Michael Olise nasceu na região oeste de Londres e estudou na escola primária Dr. Triplett’s Church of England. A diretora da escola se lembra do garoto, filho de pai nigeriano, mãe franco-argelina, que poderia jogar por três seleções desta Copa do Mundo: Argélia, França ou Inglaterra.
Também poderia ter optado pela nacionalidade argelina, de sua mãe. Mas foi justamente ela, Mina, quem enviou vídeos para o técnico da seleção sub-18 da França, Jean-Luc Vannuchi. Olise queria jogar pelo time de Zinedine Zidane e Kylian Mbappé.
Brahim Díaz é um dos 19 jogadores do Marrocos nascidos fora do país. Ele é de Málaga, na Andaluzia, e disputou uma partida pela seleção espanhola, em 2021. Fez até gol contra a Lituânia.
Um ano e meio depois, excluído das convocações para a Eurocopa e para a Copa do Mundo do Qatar, Brahim decidiu jogar por Marrocos.
Há seis nascidos na França, entre eles o volante Bouaddi, melhor em campo contra o Brasil. Até abril, Bouaddi era jogador da seleção francesa sub-20. Sua liberação para atuar pela seleção do país de seus avós só aconteceu em 15 de maio, menos de um mês antes do início da Copa.
Dos 52 convocados de França e Marrocos, 22 nasceram em outros países (42%). É mais do que a assustadora porcentagem dos inscritos na Copa do Mundo. Dos 1.248 jogadores, 292 (23,4%) jogam por seleções de países que não os de seus nascimentos.
“Meninos sem Pátria” é um romance de Luiz Puntel, lançado em 1981, pela editora Vaga-Lume.
Conta a história de um jornalista perseguido pela ditadura que levou seus sete filhos ao Chile, de onde teve de sair por causa do golpe de Estado que derrubou Salvador Allende. Passou pela Bolívia, chegou à França. Seus filhos não tinham pátria.
Apesar de ser assim com 3 dos franceses e 19 marroquinos nas quartas-de-final desta quinta-feira, em Boston, eles têm sentimentos fortes contra e a favor. Há quatro anos, no Qatar, muitos marroquinos do norte diziam que a rivalidade com a Espanha é maior do que com os franceses, por causa da vigilância ao estreito de Gibraltar contra a imigração ilegal de marroquinos para território espanhol.
Na chegada a Boston, outro grupo de marroquinos diz o contrário: “É mais com a França”, disse o torcedor Yassine Bouazzouz. “Por causa da imigração e pela xenofobia contra marroquinos que vivem em Paris.”
Durante a Copa de 1998, havia uma curiosa rotina na redação do diário LANCE!, sediada em La Queue-en-Brie, perto de Lésigny, onde a seleção brasileira se concentrava. Após o fechamento da edição, dirigia por vinte minutos para comprar sanduíches num pequeno comércio em que trabalhavam três funcionários: um tunisiano, um argelino e outro marroquino.
Os três torciam fervorosamente contra a França. Os colonizados contra os colonizadores.
Não era fácil torcer contra os donos da casa naquela Copa e eles acabaram campeões, conduzidos por Zinedine Zidane, filho dos argelinos Smail e Malika. Há quatro anos, Marrocos era dirigido por Walid Regragui, nascido na França e um dos que argumentavam que a rivalidade é maior com os espanhóis.
Hoje não parece. Mesmo que os franceses, antes de Mbappé, agradecessem aos gols de Just Fontaine, artilheiro da Copa de 58 vestido de azul, branco e vermelho, nascido em Marrakech.
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Autor: Folha








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