Com pouco mais de 150 mil habitantes, Curaçao estará pela primeira vez em uma Copa do Mundo. Não fosse a decisão da Fifa de aumentar de 32 para 48 o número de participantes do Mundial, muito provavelmente a seleção caribenha não teria se classificado.
Com uma população mais de mil vezes maior que a de Curaçao, o Brasil é o único país cuja seleção masculina esteve em todas as 22 edições do Mundial. Já fomos campeões cinco vezes, e a ilha de influência holandesa terá um dia glorioso se conseguir ganhar uma das suas partidas da primeira fase.
Curaçao, porém, goleou o Brasil na maneira como apresentou os seus convocados para a competição. Ao longo de mais de uma hora, o espetáculo montado pela CBF teve uma apresentação de teatro constrangedora e discursos anódinos, quando não de um ufanismo irritante.
Salvaram-se apenas as homenagens a Pelé, que morreu em 2022, e Zagallo, dois anos depois.
O país do Caribe resolveu bem em um vídeo de menos de dois minutos. Um dos mais populares cantores das ilhas da região, Jeon aparece durante uma gravação quando um garoto bate na porta do estúdio. O menino leva um envelope, com os nomes dos escolhidos pelo técnico Dick Advocaat. Jeon volta a cantar, mas agora a melodia é acompanhada pelos nomes dos jogadores, um a um.
O recurso resulta simples e envolvente.
Embora a solução encontrada por Curaçao seja uma boa surpresa, o vídeo dos caribenhos não está no topo do ranking da criatividade.
Nesse quesito, a produção da Inglaterra é, por ora, a vencedora. Começa com um trecho de uma entrevista dada por John Lennon, em 1964, durante a primeira passagem dos Beatles pelos EUA. Diante da pergunta “Acha que vocês são muito ingleses?”, Lennon não hesita: “Sim, somos ingleses alegres”.
A partir daí, ao som de “Come Together”, um jovem corre por ruas de Nova York enquanto os nomes dos convocados despontam nos espaços mais inusitados, como uma placa em cima do táxi. De repente, começa uma animação ao estilo de “Yellow Submarine”, e mais nomes surgem estampados em guarda-chuvas.
São dois minutos e meio baseados na influência do quarteto de Liverpool na cultura dos EUA, país que sedia esta Copa ao lado de México e Canadá.
É uma aula de concisão, engenhosidade e soft power –se Curaçao tem Jeon para vender sua imagem para o mundo, a Inglaterra vai com os Beatles.
Os franceses também se empenharam na busca pela originalidade. Os Bleus recorreram à animação, como os ingleses, mas são os jogadores –eles mesmos– os condutores da maior parte da produção de um minuto e meio.
Nomes como Dembélé e Olise aparecem por poucos segundos em cenas cotidianas, como um café da manhã e um churrasco. No mercado, Doué faz compras, e Mbappé cuida do caixa.
A trilha sonora não tem o apelo da música que ouvimos na criação inglesa. Ainda assim, o vídeo francês soa como uma fração de uma comédia leve e fluente.
O tom adotado pela França é de descontração, ao contrário do vídeo de Senegal, que une ares épicos e ancestrais. “A canoa está pronta para zarpar, só os guerreiros terão a honra de embarcar”, diz um dos personagens que vivem no país da África Ocidental.
Essa é uma das produções mais cuidadosas do ponto de vista estético, com várias referências ao leão, o símbolo do time de Mané, Mendy e cia.
Como Senegal, o orgulho do país guia a criação lançada pela Escócia para apresentar seus atletas. “O futebol é onde o coração bate mais forte”, diz o ator Ewan McGregor em meio a imagens de paisagens exuberantes e de torcedores das mais diferentes idades.
“Após 28 longos verões, o mundo ouvirá a nossa voz novamente”, complementa McGregor sobre o time, que vai enfrentar o Brasil na primeira fase.
A última Copa disputada pela Escócia foi a de 1998, situação também vivida pela Noruega. O vídeo dos escandinavos é conduzido pelo rei Herald 5º, que adota um tom solene.
“Estamos unidos para desejar a vocês o melhor nessa jornada”, diz ele dirigindo-se a jogadores como Haaland. Enquanto o monarca fala, vemos picos nevados e pescas nos mares gélidos –é quase uma propaganda de turismo.
A Espanha, que anunciou na segunda (25) seus convocados, também integra esse subgênero monarquia & futebol. “Quando joga nossa seleção, jogamos todos”, afirma o rei Felipe 6º.
A participação dele, porém, é discreta quando comparada à do seu congênere norueguês.
O vídeo pretende enfatizar a ligação da seleção com o povo espanhol. A escolha dos jogadores coube ao técnico Luis de la Fuente, mas o anúncio não foi feito por ele. Os convocados, como Lamie Yamal e Rodri, foram apresentados por um conjunto variado de espanhóis, que inclui padeira, bombeiro, taxista e cientista.
A República Tcheca tomou outro caminho, apostando em imagens dos seus jogadores quando meninos e adolescentes. Familiares lembram a dedicação do atleta selecionado enquanto fotos e vídeos antigos são exibidos.
Não é um recurso original, mas ainda assim funciona como motivação para jogadores e torcedores. A equipe volta a disputar um Mundial depois de duas décadas.
Em suma, é preciso torcer para que nossos jogadores estejam bem mais inspirados do que aqueles que conceberam o anúncio da convocação, entusiastas de um patriotismo que se confunde com demagogia.
Neste capítulo em especial, a criatividade brasileira não entrou em campo.
Autor: Folha








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