que a Venezuela tenha eleições livres: imprensa independente; espaço para que os partidos políticos se organizem e se mobilizem; e um novo órgão eleitoral para substituir o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), controlado pelo chavismo.

Duas autoridades da Casa Branca disseram ao jornal The New York Times que autoridades dos EUA ficaram “frustradas” com María Corina Machado por ela ter solicitado ajuda para viabilizar seu retorno à Venezuela logo após os terremotos.

Segundo essas fontes, os pedidos de Machado foram considerados “inoportunos” e uma “manobra política”, em um momento em que o governo dos Estados Unidos se concentra em prestar assistência à Venezuela. A líder opositora não se manifestou sobre a reportagem.

Antes, autoridades americanas já haviam recomendado a Machado que tivesse paciência e adiasse seus planos de voltar à Venezuela, alegando necessidade de “estabilizar” o país após a captura de Maduro.

“Quem falha com seu povo no seu pior momento terá que responder”, diz especialista

Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo afirmaram que a repercussão sobre a resposta aos terremotos amplia a pressão sobre o chavismo, mas por ora não deve acelerar a disputa por poder na Venezuela, já que o foco está nas operações de busca e resgate.

Ricardo Caichilo, professor de relações internacionais e diretor do Ibmec Brasília, disse que “a insatisfação da população com a lentidão estatal após os terremotos amplia o desgaste do atual regime”, mas afirmou que acredita que a tragédia “tende a adiar, e não antecipar, uma disputa efetiva pelo poder”.

“As atenções estão totalmente voltadas para o socorro e a sobrevivência e, portanto, a pauta política não tem força imediata”, justificou.

“As crises humanitárias acabam centralizando o controle por parte do governo no curto prazo, até porque ele é o responsável pela organização da distribuição de ajuda e recursos de emergência. Assim, embora a revolta com a negligência oficial seja real, a coesão da cúpula militar e o controle social exercido pelo Estado continuam sendo os principais obstáculos para uma mudança política estrutural no momento”, argumentou Caichilo.

O venezuelano José Gustavo Arocha, especialista em segurança nacional radicado nos Estados Unidos, disse à Gazeta do Povo que “o terremoto não criou nada de novo; apenas revelou”.

“Foi um teste de estresse que expôs um Estado que havia deixado de existir para o seu povo muito antes de o primeiro tremor ocorrer”, afirmou Arocha, tenente-coronel reformado do Exército venezuelano que fugiu do país em 2015, após enfrentar o regime chavista e ser preso e torturado.

“Não foram as autoridades que apareceram primeiro. Foram os vizinhos, as famílias e os voluntários que escavaram os escombros com as próprias mãos, em busca de seus entes queridos, antes que qualquer ajuda oficial chegasse”, disse o especialista.

“Quando a ajuda finalmente chegou, o socorro mais rápido e eficaz veio do exterior. Os Estados Unidos e cerca de 20 outros países responderam com equipes de resgate, toneladas de suprimentos e uma presença concreta no local. Enquanto isso, a máquina do regime ainda debatia como maquiar os números de mortos, que sobem a cada dia”, acrescentou Arocha.

O especialista afirmou que os venezuelanos “confiam mais naqueles que vêm resgatá-los do que naqueles que os abandonaram” e que os terremotos tornaram “impossível” ocultar o fato de que o regime de Rodríguez “perdeu a confiança do seu povo há muito tempo”.

Nesse sentido, o especialista fez um alerta: o chavismo, que “continua a maltratar seu próprio povo”, pode se aproveitar da emergência para justificar perseguições.

“Com a lógica de ‘inimigo interno’, [o regime] trata famílias que acabaram de perder tudo como suspeitas e as trata com total desrespeito à sua dignidade. Esses maus-tratos representam o maior risco para a ajuda que está chegando agora. Um regime que fracassa sempre precisa de bodes expiatórios, e o caminho mais fácil é culpar quem vem de fora [socorristas estrangeiros]”, disse Arocha, que preferiu não fazer especulações sobre repercussões políticas dos sismos, mas disse que a “questão da legitimidade” posteriormente terá que ser resolvida.

“Um governo que falha com seu povo no seu pior momento terá que responder por isso assim que a emergência passar. Essa resposta não virá de um terremoto; virá do povo venezuelano”, concluiu o especialista.

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  • Saques a comércios aumentam drama na Venezuela e expõem falência da segurança sob o chavismo

  • Terremotos ampliam custo da reconstrução da Venezuela em meio ao caos econômico gerado pelo chavismo

Autor: Gazeta do Povo

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