A psicóloga e advogada Lilian Sá, 49, tem uma rotina agitada. Ela atende pacientes no consultório e online, leva os filhos de 15 e 23 anos às aulas, faz atividade física, as compras da casa, cria conteúdo para as redes sociais e vai a outros tantos compromissos. Nem sempre dá tempo de responder todas as mensagens das amigas. Sua solução é marcar encontros de manutenção com elas.
O caso se encaixaria na chamada amizade de baixa manutenção, termo que circula nas redes sociais para definir relacionamentos em que não há contato ou encontros tão frequentes, mas o vínculo permanece o mesmo. “Tem outro tipo de amizade na vida adulta?”, brinca Sá. “A gente conversa quando dá, mas a faísca está ali quando nos encontramos.”
Amigos e psicólogos discordam sobre se esse tipo de relação funciona ou não, mas concordam que não há uma definição exata. Ela varia para cada pessoa, afirmam especialistas.
“Ser baixa ou alta manutenção depende da definição que cada um tem sobre o quanto uma amizade demanda”, afirma Alana Anijar, psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC), à frente do podcast Psicologia na Prática.
Para uns, significa não se falar ou se ver por um mês, e está tudo certo. Para outros, o limite de tempo sem contato pode durar meses ou até um ano. Trocar memes pode ser suficiente para alguns.
Anijar resume: “É aquela amizade que eu não tenho o peso de ter que fazer a manutenção constante. Que, embora eu não tenha tempo de ver ou mandar mensagem com frequência, se mantém saudável. O afeto e a conexão estão ali”.
Para Ingrid Gerolimich, psicanalista e autora do livro “Para Revolucionar o Amor” (Pioneira), o problema de ter uma nomenclatura está no discurso que justifica a preguiça de se relacionar. “A gente pensa: ‘Existe isso, então não me cobre, pois não posso me doar muito'”, diz. Sempre existiu a possibilidade de se dedicar mais ou menos nas relações, ela acrescenta.
Essa ideia deveria ser questionada, e não validada, afirma Geromilich. “Esse nome me parece uma expressão muito atual do mundo que vivemos, de consumo e descarte. É tudo rápido, superficial. A gente não consegue se conectar verdadeiramente com o outro.” É preciso tomar cuidado para não cair na ideia de que a vida adulta é feita disso, completa.
O corretor de seguros Gustavo Lima, 28, concorda. A amizade de baixa manutenção é um “sintoma da liquidez das relações de hoje”, um reflexo do excesso das redes sociais, segundo ele. “Tentamos fazer isso até nos relacionamentos amorosos. Vamos nos afastando, estamos com medo e preguiça do profundo, não queremos compromisso com nada.”
Lima diz que amizade sem contato é uma forma de não manter alguém de fato na sua vida. “Como a pessoa vai saber da sua vida? Como vai saber dos seus problemas, para você pedir um apoio?”, questiona. “Amizade é diferente de não ter tempo. Uma amizade que não tem manutenção acaba morrendo.”
Como qualquer relacionamento, a amizade precisa de dedicação e tempo, dizem as psicólogas. Não importa se é só online ou presencial.
“Amizade não é mais uma tarefa”, e pode ser encarada como algo até terapêutico, diz Gerolimich. É ter trocas e saber que pode contar com o outro, acrescenta. “A gente só constrói isso no dia a dia, na troca da relação, que precisa continuar acontecendo. Se você manda mensagens e a pessoa não responde, a tendência é que você não mande mais, né?”
O quanto cada relação exige de investimento para que se mantenha sustentável depende da realidade, estilo de vida e personalidade de cada um, diz Anijar. Segundo ela, é preciso autoconhecimento e coerência de expectativa e entrega.
“Temos a expectativa de que amizade deve ser uma coisa em que se a gente se fala constantemente, com resposta rápida, se vê com frequência e tem conversas longas. Mas será que eu tenho essa disponibilidade emocional e de tempo? Porque às vezes é algo que eu demando, mas não entrego”, ela avalia.
Temos a expectativa de que amizade deve ser uma coisa em que se a gente se fala constantemente, com resposta rápida, se vê com frequência e tem conversas longas. Mas será que eu tenho essa disponibilidade emocional e de tempo? Porque às vezes é algo que eu demando, mas não entrego
A falta de alinhamento pode gerar problemas, afirma Anijar, que recomenda conversar e avaliar se o outro quer a mesma intimidade.
Sá tem amigos que cobram respostas, e uma deixou de segui-la nas redes sociais por isso. Quem costuma cobrar, diz, geralmente tem rotina mais flexível. “Essa amizade de encontro e troca diária não existe em grandes centros e pessoas que têm família, trabalho e outros interesses”, diz ela, que faz questão de não deixar passar muitos dias sem responder.
“Acho que responder faz parte do jogo online”, diz Lima, mas afirma que não cobra respostas dos amigos. “Entendo o dia a dia das pessoas. Tem que ser algo natural também.” A rede social serve para saber o que está acontecendo na vida do outro, observa Lima, mas se ver pessoalmente é essencial. “Mesmo com o tempo sufocante do trabalho, a gente tenta burlar isso, marcando café, rolê em casa”, diz.
A psicóloga e advogada mora há 24 anos em São Paulo, mas mantém amigas na terra natal, Minas Gerais —a distância limita os encontros. Ela diz sentir falta da “amizade adolescente, de fazer compras juntas”. “Mas a rotina não permite. Não existe alta ou baixa manutenção, existe o que é possível naquele momento.”
Amigos que moram em cidades e até países diferentes e pessoas com uma rotina cheia de afazeres podem se beneficiar da baixa manutenção, diz Anijar. “Uma pessoa solteira tem uma disponibilidade de tempo que uma mãe, que equilibra maternidade e trabalho, não tem. Isso não significa que essa amizade vai ser superficial”, afirma.
A amizade de baixa manutenção pode funcionar quando é suficiente para os dois lados, conclui a psicóloga. Mas faz uma ressalva: “Se só funciona para um lado, então não faz sentido. Às vezes, nos escondemos atrás do discurso de baixa manutenção porque não queremos abrir mão de nada para manter relações”.
Gerolimich observa como cada vez mais pessoas têm vivido isoladas, sobretudo após a pandemia. “A gente sempre marca, mas na esperança do outro desmarcar, porque estamos cansados”, diz. Nesse sentido, alimentar amizades é essencial para manter o manejo social e escapar da solidão, ela avalia.
Autor: Folha








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