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‘Looksmaxxing’: entenda a trend estética entre homens – 13/07/2026 – Equilíbrio

Uma tendência que promete transformar homens em versões mais atraentes de si mesmos vem ganhando força nas redes sociais, especialmente entre adolescentes e adultos jovens. Conhecido como “looksmaxxing”, ou “maximização visual”, o movimento incentiva a busca por músculos aparentes, mandíbula marcada e baixo percentual de gordura corporal.

O problema é que, além do fato de esse padrão estético ser irreal, os meios utilizados para atingi-lo são perigosos e podem levar ao desenvolvimento de comportamentos obsessivos, capazes de prejudicar a saúde física e mental.

O “looksmaxxing” tem sido difundido por influenciadores da chamada machosfera, um conjunto de comunidades digitais marcadas pela defesa de modelos de masculinidade, frequentemente associados à misoginia e ao antagonismo em relação aos direitos das mulheres e de minorias sociais, como a população negra e LGBTQIAPN+.

Sua lógica parte do pressuposto de que a aparência é um determinante central no nível de sucesso de um homem na vida amorosa, profissional e social.

Produtores de conteúdo compartilham em seus vídeos supostas técnicas para melhorar o visual. Algumas recomendações envolvem a adoção de hábitos que costumam ser tipicamente saudáveis, como a musculação e os cuidados com a pele, mas em frequência e intensidade exageradas, ao ponto de causar desgaste no corpo.

Outras dicas incluem o uso de substâncias anabolizantes; a realização de cirurgias invasivas, como o alongamento das pernas para ganhar altura; e procedimentos sem comprovação científica, a exemplo do chamado “bone smashing”, em que a pessoa golpeia repetidamente os próprios ossos do rosto para tentar remodelar a mandíbula.

De acordo com um estudo publicado em 2025 na revista Sociology Health & Illness, que analisou mais de 8.000 comentários em fóruns dedicados ao “looksmaxxing”, a comunidade é marcada por críticas severas a aparências fora do padrão “viril” tido como exemplar.

Nesses espaços, ainda é comum que, em vez de apoio para mudar o estilo de vida, os participantes sejam bombardeados por insultos e até sugestões explícitas de autolesão. Também há discursos naturalizados de medicalização, incentivando o uso indiscriminado de hormônios.

“Não há nada de errado em buscar o autodesenvolvimento e realizar atividades de autocuidado. Contudo, não é isso o que está acontecendo nessas comunidades”, diz o sociólogo Michael Halpin, professor na Universidade de Dalhousie, no Canadá, e primeiro autor da pesquisa.

“Homens que praticam o ‘looksmaxxing’ acreditam que apenas a aparência importa, não se trata de cuidar de si mesmos ou entrar em forma, e isso está causando problemas sérios a essas pessoas.”

A situação é preocupante quando a aparência passa a ser um pensamento excessivo, que causa vergonha, ansiedade, tristeza, isolamento e queda de autoestima. É justamente nesse momento de vulnerabilidade que discursos da machosfera podem prender a atenção, porque tendem a dar respostas simples para questões complexas e angustiantes, na percepção de alguém em sofrimento.

Grupos “incel” e “redpill”, que compõem a machosfera, oferecem um forte sentimento de pertencimento. Muitos chegam a esses espaços sentindo solidão, insegurança, fracasso ou rejeição, sendo recebidos por uma comunidade que afirma que eles não estão sozinhos.

“O problema é que essa acolhida ocorre por meio de uma ideologia extremista, que, em vez de reconhecer que relacionamentos são complexos, diz que a rejeição aconteceu porque a pessoa não é alta, não tem músculos ou não possui uma mandíbula masculina”, diz Zoldan.

Essa narrativa reforça pensamentos que colocam a mudança comportamental e física como chave para se sentir pertencente e desejado.

Riscos do ‘looksmaxxing’

A exposição contínua a imagens de corpos idealizados e inatingíveis não causa, por si só, um transtorno mental. No entanto, a prática aumenta os fatores de risco para sofrimentos psicológicos, transtornos alimentares e sensação de dismorfia corporal.

“O cérebro humano foi programado para realizar comparações sociais. Durante séculos, essas comparações foram feitas com algumas dezenas ou centenas de pessoas do convívio próximo. Hoje, porém, um adolescente pode ser exposto diariamente a milhares de pessoas nas redes sociais”, afirma Zoldan.

Quando a aparência passa a ocupar papel central na vida, surge um fenômeno conhecido como auto-objetificação. Nele, a pessoa deixa de se enxergar como um indivíduo com diversas qualidades e passa a se perceber apenas como um objeto que será constantemente avaliado pelos outros.

Uma pesquisa publicada em 2022 na revista Current Opinion in Psychology concluiu que o uso abusivo das redes sociais causa uma série de efeitos nocivos sobre a autoestima. A exposição constante a padrões de vida e de beleza idealizados intensifica a comparação social, levando muitos usuários a se sentirem inadequados ou inferiores.

Além disso, a busca incessante por validação digital, por meio de curtidas, comentários e seguidores, fragiliza a autoestima, tornando-a dependente de fatores externos e voláteis. Quando esse reconhecimento não acontece, surgem frustração, ansiedade, depressão e isolamento.

Ao manter uma vigilância constante sobre si mesma, fotografando-se repetidamente, monitorando o peso a cada refeição e verificando continuamente cada curtida ou comentário na rede social, a pessoa tende a aumentar seu nível de estresse. E isso pode engatilhar o desenvolvimento de transtornos alimentares, como anorexia, bulimia, compulsão alimentar e adesão a dietas restritivas.

Com relação à saúde física, os riscos também são diversos. “Os adeptos do ‘bone smashing’ acreditam, sem amparo em evidências científicas, que, ao produzir microfraturas em seus ossos, eles crescerão mais salientes, dando um aspecto mais ‘masculino’ aos seus maxilares. Porém, mesmo que as pessoas apliquem golpes relativamente leves no rosto, fazer isso certamente prejudica o corpo”, diz Halpin.

Deve-se considerar ainda os prejuízos do uso desnecessário e sem acompanhamento médico de hormônios. Quando se trata de ganho de massa muscular e força, não existe dose segura para se obter um “corpo perfeito”. Essas substâncias são indicadas para tratar exclusivamente casos de deficiência hormonal.

“Infelizmente, na prática clínica diária, observamos um aumento cada vez maior da busca e do uso irregular de esteroides anabolizantes, hormônio do crescimento e insulina para ganho de massa muscular”, afirma a endocrinologista Andréa Messias Britto Fioretti, coordenadora do departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).

“Nenhuma dessas substâncias é indicada para esse objetivo, nem proporciona melhora estética sem provocar efeitos colaterais danosos.”

Os eventos adversos podem ser especialmente prejudiciais ao coração. Cresce o risco de cardiomiopatia hipertrófica, caracterizada pelo aumento do miocárdio, bem como de policitemia, um aumento no número de células vermelhas no sangue, tornando sua circulação mais lenta. Como os anabolizantes aumentam os níveis de LDL, conhecido como “colesterol ruim”, e reduzem os níveis de HDL, o “colesterol bom”, eleva-se o risco de infarto.

Além disso, essas substâncias podem causar alterações cerebrais, provocando atrofia do córtex cerebral, reduzindo a cognição e a memória.

O consumo dessas substâncias ainda pode estar associado a acne, queda de cabelo, alterações hepáticas, elevação do risco de lesões e tumores e maior risco de trombose. Nos homens, elas também provocam atrofia testicular, aumentando o risco de infertilidade.

Caminhos para uma vida mais saudável

Os primeiros sinais de que um jovem pode estar envolvido com o “looksmaxxing” costumam aparecer na relação com a própria aparência. Dietas restritivas, prática compulsiva de exercícios físicos, interesse por procedimentos estéticos e mudanças corporais incompatíveis com a rotina podem indicar uma busca cada vez mais intensa por um padrão de beleza considerado ideal. Outro ponto de alerta é o consumo de conteúdos ligados à machosfera.

A preocupação passa a exigir maior atenção quando começa a comprometer a rotina e o bem-estar. Vergonha persistente, ansiedade, abandono de atividades sociais, sofrimento intenso relacionado à aparência ou a crença de que a vida só melhorará após mudanças físicas são sinais de que a pessoa precisa de ajuda.

Como forma de prevenção à saúde física e mental, os especialistas defendem estratégias que ampliem as fontes de autoestima para além da aparência. A recomendação é estimular a prática de atividades com foco no bem-estar, no prazer e na convivência social, fortalecer vínculos familiares, conversar sobre os conteúdos consumidos nas redes e desenvolver pensamento crítico sobre filtros, algoritmos e padrões de beleza.

“Não é a preocupação com a aparência que determina a necessidade de ajuda profissional, mas o sofrimento e o prejuízo funcional decorrentes dessa preocupação”, afirma Zoldan. Se o sofrimento passa a dominar o cotidiano, provoca isolamento, comportamentos compulsivos ou prejuízos à vida social e escolar, é indicado procurar ajuda psicológica ou psiquiátrica.

Autor: Folha

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