
No longínquo ano de 1989, poucos meses antes da eleição presidencial, tive a minha mais importante aula no curso de jornalismo, ministrada pela saudosa professora Maria Helena Viana. Na ocasião, graças a ela, este futuro cronista de sete leitores, que era um moleque bobo de 19 anos, com a estrelinha do PT no peito, aprendeu a definição de lead, ou seja, aquelas seis perguntinhas a que todo texto jornalístico deve responder: Quê? Quem? Como? Quando? Onde? Por quê?
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O problema foi a aula do dia seguinte, quando um professor comunista veio e apresentou a famosa 11ª tese sobre Feuerbach, formulada pelo jovem Karl Marx em 1845:
“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diferentes maneiras; a questão, porém, é transformá-lo”.
Quase todas as aulas que tive durante os quatro anos de curso foram um prolongamento da frase de Marx, e não da aula de Maria Helena. Em outros termos: se quisesse ser jornalista, bastar-me-ia aquela primeira aula. Infelizmente, o maior objetivo dos cursos de jornalismo não é preparar bons jornalistas, amantes da verdade factual, mas sim adestrar militantes de redação. E foi isso que eu me tornei, até abandonar as ilusões esquerdistas pelas razões que já descrevi em meus livros e crônicas.
A frase de Marx, aparentemente inocente, teve gravíssimas consequências, não apenas para o jornalismo, mas para a própria civilização. Como explica Olavo de Carvalho em seu magistral “O Jardim das Aflições”, a 11ª tese sobre Feuerbach significa “a abolição do conceito de verdade objetiva e submissão de toda atividade cognitiva às metas e critérios da práxis revolucionária; a absorção da lógica na retórica, da ciência na propaganda ideológica”.
O decreto que impôs a obrigatoriedade de diploma para o exercício do jornalismo foi promulgado em 1969, durante a vigência do AI-5. Era uma forma que os militares da ditadura, com sua estupidez positivista, encontraram para controlar as redações de jornais. O efeito foi exatamente o contrário: duas décadas do tal decreto, a maioria das redações estava dominada pela militância petista (como denunciava, naquele ano de 1989, o grande jornalista sem diploma Paulo Francis).
A esquerda, com sua estratégia gramsciana de ocupação de espaços, transformou quase todas as redações em valhacoutos de militantes esquerdistas, com poucas e honrosas exceções, como esta Gazeta do Povo. Uma pesquisa realizada em 2022 pela Universidade Federal de Santa Catarina mostrou que 81% dos jornalistas brasileiros se declaram de esquerda, e apenas 4% dizem ser de direita. Levando-se em conta que no Brasil até a direita é de esquerda, imagino que o quadro real seja ainda mais devastador.
É por isso que Alexandre de Moraes e Flávio Dino querem agora desenterrar a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Trata-se de uma medida preventiva para evitar que qualquer informação incômoda para o regime venha a ser divulgada por cidadãos livres que amam a verdade, e não a ideologia. No fim das contas, tudo se resume, como bem lembrou um amigo, o professor Eduardo Cabette, ao diálogo entre Alice e Humpty Dumpty no capítulo VI de “Alice Através do Espelho”:
— Quando eu uso uma palavra — disse Humpty Dumpty, num tom bastante desdenhoso —, ela significa exatamente o que eu quero que ela signifique… nem mais, nem menos.
— A questão é — disse Alice — se você pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.
— A questão — disse Humpty Dumpty — é saber quem é que manda… e ponto final.
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Autor: Gazeta do Povo








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