
Conheci as músicas de Carlos Maltz nos anos 90, nos tempos da República da Humaitá, quando éramos todos militantes de esquerda. Naqueles dias de vertigem e ilusão, o som dos Engenheiros do Hawaii era a trilha sonora de uma geração que buscava sentido na poeira da ideologia. Hoje, 40 anos depois, continuo ouvindo o Maltz, mas com uma diferença essencial: tenho o orgulho de chamá-lo de amigo.
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Baterista e fundador de uma das bandas mais emblemáticas do rock nacional, nascida em Porto Alegre em janeiro de 1985, Maltz ajudou a desenhar o imaginário sonoro do país. Ao lado de Humberto Gessinger, gravou dez discos de ouro e um de platina, arrastando multidões por todo o Brasil, pela União Soviética, Estados Unidos e Japão. Nascido no histórico 24 de outubro de 1962 — dia da crise dos mísseis em Cuba —, o filho de Leão e Marta parece ter trazido do próprio berço o destino de caminhar sob climas tempestuosos.
Homem de família, casado com Ana, pai de Mariana, Rosana e Larissa, e avô de Antônio, José e Miguel, Carlos Maltz nunca se deixou aprisionar pelo molde estreito do “ex-popstar”. Ao deixar a bateria do trio gaúcho nos anos 90, partiu para novas e profundas buscas. Graduou-se em Psicologia em Brasília e tornou-se um arguto estudioso da obra de Carl Jung e da astrologia simbólica, além de escrever dois romances. Hoje, vivendo na tranquilidade de Joaçaba, em Santa Catarina, mantém o pulso firme no ritmo da vida, tocando com a própria família na banda Os Maltz.
No entanto, por ter a coragem de assumir posições abertamente conservadoras, Carlos Maltz tornou-se alvo de olhares atravessados, patrulhamentos rasteiros e tentativas de cancelamento por parte de antigos colegas de profissão — gente que confunde arte com histeria ideológica. Mas quem conhece a trajetória e a honestidade de Maltz sabe que ele prefere o desterro dos rótulos à subserviência do rebanho. A seguir, uma conversa franca com um artista que não vendeu a sua alma:
Paulo Briguet: O que você, um roqueiro de direita, tem a dizer sobre a omissão (quando não a cumplicidade) dos rockeiros de esquerda diante das atrocidades socialistas no Brasil e na América Latina nos últimos 36 anos?
Carlos Maltz: Há uma ideia do crítico H. L. Mencken que considero vital para qualquer artista: ele não pode estar a serviço de uma ideologia. O artista é escravo de si mesmo — daquilo que Jung chamava de self, esse eu superior, essa consciência. Se não for fiel ao que os próprios olhos veem e ao que a própria consciência avalia, o artista não serve para nada. E isso vale não só para os roqueiros, mas para qualquer artista: quem vende ou aluga a sua consciência — por dinheiro, por interesse, para ficar bem na foto ou receber aplausos — comete uma espécie de suicídio existencial. A partir daí, deixa de servir para qualquer coisa.
Quem vende ou aluga a sua consciência comete uma espécie de suicídio existencial
Carlos Maltz
Paulo Briguet: “Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada.” Quando ouvi esse verso pela primeira vez, eu era militante de esquerda, e ele me deixou com uma pulga atrás da orelha. Como membro dos Engenheiros do Hawaii, você era alvo de patrulhamento mesmo antes de sair do armário conservador?
Carlos Maltz: O primeiro disco dos Engenheiros já tinha essa disposição de ser fiel à consciência e mandar chumbo, doa a quem doer. Logo na primeira faixa, “Toda Forma de Poder”, já descíamos o sarrafo em cima de Fidel e Pinochet — provavelmente um dos gestos mais ousados que uma banda de rock brasileira já fez. E olha que essa música virou trilha de novela da Globo!
A gente era tão outsider, tão fora do circuito, que nem chegava a perceber se sofria perseguição. A mídia de rock, de modo geral, sempre bateu em nós — pelo menos nos dez anos em que estive na banda. Os Engenheiros não eram uma banda chique nem da moda, não convivíamos com o pessoal de São Paulo ou do Rio, não éramos da turma dos “intelectuais” do rock. E, para piorar (do ponto de vista deles), ainda fazíamos sucesso popular — discos de ouro, de platina. Esses caras nos detestavam, nos execravam por não fazermos parte da turminha.
Mas isso, do ponto de vista artístico, era ótimo para nós: nos dava uma liberdade enorme para fazer o que bem entendíamos. Não devíamos nada a ninguém, não fazíamos parte de sindicato nenhum, atirávamos no que queríamos e falávamos o que pensávamos. A crítica de rock paulistana batia em nós a priori — descia o cacete antes mesmo de ouvir o disco. Então sim, fomos discriminados de todas as formas possíveis.
Paulo Briguet: Uma característica dos velhos roqueiros — e também dos ícones da MPB — é que quase todos vivem do passado e não produzem nada de novo. Em geral são ex-compositores. Você, ao contrário, criou muita coisa boa e nova, até no campo da literatura. Fale sobre seu trabalho nos últimos anos. O que mais lhe dá orgulho no passado e no presente?
Carlos Maltz: Acho que houve algo dramático no Brasil, um divisor de águas. Muita gente — não só do rock, mas escritores e artistas em geral — não percebeu que o sistema muda de lado com rapidez, sem apego, sem ética. A maior parte dessas pessoas ficou presa à forma, à imagem, aos slogans do passado, à luta contra a ditadura, à esquerda democrática de outrora.
Você vê essas pessoas falando hoje como se fossem a mesma pessoa de 40 anos atrás, repetindo o discurso dos anos 80
Carlos Maltz
Considero isso um drama, e inclusive estou começando a escrever um livro de ficção sobre o fanatismo, cujo personagem principal é um fã dos Engenheiros do Hawaii que envelhece agarrado às ideias daquela década.
O que posso fazer? Como falei recentemente num vídeo: continuei vivo e continuo fiel aos meus olhos e à minha consciência, porque essa é a obrigação do artista — não digo isso com orgulho, como se fosse um mérito especial, mas como o próprio Mencken colocou: é obrigação. Quando percebi que estava enganado, equivocado, mudei de lado. Vi que estava do lado errado da história, que o bonde que eu tinha pegado já tinha parado, e eu achava que ainda estava andando. Desci daquele bonde e peguei outro. O que mais eu poderia fazer?
Os livros que escrevi têm mais de dez anos, publicados num momento em que depois fiquei parado, precisando reciclar minha forma de ver muita coisa. Agora estou voltando a escrever, já dentro dessa nova perspectiva — e é isso que mais me motiva hoje, o que me dá vontade de viver, estudar, ler e escrever, mesmo neste momento tão depressivo que estamos vivendo.
Paulo Briguet: Por que você escolheu morar em Santa Catarina?
Carlos Maltz: Até a pandemia eu morava em Brasília, para onde fui no começo dos anos 2000 — mais de 20 anos morando lá. Na época da pandemia, morava num condomínio e vi os próprios funcionários virarem agentes de uma espécie de gestapo sanitária. Foi aí que disse para a Ana, minha mulher: “meu bem, temos que nos mandar, isso aqui não tem a menor chance de sobrevivência”.
Percebi logo que aquela história de pandemia era algo fabricado, um teatro, e que não seria um episódio isolado, mas o primeiro de uma série de acontecimentos que ainda estão por vir. Decidimos que precisávamos morar numa cidade pequena do interior, onde as pessoas se conhecessem e fosse mais difícil transformar a população em coisa — ou em carcereira de um campo de concentração global.
A ideia era vir para a região Sul. Primeiro olhamos o Rio Grande do Sul, mas nenhum lugar nos fez brilhar os olhos. Depois conhecemos Joaçaba, em Santa Catarina, e gostamos mais. Meus conterrâneos gaúchos não vão gostar dessa resposta — vão me chamar de traíra, de vendido — mas sinto muito: quando saí do Rio Grande do Sul, na década de 80, o estado estava muito à frente de Santa Catarina. Hoje, Santa Catarina deu pelo menos cinco voltas na pista em relação ao Rio Grande do Sul.
Paulo Briguet: Vamos falar sobre dois de seus mestres? Como Carl Gustav Jung e Olavo de Carvalho entraram na sua vida e o que eles representam para você?
Carlos Maltz: Daria para passar horas só nessa pergunta, Briguet. Comecei a ler Jung no começo dos anos 90, no auge da banda — e o auge, em geral, vem casado com a crise. Eu vivia uma crise de identidade forte, percebendo que estava deixando de ser uma pessoa para virar um personagem, inclusive para minha própria família. Isso mexeu muito comigo e me levou a estudar a psicologia junguiana e, por essa mesma porta, a astrologia simbólica.
Para mim, Jung ainda está à frente do que se faz na psicologia hoje, que seguiu um rumo extremamente materialista — o estudo do cérebro, da sociedade, sempre em busca de uma causa externa, de um culpado. Jung está fora disso: vem do século XIX numa busca pelo que se poderia chamar de espírito. Ao romper com Freud, ele inaugura uma investigação sobre o que é eminentemente psicológico na psique — não o cérebro, não a sociedade, não o remédio psiquiátrico, mas algo próximo do que chamamos de alma.
Conheci Olavo de Carvalho tardiamente, em 2015 — comprei O Imbecil Coletivo e depois li, quase em sequência, Nova Era e a Revolução Cultural e O Jardim das Aflições, já no começo de 2016. Não lembro exatamente o que me levou a comprar o primeiro livro — talvez algum vídeo dele na internet —, mas tive a sorte de perceber logo a genialidade do autor.
Olavo é raro: um gênio da filosofia, uma espécie de Sócrates contemporâneo, alguém que não é especialista em nada e, ainda assim, consegue trazer uma visão clara e abrangente do todo. Tenho quase certeza de que ele será reconhecido mundialmente como um gênio da nossa época. Por ter se envolvido diretamente com os acontecimentos do Brasil, acabou respingado pela polarização do país — e acho que muita gente ainda não percebe sua grandeza.
Jung e Olavo têm em comum essa liberdade de estudar o que bem entendem, sem se enquadrar em escolas ou dogmas, seguindo apenas a própria consciência — indivíduos no sentido mais elevado da palavra. Cada um, a seu modo, trouxe uma renovação para o cristianismo, o que não é para qualquer um: exige uma amplitude de visão capaz de ligar assuntos tão dispares. São dois generalistas, capazes de contextualizar a cultura de sua época dentro do universal — pessoas totalmente fora da curva.
Não tive a sorte de conhecer Olavo pessoalmente, nem cheguei a explorar seu pensamento astrológico na época em que estudava o tema — algo que estou fazendo agora. E é a mesma sensação: onde quer que ele entre, seu olhar é genial, livre de qualquer teoria prisioneira, como se enxergasse o mundo pela primeira vez.
Paulo Briguet: Você tem esperança, Maltz?
Carlos Maltz: Sempre. Não somos algo que aconteceu por acaso: fomos criados por Deus para chegar à vitória, à glória, à salvação, para nos reunirmos com Ele novamente um dia. Não tem como não ter esperança, aconteça o que acontecer, passemos pelo que tivermos que passar. Acho que o Criador gosta dos dramas da vida — quer nos ver vivos, lutando, vencendo. Ele não entrega na bandeja, gosta de peleja. Por isso não há como não seguir esperançoso, sabendo que caminhamos na direção do nosso Pai Criador e atravessaremos o que for preciso atravessar.
Não há como não seguir esperançoso, sabendo que caminhamos na direção do nosso Pai Criador e atravessaremos o que for preciso atravessar
Carlos Maltz
Paulo Briguet: Um dos discos mais importantes dos Engenheiros, “A Revolta dos Dândis”, tem um título inspirado na obra de Albert Camus. Após a Segunda Guerra, Camus sofreu um linchamento moral por parte da esquerda francesa ao denunciar o totalitarismo soviético. Você se identifica com ele?
Carlos Maltz: É uma enorme coincidência você perguntar isso, pois estou relendo “O Homem Revoltado” agora. O protagonista do romance que estou escrevendo é um fã dos Engenheiros que tenta entender o impacto daquele disco de 1987 ao longo da vida.
Camus era um filósofo de verdade, um intelectual que não trapaceava a si mesmo para ficar bem na foto ou agradar a turminha. Em 1951, ao publicar “O Homem Revoltado”, ele foi execrado pela intelectualidade francesa — encabeçada por Sartre — porque teve a coragem de denunciar os crimes de Stalin. Um intelectual honesto não desculpa atrocidades, e Camus defendeu o ser humano antes de defender sistemas teóricos abstratos. Por isso, o pensamento dele foi reduzido, de forma simplista, a uma “tese de direita”.
Acho que a coisa mais parecida que temos hoje é o próprio Olavo de Carvalho: a coragem de confrontar a verdade, doa a quem doer. Guardadas as proporções, vivemos no Brasil atual algo muito parecido com a França daquela época: uma classe artística e intelectual que faz vista grossa a graves arbítrios em nome de uma ideologia. Nesse sentido, a coragem e a sinceridade de Camus continuam mais necessárias do que nunca.
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Autor: Gazeta do Povo








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