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Achava que merecia beber, mas perdi o controle – 28/09/2026 – Vida de Alcoólatra

Com frequência, eu me permitia tomar alguma coisa depois de um dia de trabalho intenso. Afinal, eu merecia. Fiz isso inúmeras vezes. Comecei tomando um trago, depois aumentei para dois e assim sucessivamente. Em casa, sem sair. Eu comigo mesma. Ali no meu canto, curtindo. Que mal havia? Já tinha trabalhado o dia inteiro, não? Eu merecia.

De repente, já não era mais eu quem escolhia beber: eu havia me tornado escrava daquele drinque de relaxamento. Passei a beber mais e mais e, quando estava sozinha, bebia até me entorpecer. Se estivesse acompanhada, tentava me conter —sentia certa vergonha em me expor assim sem limites, mas nem sempre conseguia. Eu precisava beber. As pessoas achavam que era demais. “Alice, não acha que você está exagerando?” Entrava por um ouvido e saía por outro. Aquelas pessoas me pareciam caretas. Chatas.

Então passei a ir a bares. Era ótimo: quando o chope acabava, já tinha uma nova tulipa sendo servida. Os garçons não estavam nem aí; quanto mais você bebia, melhor. Mais dinheiro para o estabelecimento e mais caixinha para eles.

Um dia, num bar, encontrei um amigo que não via havia muito tempo e ele me chamou para sentar com ele. Tomamos inúmeros chopes, rimos e ele acabou indo para minha casa. Não aconteceu nada, pois eu estava completamente bêbada. Só dormimos. No dia seguinte, quando acordei e me dei conta de que ele estava ali, ao meu lado, fiquei surpresa. Não me lembrava de nada.

Os drinques merecidos começaram a rolar à tarde. Àquela altura, eu trabalhava em casa e achava normal começar a beber depois do almoço. Meus textos começaram a ficar sem sentido. O trabalho, que antes justificava a bebida, acabou sendo engolido por ela.

Perdi o emprego, não tinha mais condições de trabalhar. Achei um exagero ser despedida. Por quê??? Não tinha noção de que meus textos não tinham nexo. Isso quando eu os entregava. E foram tantos os que deixei de fazer…

Sempre inventava uma desculpa. Ora era uma enxaqueca horrível, ora minha avó estava internada entre a vida e a morte. Não parava por aí: matava parentes e precisava ir a um enterro. Tudo mentira. A pior de todas foi quando eu disse que tinha descoberto um câncer e precisava me tratar. Me envergonho demais de tudo que disse. Eu manipulava as pessoas para elas terem dó de mim.

Mas minhas mentiras eram descobertas rapidamente. A do câncer, então, não vingou nem dois dias. E como encarar tudo isso? Bem, só me restava encontrar consolo na bebida. Sem nenhum vínculo empregatício, sem hora para nada, ficava fácil.

O álcool estava me entristecendo: quanto mais bebia, mais vontade de chorar eu tinha. Por tudo: pelo que tinha feito, pelo que não tinha e por tudo que perdi.

Não tem moral nesta coluna. Porém, se você achar que beber é merecimento, vá com calma. A bebida é traiçoeira e te leva a perder muitas coisas. No meu caso, perdi o trabalho e um namorado de quem eu gostava muito. No seu, eu já não sei, mas cuidado ao encarar a bebida como um simples merecimento.


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Autor: Folha

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