São Paulo é assim: às terças, às sextas, na chuva de verão ou no frio de julho, há uma mesa esperando — japonesa, italiana, brasileira, peruana, das 55 nacionalidades gastronômicas que a cidade abriga.
Se a metrópole de 50 mil restaurantes já faturou R$ 34,9 bilhões no ano passado, agora ela tem um argumento a mais para atrair os turistas mais exigentes do mundo: dois endereços que o Guia Michelin considera excepcionais o suficiente para justificar uma viagem.
Na edição 2026 do guia, Ivan Ralston, do Tuju, e Luiz Filipe Souza, do Evvai, tornaram-se os primeiros cozinheiros da América Latina a conquistar três estrelas — o reconhecimento máximo do guia gastronômico mais influente do mundo.
Criado em 1900 pela fabricante de pneus francesa como um manual de estradas para motoristas, o Michelin passou a avaliar restaurantes a partir de 1926 e é hoje o árbitro supremo da alta cozinha.
Três estrelas indicam uma cozinha excepcional que, por si só, “vale a viagem”. São menos de 160 restaurantes no mundo que carregam essa distinção. Agora, dois deles ficam em São Paulo — cidade que entra para um grupo seleto: Tóquio tem 11 restaurantes com a distinção máxima; Paris, nove; Londres, seis; Nova York, cinco.
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No Tuju, no Jardim Paulistano, a porta do salão se abre sozinha quando o cliente atravessa a passarela — alguém lá embaixo avisou pelo rádio que ele estava chegando.
O restaurante, inaugurado em 2014 por Ivan Ralston e pela sommelière Katherina Cordás, organiza seus menus pelas estações das chuvas paulistas: as variações do clima do estado determinam os ingredientes de cada temporada.
O guia descreve a casa como um lugar onde o chef “combina produtos e sabores brasileiros sazonais com as técnicas mais modernas, enfatizando a criatividade e o trabalho de pesquisa”. O menu-degustação tem dez tempos e custa R$ 1.500, mais 15% de taxa de serviço. Todas as mesas estão reservadas até junho.
No Evvai, a poucos quarteirões dali, o primeiro gesto da cozinha é um pequeno sanduíche crocante recheado com manga e pimenta, servido antes mesmo de o cliente sentar.
Aberto em 2017 por Luiz Filipe Souza — que trocou uma carreira no mercado financeiro pela gastronomia —, o restaurante dialoga entre a herança italiana paulistana e os ingredientes brasileiros. Souza nomeou o cardápio de Oriundi, termo que designa os descendentes de italianos espalhados pelo mundo.
Ambos os restaurantes conquistaram a segunda estrela em 2024 e chegaram à edição 2026 entre os mais cotados do guia. São Paulo soma hoje 16 restaurantes estrelados, incluindo os dois novos três estrelas e o D.O.M., de Alex Atala, único paulistano com duas estrelas.
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O reconhecimento internacional chega em um momento de estabilidade para o setor. Mesmo diante da alta nos preços dos alimentos, os restaurantes paulistanos têm resistido a repassar os custos ao consumidor desde o começo do ano — o que tem pressionado as margens de lucro.
A estratégia tem sido adaptar os cardápios com sugestões do chef, aproveitando os produtos em oferta no mercado, para não perder clientes. “A gastronomia da cidade já é muito valorizada no mundo, não só pela própria gastronomia em si, mas pelo acolhimento, atendimento e apresentação dos restaurantes”, disse Joaquim Saraiva, líder executivo da Abrasel-SP.
Para ele, a conquista das três estrelas valoriza o trabalho de quem chegou até lá e fortalece a imagem de São Paulo no exterior — o que se traduz em mais turistas e mais demanda para toda a cadeia do setor, que emprega 605 mil pessoas no estado.
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O impacto não se limita às mesas. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de São Paulo (ABIH-SP), restaurantes de alto padrão aumentam o tempo de permanência do turista na cidade, elevam o gasto médio e ampliam a procura por hospedagem em bairros gastronômicos.
Em setembro de 2025, a hotelaria paulistana registrou recordes históricos de diária média e de receita por apartamento disponível — métrica conhecida no setor como RevPAR —, impulsionada por eventos corporativos, culturais e de entretenimento.
Para 2026, a projeção é de crescimento de 3% no faturamento da hospedagem, com fortalecimento da hotelaria premium e chegada de novos empreendimentos internacionais. “A gastronomia deixou de ser apenas um complemento da viagem para se tornar protagonista na decisão do turista de visitar São Paulo”, afirmou Marcos Vilas Boas, presidente da ABIH-SP.
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Autor: Gazeta do Povo








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