quinta-feira, julho 9, 2026
15.9 C
Pinhais

Pneumonia mata mais crianças nas periferias de SP – 09/07/2026 – Equilíbrio e Saúde

Crianças e adolescentes internados por pneumonia estão espalhados por praticamente toda a cidade de São Paulo. Já as mortes pela doença se concentram nas regiões mais pobres e vulneráveis da capital.

Esse contraste, identificado em estudo publicado na Revista Paulista de Pediatria, sugere que fatores ligados às desigualdades sociais, às condições de moradia e ao ambiente urbano influenciam mais o risco de morrer do que o de adoecer.

A pesquisa analisou todos os 96 distritos administrativos do município entre 2010 e 2020. No período, foram registrados 1.486 óbitos e 156.112 internações por pneumonia entre crianças e adolescentes de até 19 anos. Em média, ocorreram 4,2 mortes e 446 internações por 100 mil habitantes ao ano.

Embora mortes e internações tenham diminuído ao longo da década, os pesquisadores verificaram que a queda não ocorreu de forma homogênea.

Enquanto as hospitalizações se distribuíram por diferentes regiões da cidade —inclusive em bairros de maior renda, como Morumbi e Jardim Paulista—, as mortes ficaram concentradas sobretudo na zona leste e no extremo norte.

Segundo William Cabral, coordenador do Núcleo de Geoprocessamento e Ciência de Dados do Instituto Pensi e um dos autores do estudo, o objetivo da pesquisa era justamente comparar o comportamento territorial das internações e das mortes.

“Já sabíamos, por pesquisas anteriores, que praticamente todas as doenças seguem um padrão de piora nas áreas mais afastadas do centro, nas periferias. Infelizmente, esse é um padrão esperado. Queríamos entender se isso também acontecia com a pneumonia.”

Para identificar as áreas de maior risco, os pesquisadores utilizaram técnicas de geoprocessamento e estimaram o risco relativo de internações e mortes em cada distrito administrativo, levando em consideração o tamanho da população de crianças e adolescentes.

A análise mostrou que os distritos com menor pontuação no GeoSES —índice que reúne indicadores de renda, escolaridade, pobreza, mobilidade, segregação social e acesso a recursos— apresentaram risco relativo de morte por pneumonia cerca de 75% maior que o esperado. Em contrapartida, bairros com maior proporção de moradias de padrão médio e alto tiveram risco aproximadamente 45% menor.

Na etapa seguinte, a equipe investigou quais características dos territórios poderiam explicar esse padrão. Além do índice socioeconômico, a presença de vias de trânsito rápido também permaneceu associada ao maior risco de morte.

“Distritos que registraram mais mortes também tinham maior quilometragem de vias de trânsito rápido. Como este é um estudo ecológico, não podemos estabelecer uma relação de causa e efeito. Apenas mostramos que essas características coexistem no mesmo território”, afirma Cabral.

Segundo ele, a equipe optou por utilizar a extensão de rodovias e vias expressas como um indicador indireto da exposição a poluentes ao longo da década estudada. “Foi uma surpresa encontrar essa associação. As vias e o índice socioeconômico foram os fatores que permaneceram relacionados ao risco de morte.”

O trabalho não permite concluir que a exposição à poluição seja responsável pela maior mortalidade observada, embora estudos anteriores tenham associado esse fator ao agravamento de doenças respiratórias.

Outra diferença chamou a atenção dos pesquisadores. Distritos com melhores indicadores sociais apresentaram mais internações por pneumonia, resultado que, segundo Cabral, pode refletir diferenças na utilização dos serviços de saúde.

“Não basta ter acesso aos serviços de saúde; é preciso ter um acesso adequado. A hospitalização acontece porque a doença ocorreu. O pior desfecho, que é a morte, parece estar relacionado à qualidade e à oportunidade desse atendimento.”

Segundo ele, uma variável relacionada à oferta de serviços de saúde foi testada na análise, mas não apresentou associação estatisticamente significativa com a mortalidade.

O padrão observado na capital não parece ser um caso isolado. Uma pesquisa conduzida em todo o estado de São Paulo encontrou resultado semelhante ao analisar pneumonia, infecção da corrente sanguínea e infecção urinária.

Um estudo conduzido pelo Gaia (Grupo de Análise de Infecções e Antimicrobianos), da Unifesp, apresentado em congressos científicos e em fase final de publicação, também identificou agrupamentos geográficos de maior letalidade para essas infecções.

“Também identificamos agrupamentos geográficos de maior letalidade para essas infecções, embora a distribuição das internações nem sempre acompanhe esse comportamento”, afirma Carlos Kiffer, professor de infectologia da Unifesp e pesquisador líder do Gaia.

Para o infectologista, a diferença entre os mapas de internação e de mortalidade sugere que adoecer e morrer não dependem necessariamente dos mesmos fatores.

“Esses achados indicam que aspectos ligados à organização da assistência, ao acesso aos serviços de saúde e às desigualdades regionais podem exercer papel importante na sobrevivência dos pacientes”, diz. Ele ressalta, porém, que essa hipótese ainda precisa ser confirmada por estudos capazes de identificar as causas dos óbitos.

Para Cabral, o principal mérito do estudo é mostrar onde as mortes se concentram, permitindo direcionar melhor as ações de saúde pública.

“O primeiro passo é saber onde está o problema e qual população está sofrendo mais com ele. O geoprocessamento permite identificar esses territórios e apontar os fatores associados. A partir daí, é possível planejar intervenções de forma mais orientada.”

Na avaliação do pesquisador, as mudanças climáticas tornam essa discussão ainda mais relevante. Se as ondas de calor passaram a ocupar espaço na agenda da saúde pública, as de frio também podem aumentar a vulnerabilidade de crianças que vivem em moradias precárias.

“A população que sofre mais com o calor provavelmente é a mesma que sofre mais com o frio. Crianças que vivem em casas frias, com pouca incidência de sol e condições inadequadas de habitação ficam mais expostas ao agravamento da pneumonia.”

Por se tratar de um estudo ecológico, baseado em dados agregados por distrito administrativo, os autores ressaltam que não é possível identificar fatores individuais associados ao risco de cada criança.

Para Gustavo Wandalsen, pediatra, alergista e imunologista do Hospital Sabará, entre as hipóteses que poderiam explicar por que crianças de áreas mais pobres apresentam maior risco de morrer por pneumonia estão má nutrição, baixa cobertura vacinal e acesso mais precário aos serviços de saúde.

“Se você tem acesso mais rápido aos serviços de saúde, será tratado mais cedo e terá mais chance de a pneumonia não complicar. Mesmo quando há complicações, tratar e internar precocemente reduz o risco de morte.”

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas