terça-feira, julho 21, 2026
15.5 C
Pinhais

Consumo de ultraprocessados faz mal para saúde intestinal – 20/07/2026 – Equilíbrio e Saúde

Cereais matinais, iogurtes, macarrão instantâneo, carne processada, sorvete, pão de forma… Cada refeição diária representa uma nova oportunidade para colocar no prato algum tipo de alimento ultraprocessado. Em geral, suas composições possuem elevados índices de gorduras, açúcares e sódio, substâncias capazes de produzir importantes impactos em qualquer organismo.

Desenvolvidos pela indústria após a Segunda Guerra Mundial, os alimentos ultraprocessados são recheados de corantes, adoçantes, emulsificantes e estabilizantes que lhes conferem certas características mais atraentes e prolongam sua vida útil nas prateleiras dos supermercados.

Atualmente, os alimentos ultraprocessados respondem por até 58% da ingestão calórica diária em países de alta renda, e nas economias emergentes estão perto de 30%. Ou seja, cada vez mais, estão ocupando o lugar da comida “de verdade”, como frutas, legumes e verduras.

Essa mudança tem trazido consequências. O hábito de “desembalar mais e descascar menos” está acompanhado pelo aumento da incidência de doenças inflamatórias intestinais (DIIs), inclusive em regiões historicamente caracterizadas por uma baixa prevalência, como é o caso de países da América Latina, Ásia e África. As DIIs são condições crônicas que causam inflamação no trato gastrointestinal. Entre as mais comuns estão a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa.

Esse crescimento chamou a atenção de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu que, em parceria com pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e da Aalborg University da Dinamarca, decidiram mapear o impacto dos alimentos ultraprocessados na microbiota intestinal, o conjunto de micro-organismos –incluindo bactérias, fungos e vírus– que habitam o trato gastrointestinal, e a relação desse impacto com as DIIs.

Os pesquisadores buscaram artigos que relatassem estudos sobre o tema do impacto dos ultraprocessados em três das principais bases de dados científicas da área da saúde: SciELO, PubMed e Cochrane. Com base em critérios de relevância, qualidade metodológica e data de publicação, foram selecionados dez artigos para a elaboração de um estudo de revisão.

Em artigo publicado na revista Nutrients, os autores sustentam que há evidências para relacionar o alto consumo de alimentos ultraprocessados ao desequilíbrio na microbiota intestinal. Esse desequilíbrio ocorre porque a ingestão de ultraprocessados ocasiona uma redução na diversidade de bactérias que vivem no intestino, por um lado, e um crescimento das populações de micro-organismos nocivos à saúde, por outro. Esse desequilíbrio resulta em um processo inflamatório no intestino que favorece o surgimento das DIIs, em especial da doença de Crohn.

“Algumas pessoas ainda desconhecem que é possível modular a microbiota intestinal de acordo com o que se come”, explica Ligia Yukie Sassaki, médica gastroenterologista e professora da Faculdade de Medicina de Botucatu, uma das autoras do artigo. “Alguém que come apenas alimentos ultraprocessados possui uma microbiota pró-inflamatória. Se consome mais fibras, a microbiota é mais saudável. Isso ocorre porque a dieta com fibras resulta na produção de substâncias chamadas de ácidos graxos de cadeia curta, que fazem o equilíbrio de todo o funcionamento do organismo”, conta. Ela coordena o grupo de pesquisa em doença inflamatória intestinal.



Alguém que come apenas alimentos ultraprocessados possui uma microbiota pró-inflamatória. Se consome mais fibras, a microbiota é mais saudável. Isso ocorre porque a dieta com fibras resulta na produção de substâncias chamadas de ácidos graxos de cadeia curta, que fazem o equilíbrio de todo o funcionamento do organismo

Sassaki diz que a população desconhece os sintomas das DIIs e os impactos que elas geram na qualidade de vida. “O paciente sofre muito com diarreia, dor abdominal e muita fadiga. Esse paciente não consegue trabalhar, não consegue estudar, não consegue ter vida social. O que a gente tem visto é um acometimento cada vez maior da população jovem: adolescentes, crianças, adultos jovens, muitas vezes em início de carreira. Isso atrapalha muito. São doenças muito debilitantes quando não tratadas. Podem apresentar complicações e, inclusive, levar um paciente não tratado a óbito”, diz.

O papel da microbiota intestinal

O estudo deixa claro que a microbiota intestinal tem um papel vital na saúde humana. Em um “estado saudável”, ela é responsável pelo metabolismo de nutrientes, degradação e fermentação de fibras, síntese de vitaminas como B12, B6, folato e K, e modulação das respostas imunes do organismo, ou seja, a reação do sistema de defesa e proteção contra micro-organismos que podem causar doenças.

Esses mecanismos são altamente impactados pelo consumo de mais de cinco porções de alimentos ultraprocessados por dia, ou o equivalente a mais de 20% das calorias ingeridas. Isso ocorre porque os aditivos presentes nesses alimentos alteram o equilíbrio entre micro-organismos benéficos e patógenos e geram uma inflamação nos tecidos. Essa condição dá origem às doenças inflamatórias intestinais crônicas, ou seja, que têm tratamento, mas não têm cura.

Uma microbiota desequilibrada também se torna um microambiente favorável à proliferação celular descontrolada, o que pode favorecer o surgimento de diferentes tipos de câncer. Além disso, aumenta o risco de outras comorbidades, como doenças cardiovasculares, autoimunes e neurodegenerativas.

No entanto, a nutricionista Beatriz Gabriela da Costa, que integrou o estudo e faz parte do grupo de pesquisa liderado por Sassaki, explica que também é fundamental considerar que, além do padrão alimentar, a frequência de atividade física, a qualidade do sono, o estresse, o uso de medicamentos, o consumo de álcool e cigarro e o próprio envelhecimento exercem impacto na composição da microbiota intestinal.

“Não podemos afirmar que todo mundo que consome alimento ultraprocessado vai desenvolver a doença inflamatória intestinal, porque é uma doença multifatorial”, pondera Costa. “Existem diversos elementos que levam à doença, incluindo o fator genético, que tem uma importância grande. Mas, dos fatores que podem ser modificados durante a vida, a dieta é um dos mais importantes”, pontua.

Assim, a palavra de ordem quando se fala em alimentação e doença inflamatória intestinal é prevenção. “A nossa ferramenta mais importante é a prevenção. Depois que o paciente desenvolveu a doença inflamatória intestinal, não é possível afirmar que será possível desinflamar o intestino apenas com alimentação. Então, a prevenção é o mais importante”, ressalta Costa.

O que colocar no prato?

Quando questionados, os pesquisadores são categóricos: não há uma dose segura de consumo de alimentos ultraprocessados. A recomendação, portanto, é evitá-los.

A nutricionista Amanda Luísa Spiller, uma das autoras do artigo e participante do grupo de pesquisa em doença inflamatória intestinal da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, explica que “o consumo raro, pontual, não traz consequências”. Porém, a partir do momento em que esses alimentos fazem parte da dieta, torna-se difícil dosar a quantidade ingerida no dia a dia. “O grande problema é que as pessoas estão consumindo de maneira exacerbada. Muitas vezes trocam o prato de comida, uma alimentação saudável, por esses alimentos. Por isso, a gente orienta que não existe um consumo saudável”, alerta Spiller.

A indicação, portanto, é consumir alimentos frescos e minimamente processados. Esses produtos não só promovem a saúde intestinal, como podem reduzir processos inflamatórios e auxiliar no controle da DII. Frutas, legumes, verduras e preparações caseiras, como o tradicional arroz e feijão, devem retornar à mesa.

Uma referência é o Guia Alimentar para a População Brasileira, disponibilizado pelo Ministério da Saúde. O material, produzido em parceria com o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP (Universidade de São Paulo), oferece explicações sobre como escolher e preparar os alimentos, além de indicar os passos para uma alimentação saudável.

Parece saudável, mas não é!

A indústria de alimentos aposta no marketing como uma das principais ferramentas para atrair consumidores. São comuns as embalagens que prometem alimentos enriquecidos com fibras ou vitaminas como forma de conquistar o público por meio de um produto supostamente saudável. Porém, as adições não apresentam os mesmos efeitos fisiológicos que os componentes naturalmente presentes nos alimentos integrais, como frutas e vegetais. A composição dos alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares, gorduras e óleos, também é capaz de neutralizar os benefícios potenciais de vitaminas e fibras adicionadas.

“Muitos alimentos que se apresentam como fitness, ou seja, como saudáveis, não são. Muitos deles possuem uma lista de aditivos, e as pessoas têm aumentado muito o consumo pensando que vai trazer benefícios. Na verdade, esse alimento também acaba modificando a microbiota intestinal. Por isso, cada vez mais, temos incentivado o consumo de alimentos in natura, que as pessoas têm consumido menos, e evitar esses alimentos industrializados”, afirma Spiller.

O momento da refeição

Além de escolher os alimentos e a forma de combiná-los e prepará-los, a alimentação também está relacionada ao modo de comer. Portanto, para estabelecer um padrão alimentar saudável, é preciso se atentar a algumas práticas no momento da refeição.

O nutricionista Ryan Nunes Yoshio Yoshihara, que atua no grupo de estudo em doença inflamatória intestinal da Unesp e é um dos autores do artigo, explica que o primeiro passo é a escolha do ambiente para se alimentar. “Comer em um ambiente que seja apropriado, calmo, é importante. Estar na companhia de pessoas que você gosta também faz muita diferença”, afirma.

A outra recomendação diz respeito à regularidade. O ideal é se alimentar várias vezes ao dia e evitar distrações nesses momentos, para manter o foco na refeição. “Tudo isso influencia em uma alimentação saudável. Dessa forma, a gente consegue melhorar e estabelecer um padrão alimentar que traga benefícios ao organismo”, destaca Yoshihara.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas