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Volkswagen prepara corte histórico para enfrentar ofensiva chinesa

A Volkswagen prepara uma das maiores reestruturações de sua história, que pode atingir até 100 mil empregos em diferentes programas de redução de pessoal. O objetivo é reduzir custos diante da crescente competição das montadoras chinesas e financiar a transição da fabricante alemã para a eletrificação.

A informação foi divulgada inicialmente pela revista alemã Manager Magazin e confirmada pelo Financial Times e pela Bloomberg.

Caso o plano seja confirmado, a redução representará cerca de um em cada seis empregos do grupo, que reúne marcas como Volkswagen, Audi, Porsche, Škoda e Seat, tornando-se um dos maiores programas de demissão já registrados na indústria automobilística mundial.

A Volkswagen não confirmou os números divulgados pela imprensa. Em nota enviada à Reuters após a publicação da reportagem da Manager Magazin, a companhia afirmou apenas que “os fatos relevantes serão discutidos e aprovados pelos órgãos competentes” e que não antecipará esse processo.

A empresa acrescentou que seu conselho executivo vem reiterando que o modelo atual de negócios “não funciona mais para todas as marcas em sua forma atual”, em razão da profunda transformação vivida pela indústria automotiva.

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Lucro operacional da Volkswagen caiu 14,3%

A reestruturação faz parte da estratégia conduzida pelo presidente-executivo da Volkswagen, Oliver Blume, para recuperar a rentabilidade do grupo em um cenário marcado pela desaceleração das vendas na Europa, pela pressão sobre as margens de lucro e pelo avanço das montadoras chinesas, como BYD e GWM.

Os resultados financeiros ajudam a explicar a urgência da reestruturação. No primeiro trimestre de 2026, o lucro operacional da Volkswagen caiu 14,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto a margem operacional recuou de 3,7% para 3,3%, pressionada pelos custos da reestruturação, pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos e pelo aumento da concorrência chinesa.

Nesse contexto, o plano em discussão vai além da redução do quadro de funcionários. Segundo a Manager Magazin, a fabricante de automóveis avalia uma ampla reestruturação de suas operações na Alemanha, que inclui o possível fechamento ou redimensionamento de fábricas e a simplificação do portfólio de produtos. 

A pressão também decorre do desempenho da empresa na China, que durante anos respondeu por cerca de um terço das vendas globais do grupo — chegando a se aproximar de 40% em alguns anos. Com o avanço das fabricantes locais, a participação da montadora alemã vem diminuindo justamente em seu mercado mais lucrativo, obrigando o grupo a rever sua estrutura de custos e sua estratégia global.

Brasil entra na disputa global

A disputa que pressiona a Volkswagen na Europa também influencia o debate sobre política industrial no Brasil, que se tornou um dos mercados prioritários para a expansão das montadoras chinesas. Com preços competitivos e ampla oferta de veículos eletrificados, marcas como BYD e GWM vêm ampliando rapidamente sua participação no mercado brasileiro, pressionando as fabricantes tradicionais.

A preocupação também alcança a indústria instalada no país. Em janeiro de 2026, durante a apresentação de um estudo sobre os impactos da ampliação dos regimes de importação de veículos desmontados (CKD e SKD), o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet, afirmou que o problema não está no uso desses modelos produtivos, mas na concessão de incentivos sem contrapartidas industriais.

No final de junho, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), do governo federal, decidiu prorrogar por mais seis meses as cotas de importação com alíquota zero para CKD e SKD, no valor total de US$ 463 milhões. A decisão favorece principalmente a montadora chinesa BYD, que iniciou operações em sua fábrica em Camaçari (BA) no ano passado utilizando o modelo SKD, com os veículos chegando pré-montados e sendo finalizados no Brasil.

Segundo o levantamento da Anfavea, a ampliação da montagem de veículos por meio de kits importados poderá colocar em risco 69 mil empregos diretos e cerca de 227 mil postos de trabalho indiretos na cadeia automotiva nacional, caso parte da produção deixe de ser efetivamente nacionalizada.

Nesse contexto, a estratégia da Volkswagen para o mercado brasileiro difere daquela adotada na Europa. Enquanto acelera a eletrificação em mercados desenvolvidos, a companhia aposta, no Brasil, em modelos híbridos flex movidos a etanol, defendendo que essa tecnologia representa uma alternativa mais adequada para a transição energética em um país onde a infraestrutura de recarga para veículos elétricos ainda está em expansão.

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Mudanças no interesse do consumidor

A transformação do mercado também pode ser observada no comportamento digital dos brasileiros. Dados do Google Trends mostram que o interesse de busca por marcas chinesas, especialmente a BYD, cresceu significativamente nos últimos cinco anos. O interesse no buscador sobre a montadora que hoje lidera o mercado de carros elétricos no Brasil cresceu 21 vezes entre junho de 2023 e junho deste ano.

A GWM também passou a aparecer com maior frequência nas pesquisas à medida que expandiu sua operação no Brasil. Ao mesmo tempo, a Volkswagen passou a dividir a atenção dos consumidores nas pesquisas com novos concorrentes que ganharam relevância no mercado brasileiro.

** Esta reportagem faz parte de uma parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends. A apuração é de responsabilidade exclusiva da Gazeta do Povo, sem qualquer interferência editorial do Google.

Autor: Gazeta do Povo

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