
Um homem leva dez anos para voltar à sua casa, e milhões de pessoas pagaram para ficar sentadas três horas no escuro vendo como ele tenta. O número desconcerta um pouco: numa época que se orgulha de olhar para frente, a história de maior bilheteria é a mais antiga de todas, um poema que já era antigo quando Roma ainda era jovem. Já se disse que é nostalgia, que voltamos aos clássicos como quem se refugia em um álbum de fotos em tom sépia. Mas essa explicação não se sustenta, porque a nostalgia esvazia as salas em vez de enchê-las. Se tantos foram ver A Odisseia, é porque algo nessa história — mais do que o fanatismo por Nolan e o prodígio técnico de uma filmagem em IMAX 70 mm — continua tocando um nervo que acreditávamos anestesiado.
Talvez haja alguma explicação na própria palavra. Dizemos nostalgia com leveza, como sinônimo de uma saudade adocicada; mas ela é formada por duas vozes gregas: nostos, retorno, e algos, dor. Nostalgia é, literalmente, a dor do retorno. E aí fica diagnosticada a nossa época: conservamos o algos e perdemos o nostos. Dói a distância, mas já poucos acreditam que exista um lugar ao qual voltar. Fica a pontada, sem o caminho. Por isso um relato sobre um homem que de fato retorna mexe tanto: mostra realizado um desejo que carregamos sem nomeá-lo.
Voltar, ao contrário do que parece, não é apenas questão de vontade. Não basta querer; é preciso que algo tenha permanecido imóvel no outro extremo da viagem. O retorno não depende só de quem caminha, mas da fidelidade daquilo que espera. Ítaca é alcançável porque continua ali; Penélope dá sentido à travessia porque ela espera. Se a casa tivesse sido vendida e a esposa tivesse se casado, Odisseu não seria um herói que chega tarde, mas um desterrado sem destino, um vagabundo condenado à aventura por falta de lar. O que transforma um errar em uma odisseia — isto é, em um retorno — é que alguém, do outro lado do mar, não partiu.
Homero sabia disso, e por isso o coração de seu poema não é uma batalha, mas uma espera. E sabia mais: que a casa à qual se retorna precisa ter raízes. Quando Odisseu finalmente chega, disfarçado e desconhecido, o que o comprova diante de Penélope não é uma cicatriz nem a força de retesar seu velho arco, mas um segredo conjugal: o leito nupcial está talhado sobre o tronco de uma oliveira ainda enraizada na terra, e o quarto foi erguido ao redor daquela árvore. Ninguém pode movê-lo sem derrubar a oliveira. A prova de identidade é o conhecimento do que não pode ser deslocado.
Tudo isso, no entanto, é insuficiente, porque o retorno que realmente inquieta não é geográfico. Nenhuma casa sacia essa sede. Santo Agostinho deu nome a essa inquietação numa frase que resume toda a condição humana: fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração permanecerá inquieto até que descanse em ti. O homem é um peregrino, e a pátria que ele anseia é Aquele de quem saiu. São Tomás disse assim: o fim corresponde ao princípio (S. Th. I-II, q. 2, a. 5, ad 3). O destino coincide com a origem; a saudade da sala escura era, sem saber, anseio por Deus.
E é aqui que a história de Odisseu se deixa iluminar por outra, que a cumpre invertendo-a peça por peça. O Evangelho também conta um retorno para casa — a parábola do filho pródigo —, e quem colocar as duas histórias lado a lado verá que cada elemento aparece invertido. Em Homero, quem parte é o pai e quem espera é o filho, aquele Telêmaco que cresce sem nunca tê-lo visto. No Evangelho, os papéis se invertem: parte o filho e espera o pai. Odisseu volta fiel e vitorioso: resistiu a Circe, ao Ciclopes e às sereias, rejeitou até a imortalidade que Calipso lhe oferecia para recuperar sua pequena ilha e sua esposa mortal. Ele merece seu retorno, e precisa demonstrá-lo retesando o arco que ninguém mais consegue retesar. O filho da parábola, ao contrário, volta infiel, depois de ter dissipado tudo, arrastando a fome e um discurso ensaiado para pedir que o recebam como trabalhador. Não traz nenhuma façanha. Não há arco a retesar. Onde Odisseu conquista a casa, ao pródigo a casa é dada.
E o modo como é dada coroa a inversão. Penélope espera imóvel no tear, tecendo e destece ndo, fiel mas estática, aguardando que o outro chegue. O pai da parábola espera de outro modo: quando o filho ainda estava longe, seu pai o viu, comoveu-se e correu ao seu encontro. Não fica à porta esperando que o filho complete o caminho e recite sua confissão; ele o avista no horizonte e se lança ladeira abaixo, e lhe corta o discurso com um abraço. A fidelidade que espera revela-se também uma fidelidade que se antecipa e vai ao encontro.
Essa é a novidade que Homero roçou sem alcançar. A fidelidade de Penélope ainda era condicionada: esperava um marido que valia a espera, um herói digno dela. A do Pai não está condicionada a nada, e menos ainda aos méritos de quem volta, porque quem volta é justamente aquele que dissipou a herança. São Paulo o confirmou: se somos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar a si mesmo. Não é que Deus espere melhor; é que Deus é a fidelidade, e não pode deixar de sê-lo, assim como o fogo não pode deixar de aquecer.
Resta uma última peça, e é a mais difícil de admitir, porque desmonta a velha ideia de que se volta para casa por mérito próprio. Se o retorno dependesse do valor de cada um, não haveria retorno possível: ninguém é Odisseu; todos somos, antes, o filho mais novo. E então, como se volta? Não retesando o arco, mas deixando-se conduzir. É curioso que o filme intua isso melhor que o poema original: na tela, Odisseu só pode partir quando renuncia a confiar em si mesmo, entrega-se a uma balsa frágil e se abandona ao mar confiando nos deuses. Em Homero, o herói desconfia, exige juramentos e governa sozinho o leme sem dormir; mas até ele acaba alcançado, ao fim, pela verdade que não soube formular: o último trecho, aquele que finalmente o deposita em Ítaca, não é remado por ele. Os feácios o levam adormecido, em um sono “semelhante à morte”, e o deixam na areia de sua ilha sem que perceba, ao pé de uma oliveira. O mais astuto e autossuficiente dos homens chega em casa, enfim, dormindo e nos braços de outros.
Isso é o que uma carmelita de vinte e quatro anos compreendeu melhor que muitos teólogos, e chamou de seu “caminhozinho”: pequena demais para subir a dura escada da perfeição, não aspira a escalá-la, mas a ser elevada por um elevador; e o elevador são os braços de Jesus. Não é o arco que abre a casa, mas o abandono; não o mérito, mas a confiança numa misericórdia que já vinha correndo antes mesmo que a desculpa fosse ensaiada. A palavra mais profunda do cristianismo não é uma ordem nem uma façanha: é um par de braços abertos e crucificados. E se o filme desperta, na escuridão, uma emoção que ninguém esperava, talvez seja porque nele se reconhece — sem saber — a forma de toda nostalgia humana: a de voltar à casa do Pai que, mesmo quando nos perdemos longe, nos espera e sai ao nosso encontro.
Álvaro Ferrer del Valle, editor da Revista Suroeste e diretor executivo de Comunidad y Justicia, uma organização chilena de inspiração católica que promove formação, ação social e defesa da dignidade humana.
©2026 Revista Suroeste. Publicado com permissão. Original em espanhol: La Odisea
Autor: Gazeta do Povo








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