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Femosfera: mulheres repensam amor; veja o que é – 13/07/2026 – Equilíbrio

O homem deve ser um cavalheiro e a mulher , cortejada. Ela deve se vestir bem, ele paga a conta. Ele toma a iniciativa, ela se faz de difícil. E nada de sexo sem compromisso prévio.

Conselhos que muitas mulheres já ouviram, seja no passado, quando prevaleciam regras rígidas de namoro, ou mais tarde, apesar das mudanças trazidas pelo movimento de emancipação feminina e pela subsequente revolução sexual.

O livro “35 Regras Para Conquistar O Homem Perfeito”, de Ellen Fein e Sherrie Schneider (publicado no Brasil pela editora Rocco, em 1997), por exemplo, fez sucesso ao oferecer táticas para conquistar o homem dos sonhos, que incluíam nunca falar com ele primeiro ou ligar para ele; nunca pagar a conta e nem mesmo dar beijos apaixonados no primeiro encontro.

Mas agora estamos na era da internet… e da inquietação, tudo é mais extremo e um pouco mais amargo.

O que resta quando os conselhos da avó se cruzam com algoritmos e o desencanto coletivo?

A femosfera. Um ecossistema de influenciadoras, fóruns, podcasts e conselhos que convida as mulheres a repensarem o amor —despojando-o de quaisquer ilusões românticas— e a transformarem a forma como abordam os relacionamentos.

Mais do que isso: incentiva-as a “tomar a pílula rosa”, uma referência à “pílula vermelha” do filme “Matrix“, que simbolizava o acesso a uma realidade oculta.

No caso da rosa, essa realidade não está oculta, apenas velada. Os relacionamentos heterossexuais são estruturalmente desequilibrados em favor dos homens, argumentam, portanto devemos aprender a reconhecer padrões masculinos, elevar os padrões e evitar relacionamentos prejudiciais.

A metáfora do filme já havia sido apropriada pela machosfera, movimento que reúne uma seleção diversificada de homens que se sentem ameaçados pelas mulheres e reagem com atitudes e discursos agressivos.

Para eles, a pílula vermelha simboliza o despertar daqueles que “enxergam” a suposta manipulação feminina e um sistema que —acreditam eles— prejudica os homens.

Essa reapropriação e inversão de termos feita pela femosfera não é incomum. Afinal, é, em parte, uma reação à agressão desse obscuro submundo masculino.

Assim, ao analisar ambos os fenômenos, percebe-se rapidamente semelhanças, mas também diferenças profundas.

A diferença mais fundamental, como enfatizado pela pesquisadora Jilly Kay, que cunhou o termo “femosfera”, é que ela “não representa o mesmo tipo de ameaça social ou violência no mundo real” que a machosfera.

“Embora certas comunidades reproduzam algumas das táticas e da linguagem, ou por vezes desumanizem os homens da mesma forma que eles fazem com as mulheres, isso não significa que sejam equivalentes”, disse ela à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.

A machosfera, explica a especialista em estudos feministas de cultura e mídia da Universidade de Loughborough, no Reino Unido, é uma exacerbação da violência masculina contra as mulheres, um problema social endêmico.

“As mesmas condições sociais não existem para que a femosfera provoque uma ameaça de violência feminina em massa contra os homens.”

O que aconteceu, destaca Kay, foi que as redes sociais permitiram que elas compartilhassem experiências e, encontrando tantas semelhanças em tantos lugares, concluíram “que todos os homens são e sempre serão fundamentalmente terríveis, e que não há nada que se possa fazer para mudá-los social ou emocionalmente, então elas tiveram que se unir, planejar e agir de uma maneira implacavelmente egoísta”.

Ainda assim, Onyinyechi Ezeanowi, ativista dos direitos das mulheres e especialista em ambientes digitais, enfatiza: “Não existe um equivalente feminino da machosfera. Não temos mulheres ensinando outras mulheres a abusar ou a serem violentas com os homens.”

“Estamos ensinando-lhes o empoderamento, para que possam se defender e lutar por seus direitos e igualdade”, disse ela em conversa com a BBC África.

Embora Ezeanowi não se identifique com muitas das ideologias da femosfera, ela compreende a sua direção.

A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, também tentou entender.

Realidade brutal

Se tomarmos a pílula rosa, a primeira coisa que entenderemos é que, apesar de todas as lutas das mulheres, o mundo continua a funcionar a favor dos homens.

A disparidade salarial e previdenciária continua enorme, poucas mulheres conseguiram alcançar cargos de destaque em qualquer área, e o sistema judiciário ainda não responde adequadamente a casos de violência doméstica, estupro, assédio ou abuso.

Além disso, na perspectiva da femosfera, as feministas do passado encorajaram as mulheres a se comportarem como homens, e isso acabou beneficiando-os.

Elas apontam, por exemplo, que sexo casual é exatamente o que eles procuram, ou que na vida de um casal o fardo do trabalho doméstico e emocional continue a recair principalmente sobre os ombros das mulheres, mesmo que elas tenham um emprego, o que as deixa exaustas e não empoderadas.

Se você está percebendo ecos do feminismo tradicional, você está certo. De fato, muitas figuras na femosfera se identificam como feministas, mas suas reações e estratégias diante da situação são distintas.

“Eles rejeitam o princípio da igualdade porque este os decepcionou, então a ideia de ser realista é a filosofia subjacente: você precisa acordar para essa verdade brutal”, explica Kay.

Se a igualdade de gênero é uma ilusão inatingível, “a única coisa que você pode fazer é aceitar essa ideia muito tradicional de que homens e mulheres têm papéis muito definidos e diferentes na sociedade”.

Assim como na machosfera, na femosfera os gêneros são considerados distintos, tanto física quanto psicologicamente, o que, para a primeira, prova que as mulheres são inferiores e, para a segunda, que os homens são o problema.

Mas, em vez de tentar consertar o sistema politicamente, como era feito antigamente, a femosfera ensina as mulheres a manipulá-lo individualmente.

A ideia seria que, se cada mulher se cuidar e evitar cair em situações indesejáveis, haverá mudanças, porque homens de baixo valor não encontrariam vítimas.

E aí nos deparamos com um dos vários rótulos que precisam ser compreendidos para navegar nesse mundo que tem como lar as redes sociais, mas que também se materializa em livros.

Palavras, palavras, palavras

É importante esclarecer que a femosfera é diversa, portanto, nem todas as comunidades que se identificam com uma ou outra influenciadora, ou com espaços como o podcast Female Dating Strategy (“Estratégia para mulheres em encontros”, em tradução livre), seguem exatamente o mesmo roteiro.

Mas, para nos orientarmos, é útil compreender certos conceitos e classificações tão reconhecidos nessas áreas que não necessitam de explicação.

Na femosfera, as mulheres são incentivadas a se tornarem a melhor versão de si mesmas, indo à academia, estudando, vestindo-se bem e curando seus traumas.

Além disso, elas precisam se descentralizar, ou seja, focar na sua independência financeira e paz de espírito, em vez de deixar que tudo gire em torno do romance e que os homens sejam o centro de suas vidas.

O objetivo é se tornar uma MAV, ou Mulher de Alto Valor, e isso acontece quando ela deixa de ver o desenvolvimento pessoal como um presente para o mundo e passa a vê-lo como um ativo estratégico que exige um investimento equivalente por parte dos homens.

Se, por outro lado, depois de tanto esforço ela continuar aceitando migalhas ou implorando por amor, a femosfera a classifica como uma “pick-me” ou uma mulher ingênua —o termo “pick me girl” costuma ser usado para descrever uma mulher que busca aprovação masculina de forma desesperada.

Assim, a MAV é uma mulher que, após avaliar friamente seu próprio capital estético, social e psicológico, conhece seu valor e não se deixa explorar pelo mercado de encontros.

Essas MAVs estão à procura de HAVs, homens de alto valor.

Ele é o homem ideal segundo a filosofia dela: provedor, financeiramente estável, emocionalmente maduro, respeitoso, leal, protetor e generoso.

Seu oposto, o homem de baixo valor (MBV), é mesquinho ou não possui os meios financeiros, a estabilidade emocional ou o instinto protetor para sustentar uma mulher; ele não quer progredir ou exige atenção sem dar nada em troca.

Essas definições abrangem muitas outras coisas, e existem muitos outros termos, mas no final há uma equação: em qualquer relacionamento, o homem tem que somar, não subtrair.

E embora possa parecer um pouco contraditório, muitos desses espaços repletos de mulheres empoderadas falam principalmente sobre estratégias para encontrar um parceiro. Mas com cuidado.

Regras a seguir

Existem vários aspectos que são frequentemente questionados a respeito deles, por exemplo, a afirmação de que “todos os homens são iguais”.

A resposta é: “É claro que sabemos que nem todos são iguais, mas se eu lhe desse um saco de doces e dissesse que 10% deles estão envenenados… você não examinaria cada um com muito cuidado antes de comê-los?”

É isso que elas aconselham a fazer, sem nenhuma piedade. As normas, por exemplo, são inegociáveis: uma MAV não dá segundas chances.

Se um homem sugere um primeiro encontro barato (como dar um passeio ou tomar um café) ou propõe dividir as despesas meio a meio, ele é imediatamente rejeitado.

Por que o homem deveria pagar?

Os motivos variam desde o maior poder aquisitivo que os homens geralmente possuem, até o cálculo de quanto ela investiu em maquiagem, depilação, roupas e cabeleireiro para aquele encontro.

Tudo parece muito frio? Bem, sim, e daí? Essa é a situação. As mulheres não podem continuar indo para a batalha armadas com rosas, dizem.

O distanciamento e o autocontrole emocional são um dos mecanismos de defesa: eles não são motivados pela necessidade de aprovação ou pelo medo da solidão.

Se um homem diminui seu esforço ou exibe comportamento questionável, a MAV se retira sem drama, explicações ou lágrimas. Sua atenção é vista como um recurso escasso.

E nada de se apaixonar ou se deixar enganar.

Embora seja apresentado como um jogo transacional manipulador e cru, o curioso é que esses filtros podem servir como um colete à prova de balas emocional para garantir que o homem com quem elas se sentam à mesa não seja um narcisista, um golpista ou um abusador.

Indivíduos narcisistas e abusivos, por exemplo, usam a tática do ‘love bombing’ (bombardeio de amor, em tradução livre): dizem à vítima que ela é o amor de sua vida na primeira semana, saturando-a com poemas, atenção e promessas vazias.

Diversas criadoras de conteúdo alertam sobre os riscos e instruem suas seguidoras a manterem uma distância psicológica. Ao avaliar o homem com base puramente em fatos tangíveis e comprovados pelo tempo, a manipulação emocional do abusador é neutralizada.

Se o homem não consegue cumprir suas promessas com um comportamento respeitoso e protetor a longo prazo, o filtro o expulsa antes que a mulher fique psicologicamente presa.

Se você observar as rígidas “regras de etiqueta” que essas gurus impõem para primeiros encontros, verá que elas coincidem com os manuais de prevenção de agressão sexual da polícia e de organizações de apoio às vítimas:

É proibido às mulheres irem à casa de um homem, ou convidá-lo para a sua, durante os primeiros meses. E é proibido que ele as busque de carro: exige-se que a mulher chegue sozinha a um local público e movimentado.

Embora sirvam para “fingir dificuldade”, do ponto de vista logístico, garantem que a mulher mantenha total controle de sua mobilidade física, eliminando o risco de ficar presa em um espaço privado onde esteja vulnerável a agressões sexuais ou físicas.

Entre o desencanto e a resignação

Ser uma coisa e outra ao mesmo tempo parece ser uma característica da femosfera.

Quando você se choca com a linguagem crua que elas usam para falar de amor, de repente elas dizem algo que faz sentido. Quando elas falam de homens como objetos com valor comercial, você percebe que elas também estão pedindo para serem valorizadas e respeitadas. Podem causar repulsa, mas também podem fazer você rir às gargalhadas.

Para Kay, a femosfera reage a algo real: o namoro heterossexual, diz ela, é genuinamente difícil para as mulheres, devido à normalização da pornografia misógina, aos aplicativos de namoro —que trazem à tona o pior do comportamento humano— e à ameaça persistente de violência sexual.

O problema, ela destaca, é como o diagnóstico é resolvido: “Estupro e violência sexual são frequentemente vistos como comportamentos inatos em alguns homens […] então você não pode fazer nada além de evitar esses homens de baixo valor, porque eles sempre estarão por perto.” Não há espaço, diz ela, para pensar que a sociedade possa mudar; a violência se torna algo quase biológico, inevitável.

A femosfera, acrescenta, “é uma mistura estranha e complexa de algumas ideias feministas, com as quais é difícil discordar, mas com soluções muito reacionárias para o problema”.

“Confusa é a palavra que melhor descreve a situação.”

O que Kay lamenta é que “é uma ideia muito realista, mas, em última análise, muito fatalista. É a ideia de que devemos abandonar a política e desistir de qualquer tentativa de melhorar a sociedade.”

E ela teme que seja isso que as mulheres jovens começarão a entender por feminismo.

Ela destaca que existem outras comunidades que não adotam a visão de que homens e mulheres estarão fundamentalmente sempre em guerra uns com os outros, e que nada pode mudar isso.

Mas, conclui, “há algo nos meios digitais atualmente que parece suscetível a esse tipo de lógica mais reacionária”.

E aí está a femosfera: a meio caminho entre um manual de autoajuda e um relatório de guerra, prometendo proteger o coração enquanto, no fundo, continua à espera da mesma coisa que qualquer história de amor para a vida toda: que apareça alguém que valha a pena.

O texto foi publicado originalmente aqui.

Autor: Folha

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