
A chegada de Moana aos cinemas reacende um debate frequente na indústria cinematográfica: o papel e o propósito dos live-actions (uso de atores reais) baseados em animações consagradas. Apenas uma década após o sucesso do original, o diretor Thomas Kail assume o desafio de transpor a jornada da jovem navegadora para o mundo real. O resultado, longe de ser uma unanimidade, revela um filme que se sustenta na força de seu elenco e na beleza de sua execução visual, mesmo sob a sombra de questionamentos sobre sua própria existência.
Uma jornada que transcende a necessidade do formato
A recepção crítica sobre a existência do filme é, em grande parte, atravessada pelo ceticismo. Para o crítico Peter Bradshaw, do jornal inglês The Guardian, a obra é, em essência, “competente”. O crítico argumenta que o projeto se revela uma peça de conteúdo monetizável, que gera a sensação de um filme já visto. Em contrapartida, David Rooney, do The Hollywood Reporter, pondera que, em seus melhores momentos, o remake permite um novo brilho a materiais amados.
Owen Gleiberman, da revista Variety, vai além e posiciona o longa como uma exceção positiva nesse cenário. Para ele, embora o gênero dos live-actions seja, por definição, “existencialmente medíocre”, Moana consegue a proeza de soar como uma experiência válida. Para o crítico, se o filme fosse apresentado a uma criança que nunca viu a animação, o resultado seria impecável, entregando o encanto e a personalidade cômica que a história exige.
Atuações: O coração da história
Se há um ponto de convergência entre os analistas, é o carisma da dupla protagonista. Catherine Laga’aia, na estreia que marca sua carreira, é amplamente celebrada. Para Rooney, a novata traz uma força necessária para a princesa da Disney que dispensa um príncipe para definir seu destino, enquanto Gleiberman destaca que a voz da atriz “ressoa como um sino” e que sua expressividade é fundamental para transportar o público para a imaginação da heroína.
Dwayne Johnson, reprisando seu papel como o semideus Maui, também é alvo de observações distintas. Enquanto Rooney enaltece a química com Laga’aia, Gleiberman vê em Johnson a peça-chave para o sucesso do projeto. Na visão de Gleiberman, o ator entrega uma “epifania” de live-action: um semideus que projeta, na carne, uma aresta e um carisma ainda mais indeléveis do que na animação. Por outro lado, Bradshaw é mais comedido, avaliando que o astro atua em “piloto automático”, comparando sua performance a um software, embora reconheça que ele ainda reserve momentos divertidos.
O elenco de apoio também recebe elogios. Rooney ressalta a “sabedoria terrena” de Rena Owen, a avó Tala, que atua como o elo vital com os ancestrais, e o suporte emocional oferecido por John Tui e Frankie Adams, os pais de Moana. Gleiberman também destaca a presença de Owen, afirmando que é a energia da atriz que coloca a trama em movimento com um brilho quase de “hippie envelhecido”.
Visual e a linha tênue entre o real e o digital
Um dos aspectos mais discutidos é a pesada carga de efeitos visuais. Rooney observa que a abundância de elementos feitos em computador — de animais mágicos a piratas de coco — leva o espectador a questionar a diferença prática em relação à animação digital. Contudo, o crítico argumenta que tais preocupações perdem importância diante do coração e do humor do longa.
Essa mesma hibridez é vista por Gleiberman como uma escolha artística bem-sucedida. Ele argumenta que Thomas Kail consegue criar uma atmosfera de vibração visual que habita um espaço fluido entre a ação real e o desenho. Bradshaw, no entanto, mantém uma visão crítica, afirmando que, por estar tão profundamente inserido em CGI, o filme é, na prática, “apenas outra animação”.
Música e ritmo: A alma das ilhas
A trilha sonora, composta por nomes como Lin-Manuel Miranda, mantém seu poder de sedução. Rooney defende que, embora algumas melodias possam remeter a trabalhos anteriores dos compositores, os atores injetam tanta personalidade nas canções que “parece rabugice questionar”. Para ele, Moana se destaca como um entretenimento familiar cativante, repleto de detalhes de design e uma ambientação tropical exuberante.
Apesar de críticas pontuais, como o ritmo da parte central do filme — onde Rooney sugere que dez minutos poderiam ser cortados devido ao excesso de fundos digitais — e a sensação de que alguns elementos, como o caranguejo Tamatoa e o galo Heihei, funcionam melhor no original, o panorama geral aponta para uma obra que, embora não substitua sua fonte, conquista seu espaço. Como resume Gleiberman, o remake de Moana não veio para ocupar o lugar da animação de 2016, mas, por mérito de sua beleza e entrega, ganha o direito de caminhar ao lado dela.
Autor: Gazeta do Povo








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