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Ancelotti e Ferguson: respeito foi construído em 14 jogos – 04/07/2026 – Esporte

Alex Ferguson escreveu em sua primeira biografia (“Managing my life”) se lembrar do momento em que mais precisou de um conselho. Procurou Jock Stein, o rei sol dos técnicos escoceses, em 1978, para perguntar o que deveria fazer. Trocar o St. Mirren pelo Aberdeen ou ficar onde estava?

“Vá às arquibancadas do estádio do St. Mirren, olhe para o campo e se pergunte: ‘eu me vejo aqui pelos próximos cinco anos?’”, foi a dica do treinador que levou o Celtic ao título europeu de 1967 apenas com jogadores nascidos em Glasgow e arredores.

Ferguson foi para o Aberdeen e, pelas temporadas seguintes, destruiu o duopólio de Celtic e Rangers no país. Na final da Recopa de 1983, derrotou o Real Madrid. Um resultado impensável nos dias de hoje.

Até a aposentadoria, em 2013, após 27 anos no comando do Manchester United e, mesmo depois, o que mais ouviu foi pedido de conselhos de colegas. Tal qual seu mestre Stein, ele se transformou no Don Corleone do futebol britânico, uma espécie de oráculo dos técnicos pela Europa.

Somente uma pessoa preparou mais jogos do que eu: Alex Ferguson, que preparou mais de 2.000 jogos. Então eu obviamente aceito conselhos de todo mundo, mas o único que poderia ser mais indicado para me dar conselhos seria Alex Ferguson”, disse Carlo Ancelotti à Folha, antes da partida deste domingo (5), contra a Noruega, pelas oitavas de final da Copa do Mundo.

Não há registros de que sir Alex Ferguson, título recebido da rainha Elizabeth após vencer a Champions League de 1999, tenha aconselhado Ancelotti em qualquer coisa. Mas não é difícil pensar que voltaria a tomar uma taça de vinho com o italiano, como aconteceu nas vezes em que se enfrentaram.

“Com o passar dos anos, eu estudei francês, aprendi sobre vinhos, comecei a tocar piano. Mas no fundo, eu só sei falar sobre futebol”, disse ele à Folha em entrevista de 2015.

Isso pode ter acontecido entre eles nas 14 vezes em que estiveram em lados opostos. O histórico é de sete vitórias de Ancelotti (por Milan e Chelsea), seis de Ferguson (todas pelo Manchester United) e um empate.

Alguns confrontos foram emblemáticos. Como a virada por 3 a 2 do United de Ferguson sobre a Juventus de Ancelotti na semifinal da Champions League de 1999, por exemplo. Resultado que abriu o mar vermelho para a equipe inglesa conquistar o título continental e fechar a tríplice coroa.

Em 2007, com Kaká no caminho para ser eleito o melhor do mundo, o Milan fez 3 a 0 no time de sir Alex, em Milão, e foi à final da maior competição europeia. Carlo foi campeão. Em 2011, o italiano estava no Chelsea e foi eliminado nas quartas de final pelo United.

Ancelotti obteve seu título inglês naquele mesmo ano após uma decisiva e controversa vitória por 2 a 1 no estádio de Old Trafford, em Manchester. No ano seguinte, Ferguson foi campeão contra o mesmo rival, dirigido pelo mesmo treinador. O resultado praticamente selou a saída do italiano do Chelsea, um dos maiores moedores de técnicos do planeta.

“Treinador de futebol é como um banqueiro. O tempo todo administra milhões que não são dele e precisa tomar decisões em cima disso. Observação sempre foi uma parte fundamental do meu trabalho”, definiu sir Alex em 2015.

Johan Cruyff o chamou de o rival mais “astuto” que já teve. Pep Guardiola disse ser ele o maior técnico britânico da história e um dos maiores de todos os tempos. José Mourinho, mesmo quando era adversário, o chamava de “boss” (chefe, em inglês). O mesmo ainda é feito por quase todos os jogadores que passaram por suas mãos. Há exceções, claro.

O volante irlandês Roy Keane é seu maior desafeto. Também rompeu com o lateral argentino Gabriel Heinze quando este tentou forçar a transferência do Manchester United para o arquirrival Liverpool. Disse que ele tinha “sangue de mercenário”. Escreveu em livro sobre a frustração que sentiu com os desempenhos do volante brasileiro Kleberson e definiu que o problema dele era dar ouvidos demais ao que o sogro dizia.

A característica que une Ferguson e Ancelotti possivelmente seja o respeito que inspiram. Um sentimento que em um estalar de dedos pode se transformar em medo.

“O futebol me ensinou a ser direto e fazer o que tiver de ser feito”, já disse o italiano.

“A pessoa mais importante em um time de futebol é o técnico”, opinou o escocês.

Mas o respeito não vem apenas dos outros. Está entre eles. E se Ancelotti escutaria o conselho de Ferguson, a recíproca seria verdadeira.

“Carlo é um bom amigo e um dos melhores treinadores que o futebol já teve. Pessoas com a habilidade que ele tem não ficam sem emprego. Não acho que muitos têm a lista de títulos que ele tem. Ele está em um pedestal próprio e merece todo o respeito”, disse sir Alex.

Autor: Folha

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