Um cachorro doente, em sofrimento, sem chance de cura. A tutora decide interromper a dor. Anos depois, é ela quem está em uma situação semelhante —mas, no Brasil, a pessoa não pode fazer a mesma escolha.
As cenas compõem “Cachorrinho”, filme publicitário que marca a primeira campanha da associação Eu Decido e que tenta levar para o debate público um tema ainda evitado no país: o direito de decidir sobre a própria morte.
A força do argumento está na decisão que parece natural no caso de um animal, mas que se torna impossível quando se trata de um ser humano.
No Brasil, a chamada morte voluntária assistida não é permitida. Trata-se da situação em que uma pessoa decide encerrar a própria vida de forma assistida, com supervisão médica, para evitar um sofrimento considerado intolerável.
A associação Eu Decido, criada em 2025, defende que a escolha sobre o fim da vida deve caber ao próprio indivíduo e busca ampliar a discussão no país.
“A Eu Decido acredita que cada pessoa é a única que pode decidir sobre seus cuidados de saúde e, em especial, sobre o fim da sua vida”, afirma a presidente da entidade, a advogada Luciana Dadalto, especialista em bioética e em testamento vital —documento que registra antecipadamente as decisões de uma pessoa sobre tratamentos médicos que deseja ou não receber caso não possa se expressar no futuro.
A estratégia parte de um reconhecimento: esse não é um debate que se resolve rapidamente. Experiências internacionais mostram que discussões sobre o direito de morrer levam décadas antes de se consolidarem em leis.
Segundo defensores da causa, é um processo que pode durar cerca de 30 anos, como ocorreu em 16 países, entre eles Portugal, Espanha, Holanda e Bélgica.
Trata-se de um tempo necessário para que a sociedade assimile o tema, enfrente resistências morais, religiosas e médicas e, só então, avance juridicamente. Nesse contexto, o filme “Cachorrinho” funciona como um ponto de partida.
“A comparação do filme não é perfeita, uma vez que é a tutora que decide pelo cachorro, mas levanta uma reflexão importante: por que podemos escolher pelos nossos pets, mas não por nós mesmos?”, diz Dadalto.
A comparação do filme não é perfeita, uma vez que é a tutora que decide pelo cachorro, mas levanta uma reflexão importante: por que podemos escolher pelos nossos pets, mas não por nós mesmos?
O debate costuma esbarrar em um tabu persistente. Segundo pesquisa de 2018 do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, 73% dos brasileiros evitam falar sobre a morte. Em alguns casos, o silêncio chega ao ponto de virar superstição: cerca de 10% acreditam que falar sobre a morte pode atraí-la.
Como consequência, esse afastamento ajuda a empurrar decisões importantes para o fim da vida —muitas vezes quando já não há mais tempo, clareza ou autonomia para tomá-las.
Hoje, o país reconhece dois caminhos possíveis diante de doenças graves. Um deles é a distanásia, em que a vida é prolongada ao máximo, mesmo com sofrimento. Outro é a ortotanásia, que permite recusar tratamentos e evitar intervenções que apenas estendam o processo de morrer.
O que falta, para a Eu Decido, é uma terceira opção: a possibilidade de interromper a vida de forma assistida, por decisão do próprio paciente.
Um exemplo disso é o caso de uma filósofa brasileira de 74 anos que viajou à Suíça após sofrer um AVC e decidiu encerrar a própria vida, que ilustram o tipo de situação que alimenta o debate.
São pessoas que não necessariamente estão em estado terminal, mas que consideram sua condição incompatível com uma vida digna.
“Morrer com dignidade é um direito humano e um direito fundamental, devendo a pessoa ser a única responsável pela escolha do que é, para ela, uma vida digna. Entendemos ‘boa morte’ como aquela com o máximo possível de autonomia e autodeterminação”, diz a presidente.
Autor: Folha








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