
O fato essencial sobre Capitalism: A Global History, de Sven Beckert, é seu tamanho e seu alcance. O livro tem 1.100 páginas, além de outras 150 páginas de notas finais, impressas em uma fonte tão pequena que são ilegíveis sem uma lupa, e seus agradecimentos ocupam quase meio capítulo, com mais de 3 mil palavras. Capitalism pesa cerca de 2,3 quilos. Quanto ao alcance, é global e cobre mil anos. Como Beckert afirma na introdução: “Este livro entende o capitalismo, acima de tudo, como um desenvolvimento global cujas manifestações locais só podem ser compreendidas globalmente” (ênfase no original). Ou, entre as muitas reformulações desse ponto ao longo das 1.100 páginas: “O capitalismo não pode ser compreendido em termos locais, regionais ou nacionais; só pode ser compreendido concentrando-se na combinação e recombinação permanentes de seus fragmentos ao redor do mundo.” Se Capitalism tivesse sido publicado não agora, mas talvez algumas décadas no futuro, quando houvesse colônias espaciais ao estilo de Elon Musk, presumivelmente insistiria em uma história universal do capitalismo — e certamente o livro seria ainda mais extenso.
Tamanho e alcance mantêm uma relação de cooperação em Capitalism, pois a justificativa formal para a extensão do livro é justamente seu alcance. Como o capitalismo sempre foi global e sua história remonta, segundo o argumento do livro, a aproximadamente o ano 1000, ele precisa ser gigantesco. E, ainda assim, Capitalism também cultiva a impressão de que não é o alcance que determina o tamanho, mas o contrário — é o tamanho que determina o alcance. Há referências à cátedra do autor em Harvard; os agradecimentos revelam que uma “equipe” de assistentes de pesquisa e estudantes de doutorado está por trás de grande parte da pesquisa; lemos que professor, assistentes e estudantes receberam financiamento substancial não apenas para examinar e organizar a literatura acadêmica, mas também para visitar arquivos em todos os cantos do mundo; e que grandes nomes da área garantiram que o autor pudesse seguir sua carreira como bem entendesse.
Portanto, o argumento de Capitalism, segundo o qual a “única” maneira de compreender seu objeto é adotar uma perspectiva global — com o corolário de que a história global exige uma quantidade gigantesca de pesquisa — funciona para justificar as capacidades únicas do autor, isto é, o tempo, o dinheiro e os talentos que se acumulam em alguém que ocupa uma posição acadêmica privilegiada. Capitalism apresenta a história global como algo que consome recursos para produzir.
Em seguida, vem o vocabulário de Capitalism. Abaixo está uma lista de palavras recorrentes, que conduzem a história desde o Golfo de Áden na virada do primeiro milênio, passando pelo surgimento das plantações escravistas em escala global no início da era moderna, até os episódios modernos de urbanização, guerras e Estado de bem-estar social: forge (como verbo, “forjar”), spatial (“espacial”), swathes (“vastas extensões”), Anthropocene (“Antropoceno”), Eurocentric (“eurocêntrico”), foregrounds (“coloca em primeiro plano”), simultaneity (“simultaneidade”), globality (“globalidade”), logics (“lógicas”), archipelago (“arquipélago”), nodes (“nós”), islands (“ilhas”, em sentido metafórico), zones (“zonas”), ratchet (“mecanismo de engrenagem”), shape-shifting (“mutável”), Indigenous (“indígena”), privatized (“privatizado”) e totality (“totalidade”). Mas a palme d’or vai para forge. É a heroína do proletariado do jargão intelectual que o autor trabalha ao longo das 1.100 páginas — a operária que conduz o livro do início ao fim. Ela está, simplesmente, em toda parte.
Desde a primeira página, logo depois da frase inicial e da voz passiva — “Vivemos em um mundo criado pelo capitalismo. A acumulação incessante de capital forja as cidades em que vivemos” — aparece o inevitável forge. A forja, em sua forma substantiva, foi um grande exemplo do capitalismo em sua fase ascendente, mecanizada a tal ponto que uma fábrica podia manipular um lingote de aço como se fosse um brinquedo e transformá-lo em bens de capital extremamente resistentes. Uma cidade é uma mistura de coisas duras e macias: edifícios e estradas rígidos, paredes de gesso, dutos e espaços internos, sem falar nos parques e passeios onde as pessoas trabalham e vivem. Quão poético é dizer que as cidades surgem pelo processo da forja? Nem um pouco, na verdade. Eis outro exemplo de forge na voz passiva: “Essa proeminência social, em grande parte forjada pelo trabalho das mulheres, ajudou os Fuggers a se tornarem os principais financiadores de muitos dos líderes europeus, incluindo seus papas.”
Quanto ao conteúdo, que apesar do volume do livro pode se perder por causa da atitude e das preferências literárias do autor, a função dos primeiros cerca de 400 anos — aproximadamente de 1000 a 1400 d.C. — é servir de suporte para ridicularizar a Europa. Mercadores egípcios, asiáticos e de outras partes do mundo atravessavam terra e mar com mercadorias nessa época, criando a oportunidade para lançar estas palavras contra uma Europa comparativamente menos sofisticada:
Os europeus que habitavam as franjas mais ocidentais e setentrionais do universo comercial islâmico eram pouco impressionantes em termos de agricultura ou manufatura. Os comerciantes europeus eram retardatários em comparação com seus pares do Oriente Médio ou da Ásia; seu poder comercial, sua infraestrutura institucional e sua vida urbana não chegavam aos pés dos deles. As cidades europeias eram insignificantes diante de Bagdá, Áden, Cairo, Hangzhou e Cambay.
A Europa permaneceu relativamente marginal na economia global. Os comerciantes árabes sequer se davam ao trabalho de distinguir entre os diferentes povos que viviam nas margens de seu mundo. […] A posição dos comerciantes europeus era tão fraca que eles precisavam aceitar mercadorias inferiores nas trocas com seus parceiros orientais. Mesmo à medida que sua economia se comercializava, os europeus olhavam maravilhados para o mundo islâmico.
Algumas páginas depois: “As redes comerciais construídas por esses mercadores africanos eram sofisticadas.”
É útil revisitar a vitalidade econômica não europeia de 600 a 800 anos atrás? Talvez. Mas o tom de Beckert ao tratar desse assunto é tão consistentemente respeitoso e elogioso que o leitor começa a suspeitar que o que o aguarda em Capitalism não é tanto história, mas a organização da história para que ela se encaixe em uma determinada opinião sobre a própria história.
Depois de 150 páginas, surge o verdadeiro objetivo. O coração do livro, o tema no qual o autor se deleita, é a história das economias escravistas do início da era moderna, iniciadas e lideradas pelos europeus. Barbados, sob domínio inglês; os territórios espanhóis de prata nos Andes; as empreitadas holandesas na Indonésia; e Saint-Domingue (Haiti), sob domínio francês, recebem destaque em Capitalism. Uma repetição da tese do livro introduz a reflexão sobre a escravidão na era moderna:
“O capitalismo tem apenas uma história — uma história mundial, com uma de suas principais faíscas nas florestas, terrenos áridos e pântanos das ilhas do Caribe e do continente americano.”
A tese secundária de Capitalism é que o Ocidente tornou-se materialmente confortável o suficiente para financiar sua tão celebrada civilização por meio da exploração distante de pessoas e ambientes em grau extremo. O autor escreve que o “fora” sem lei teria fornecido a base para o surgimento dos Estados liberais e ordeiros que existiriam posteriormente em seu “interior”.
O leitor começa a suspeitar que o que se encontra em Capitalism não é tanto história, mas a organização da história para que ela se encaixe em uma determinada opinião sobre a história.
Sem dúvida, as ilhas escravistas dos séculos XVII e XVIII produziam mercadorias, como o açúcar, de grande valor para as metrópoles do outro lado do oceano. E é evidente que, em muitos casos, esses lugares eram extremamente violentos. No entanto, o desenvolvimento da civilização em Saint-Domingue do século XVIII, para tomar o “fora” central do livro como exemplo, é um tema amplamente conhecido pela memória francesa e haitiana, sem mencionar a produção acadêmica especializada.
Em Capitalism, sentimos falta da rica historiografia sobre a escravidão comparada. É particularmente preocupante que não encontremos nada convincente sobre a influência da religião na escravidão americana. O livro equipara explicitamente religião a “ideologia”, um expediente que produz uma história incompleta especialmente nesse tema.
A ligação entre intermediários islâmicos e a escravidão atlântica não é um assunto significativo em Capitalism. Tampouco aparece a tentativa dos traficantes de escravos de contornar a insistência de Roma no casamento sacramental importando exclusivamente homens da África, tornando a reprodução impossível e aumentando a demanda por novos carregamentos de escravos. Também não aparece o desenvolvimento da cultura católica nas regiões escravistas, em grande parte pelas mãos dos jesuítas, que, entre outras coisas, em Saint-Domingue contribuíram para um senso de comunitarismo e para uma percepção cada vez mais clara da conveniência de salários justos. O que dizer, então, dessa “tábula rasa”?
Talvez por receio de parecer eurocêntrico, Capitalism trate apenas das margens da maior potência europeia do início da era moderna, a República das Duas Nações — Polônia-Lituânia. Sua discussão se limita à maneira como comerciantes holandeses se estabeleceram em Gdansk, de modo que, “no século XVII, as terras agrícolas da Europa Oriental eram praticamente uma colônia econômica holandesa”.
A incrível produtividade agrícola da relativamente pacífica Polônia-Lituânia durante o longo período de guerras religiosas na Europa Central, iniciado com a Reforma e culminando na monstruosa Guerra dos Trinta Anos (1618–1648), vem sendo cada vez mais esclarecida pela historiografia. Ela foi tanto uma demonstração da força do princípio de tolerância religiosa da República dos Nobres quanto um estímulo que obrigou a Inglaterra a se envolver na Revolução Agrícola. O trigo chegava em grandes quantidades aos mercados a partir das regiões orientais do norte europeu, e a Inglaterra percebeu que precisava igualar o preço e a qualidade desses produtos agrícolas para acompanhar o ritmo.
Ainda assim, encontramos em Capitalism apenas superficialidades sobre essa revolução agrícola, pré-requisito essencial para a sociedade urbana industrial. “Graças às técnicas agrícolas superiores dos novos agricultores, a produtividade melhorou” na Inglaterra a partir de 1740 — e praticamente isso é tudo.
E, de acordo com a desvalorização axiomática da religião, a enorme migração de judeus europeus para a Polônia-Lituânia nesse período é um assunto inexistente. Há pouquíssima história judaica neste livro — sobre a história do capitalismo.
Capitalism perde força quando entra na sociedade industrial e se deteriora em atenção ao longo de centenas de páginas, até o fim. Quando as ilhas escravistas do Caribe ficam para trás, o tom de indignação que sustentava o livro torna-se deslocado, e a narrativa passa a ficar estranha.
O Metropolitan Museum of Art, em Nova York, teria fracassado em sua missão civilizadora porque fechava aos domingos, dia de folga dos trabalhadores da cidade. O livro dedica bastante espaço à empresa industrial Röchling, na Alemanha do fim do século XIX e início do XX. Há muitos exemplos de grandes empresas extremamente bem-sucedidas nesse período. Esta recebe uma análise aprofundada, talvez porque os Röchling tenham se envolvido profundamente com Hitler e cometido crimes durante a Segunda Guerra Mundial.
O grande número de empresas americanas comparáveis ou ainda maiores, que produziram quantidades prodigiosas de bens industriais, incluindo enormes volumes enviados para derrotar a Wehrmacht na Frente Oriental, pareceria oferecer exemplos ao menos tão dignos de análise sobre o que o capitalismo estava fazendo até o início dos anos 1940.
Capitalism exalta apenas um período: o do Estado de bem-estar social do pós-Segunda Guerra Mundial. Dedica-se a um único exemplo, o da Suécia, que instituiu férias remuneradas, ofereceu habitação pública e ampliou seu sistema de previdência, entre outras reformas. Os resultados foram uma prosperidade generalizada e admirável.
“O extenso Estado de bem-estar social melhorou radicalmente a vida dos suecos.” O partido socialista sueco, o SAP, foi responsável pela vitória. “Desde os anos 1930, o SAP chamava a política social de ‘investimento produtivo’, querendo dizer que a sociedade se tornava mais eficiente quando os cidadãos podiam contar com mecanismos de proteção. E o SAP estava certo.”
Será que o Partido Trabalhista também estava certo no Reino Unido, quando o governo, a partir de 1945, nacionalizou de maneira abrangente a indústria britânica e o país permaneceu como o retardatário em crescimento da Europa durante os anos 1960?
A preocupação central do último capítulo, que cobre o período de 1973 até o presente, é o movimento intelectual “neoliberal” que defendia mercados livres e o desmantelamento do Estado de bem-estar social.
Ao escolher esse foco, Capitalism negligencia o principal desenvolvimento estrutural desse período: a ascensão da empresa empreendedora em detrimento da estrutura corporativa tradicional das grandes empresas empregadoras. Segundo Beckert, porém, a grande novidade a partir dos anos 1970 foi que “intelectuais como Friedrich Hayek, Milton Friedman e Ludwig von Mises ganharam destaque. Apesar de suas diferenças, eram todos pensadores utópicos com uma crença quase religiosa nos mercados” — e, ainda assim, Capitalism se distingue por se recusar a compreender a religião.
A construção da Amazon por Jeff Bezos recebe meia frase. Sobre algumas outras empresas, diz-se apenas que elas “chegaram ao cenário”. Não ouvimos nada sobre o novo ambiente de impostos baixos que permitiu que engenheiros talentosos se desligassem das empresas tradicionais e criassem novos negócios que derrubaram os antigos.
Esse foi o verdadeiro drama do capitalismo nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Em vez de narrar essa rica história, Capitalism apresenta ataques aos teóricos do livre mercado — o que equivale simplesmente a uma tentativa de marcar pontos em uma disputa entre professores.
O marxismo ocidental do pós-Segunda Guerra Mundial escorre de cada página de Capitalism. “Totalidade” era um conceito central do marxismo de meados do século XX. Os marxistas aspiravam a explicar tudo — economia, mundo, sociedade, cultura — por meio de um único arcabouço interpretativo: o deles.
Capitalism tenta construir do zero uma totalidade global e afirmar que essa montagem é tudo. Seleciona um milhão de particularidades de mil anos de história mundial e diz, na prática: “Desprove o padrão geral — ou apresente um milhão de particularidades alternativas que se encaixem no seu próprio padrão, caso você tenha tempo e recursos para isso.”
A propaganda do marxismo ocidental, mesmo sob uma roupagem acadêmica, já era cansativa nos anos 1950. Encontrá-la novamente nos anos 2020 é anacrônico.
Capitalism de fato faz algumas críticas a Marx aqui e ali, mas não consegue afastar o leitor da impressão geral. A grande ironia da visão de mundo do livro é que ela deve tudo à cultura europeia — à dinâmica de oposição marxista dentro dessa cultura — cuja relevância atualmente, em qualquer lugar do mundo, está longe de ser evidente.
Brian Domitrovic é pesquisador do Laffer Center, instituto americano dedicado à defesa e ao estudo da economia de livre mercado e da chamada economia pelo lado da oferta. Doutor em História por Harvard, é autor ou coautor de vários livros sobre história econômica, entre eles JFK and the Reagan Revolution, Econoclasts e Free Money: Bitcoin and the American Monetary Tradition.
©2026 Acton Institute. Publicado com permissão. Original em inglês: Capitalism’s Western Marxist History
Autor: Gazeta do Povo








.gif)












