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A IA poderia criar uma ‘classe inferior permanente’? – 09/08/2026 – Economia

Na região da baía de San Francisco, é comum ouvir a mesma história sobre a IA. A tecnologia, segundo muitas pessoas que trabalham nos laboratórios, criará uma “classe inferior permanente”.

Dario Amodei, CEO da Anthropic, fez referência a esse fenômeno em um ensaio publicado neste ano, estimando que 50% dos empregos de nível inicial no setor administrativo e profissional serão afetados nos próximos cinco anos.

A ideia é a seguinte: à medida que os modelos se aproximam da inteligência artificial geral (AGI), uma pequena elite tecnológica será proprietária das plataformas de IA, dos data centers e da energia que movimentam grande parte da economia.

A IA agêntica e a robótica avançada substituirão o trabalho humano como o conhecemos, e a maioria dos empregos desaparecerá. A maior parte da população, segundo a visão predominante em San Francisco, terá poucos ativos e enfrentará dificuldades para obter uma renda decente vendendo sua força de trabalho.

Os economistas deveriam ser céticos em relação a grandes narrativas que carecem de evidências concretas. Certamente, as opiniões dos funcionários de empresas de tecnologia são conjecturas. Os dados do mercado de trabalho oferecem poucas evidências, e pouco conclusivas, de uma disrupção causada pela IA. E alguns dos economistas mais renomados previram que a IA terá um impacto mais modesto.

Mas ainda estamos nos primeiros estágios da adoção da IA. E a teoria da “classe inferior”, embora talvez seja hiperbólica, pode apontar para algumas verdades desconfortáveis.

Se os ganhos se concentrarem principalmente nas mãos dos detentores de capital e de alguns trabalhadores altamente especializados, a dinâmica do mercado de trabalho poderá reduzir as qualificações exigidas de outros trabalhadores e diminuir o custo de sua mão de obra. Se, como consequência, o investimento em capital humano para trabalhadores de baixa remuneração diminuir, a sociedade poderá caminhar para um cenário que se assemelhe, em certa medida, à visão de San Francisco.

Pesquisas sugerem que a automação pode produzir resultados bifurcados no mercado de trabalho. Um estudo de David Autor e Neil Thompson conclui que ela pode tanto aumentar os salários, ao substituir tarefas que exigem pouca especialização, quanto reduzi-los, ao substituir tarefas que exigem alta especialização.

Trabalhadores cujo conhecimento não pode ser substituído por máquinas poderiam obter enormes ganhos salariais, enquanto outros poderiam perder qualificações e meios de subsistência. Um estudo recente da Anthropic também demonstrou retornos maiores do Claude Code entre usuários altamente especializados. (Amodei já havia feito referência anteriormente a outro trabalho de Autor sobre mudança tecnológica baseada em qualificações.)

À medida que a IA aumenta a produtividade, os ganhos provenientes da inovação poderiam se concentrar nas mãos daqueles que possuem capital e conhecimento especializado — isto é, uma forma de capital humano. Um estudo sobre patentes registradas no início dos anos 2000 fornece alguma evidência disso: para cada US$ 1 de valor agregado por uma nova invenção, US$ 0,30 foram destinados aos trabalhadores e US$ 0,70 se transformaram em lucro. A maior parte do aumento na remuneração dos trabalhadores foi para funcionários que já recebiam salários elevados, os quais presumivelmente possuíam maior especialização.

Não deveríamos nos surpreender se os ganhos econômicos provenientes da IA se concentrarem principalmente entre aqueles que constroem os data centers e os modelos de fronteira. Embora os economistas tendam a presumir que as parcelas da produção atribuídas ao trabalho e ao capital permaneçam constantes no longo prazo, o grupo de San Francisco insiste que a IA agêntica substituirá trabalho por capital e alterará esse paradigma.

Os efeitos de segunda ordem da IA no mercado de trabalho poderiam ampliar a distância entre trabalhadores de alta e baixa remuneração. À medida que trabalhadores que perderam qualificações perdem seus empregos, uma oferta excessiva de mão de obra recém-desqualificada poderia pressionar para baixo os salários de todos os trabalhadores de baixa qualificação.

E embora provavelmente surjam novos empregos de baixa qualificação devido à enorme demanda por dados dos modelos de IA, como funções de coleta e agregação de dados, hoje é difícil saber como esses trabalhos serão e quanto pagarão.

A divergência de produtividade poderia ter efeitos de longo prazo. Capacitar e requalificar trabalhadores é difícil. Além disso, pesquisas sugerem que choques na renda dos pais podem prejudicar o desenvolvimento das habilidades dos filhos, transmitindo os efeitos dos salários para a geração seguinte. Evidências indicam que trabalhadores de menor renda investem em capital humano a taxas mais baixas, dificultando a mobilidade social.

À medida que a produtividade entre os trabalhadores divergir, o incentivo para investir em educação e treinamento de pessoas de baixa renda poderá diminuir, ampliando ainda mais a bifurcação.

Alguns não aceitam a visão da “classe inferior”. Em vez disso, argumentam que os ganhos de produtividade proporcionados pela IA aumentarão a produção, reduzirão os preços e beneficiarão os consumidores.

Mas isso depende da forma como a tecnologia amplia a produção: a IA criará muitos softwares baratos, mas contribuirá menos para aumentar a quantidade de bens essenciais cuja oferta é menos elástica, como moradia. Ganhos de produtividade distribuídos de maneira desigual poderiam tornar esses bens menos acessíveis aos trabalhadores que perderam qualificações.

Embora uma “classe inferior permanente” não seja uma realidade iminente, no curto prazo a IA poderia tornar algumas pessoas mais ricas e outras mais pobres. Os formuladores de políticas públicas poderiam, desde já, fortalecer a rede de proteção social em preparação para resultados bifurcados no mercado de trabalho. Mas, se a IA transformar a economia de maneiras fundamentais, as sociedades democráticas talvez precisem repensar como os ganhos de produtividade podem servir melhor ao bem público — para evitar que as visões pessimistas da região da Baía de São Francisco se concretizem.

Autor: Folha

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