O principal banco de investimento da China emergiu de uma repressão governamental que durou anos e desbancou os rivais para se tornar o financiador dominante dos esforços de Pequim para competir com os Estados Unidos em inteligência artificial.
A China International Capital Corporation (CICC) patrocinou as aberturas de capital bilionárias de várias das principais empresas de tecnologia do país, incluindo a fabricante de chips CXMT e a fornecedora de componentes para data centers Zhongji Innolight.
O banco estatal lidera os rankings de ofertas públicas iniciais na China continental e em Hong Kong. Neste ano, já movimentou US$ 11,5 bilhões em transações, mais que o dobro do registrado no mesmo período de 2025, e caminha para alcançar um volume anual recorde.
“Há mais de uma década investimos e nos preparamos para esta onda de IA”, disse Lou Xinyu, vice-chefe do departamento de banco de investimento em tecnologia, mídia e telecomunicações da CICC.
A CICC há muito era o banco preferido para grandes transações, mas acabou envolvida em uma campanha do governo contra o setor financeiro, intensificada quando a bolha imobiliária chinesa estourou, em 2021.
Altos executivos foram envolvidos em investigações, enquanto muitos banqueiros sofreram cortes salariais severos como parte da campanha de “prosperidade comum” do presidente Xi Jinping, destinada a reduzir a desigualdade de riqueza.
Uma prolongada retração do mercado, desencadeada pelo colapso imobiliário, fez com que as receitas de banco de investimento da CICC caíssem de um pico de 6,8 bilhões de yuans em 2021 para apenas 2,8 bilhões de yuans (US$ 415 milhões) em 2024.
O sentimento começou a mudar quando o governo anunciou um pacote de estímulos no fim de 2024 para impulsionar os mercados. No ano seguinte, uma onda de empresas chinesas começou a abrir o capital, à medida que os órgãos reguladores flexibilizaram exigências anteriormente endurecidas para preservar a liquidez das ações já negociadas.
Enquanto o governo continha as aberturas de capital, a CICC preparava o terreno para a retomada do setor de tecnologia.
Lou afirmou que a estratégia do banco de integrar suas equipes de banco de investimento, private equity e pesquisa foi fundamental para ajudá-lo a aproveitar as oportunidades em IA.
Ele atribuiu à divisão de private equity do banco, a CICC Capital, que tem investido ativamente em todo o setor de IA, o mérito de ajudar a instituição a acessar o mercado e “concluir essas transações”.
“Essas empresas de tecnologia confiam na marca CICC porque temos conhecimento especializado em tecnologia e sabemos como funcionam as tendências do mercado chinês”, disse Lou. “Podemos aproveitar plenamente nossas capacidades internas para oferecer soluções de banco de investimento e um pacote completo a essas empresas de tecnologia.”
A atual onda de aberturas de capital de empresas chinesas de tecnologia ocorre paralelamente a um boom nos mercados de capitais dos EUA impulsionado pela IA e à intensificação da competição tecnológica entre os dois países. Lou prevê que a disparada das listagens chinesas continuará por mais um ano.
“Ainda acreditamos que existam oportunidades de mercado muito claras e enormes nos próximos 12 meses, e elas são menos afetadas por restrições de liquidez”, afirmou, referindo-se às preocupações de que mega-IPOs nos EUA drenariam capital de Hong Kong.
“Para empresas de IA e de tecnologia avançada, desde que consigam demonstrar que são um ativo escasso no mercado chinês e que têm valor de investimento no longo prazo, continuarão sendo bem recebidas pelo mercado.”
A CICC foi criada em 1995 como uma joint venture entre o China Construction Bank e o Morgan Stanley. Após a saída do banco de investimento americano, em 2010, e várias rodadas de reestruturação acionária, seu acionista controlador é agora a Central Huijin, o fundo soberano da China.
Sob Xi, Pequim tem procurado transformar o setor financeiro, de uma máquina de gerar lucros em uma ferramenta para os objetivos estratégicos do país. Em um discurso de 2024 no qual defendeu que a China se tornasse uma “potência financeira”, o presidente apresentou uma visão para que o setor desenvolvesse a economia e evitasse buscar a expansão “às cegas”, o que, segundo ele, levaria a “crises”.
“A orientação vinda da cúpula é que as finanças devem servir à economia real e ajudar a fortalecer a economia e a competitividade da China”, disse Dragon Tang, professor de finanças da Universidade de Hong Kong. “Tanto o setor financeiro quanto seus profissionais estarão sujeitos a maior escrutínio e regulamentação.”
As receitas de banco de investimento da CICC registraram uma recuperação parcial no ano passado, chegando a 4,9 bilhões yuans chineses (US$ 726 milhões), mas sua participação nos resultados diminuiu à medida que outras áreas do negócio, sobretudo a gestão de patrimônio, cresceram. O lucro líquido do grupo aumentou 72%, para RMB 9,8 bilhões.
O aumento da concorrência no setor financeiro chinês comprimiu ainda mais as margens do banco de investimento. Nos últimos anos, Pequim tem incentivado a consolidação do setor, à medida que as finanças chinesas se afastam dos excessos capitalistas desenfreados dos anos 2000.
“O mercado tornou-se mais competitivo, e emissores como a CXMT têm grande poder de barganha, o que reduz as comissões de banqueiros e financiadores”, disse Tang.
Embora a CICC tenha sido uma das coordenadoras da abertura de capital da CXMT —o maior IPO da China em 16 anos—, a comissão de garantia e coordenação foi de apenas 226,6 milhões de yuans chineses (US$ 33,6 milhões), ou 0,39% da transação, a ser dividida com outros cinco bancos. O valor não inclui uma opção de lote suplementar que ainda não foi exercida.
Esse valor é muito inferior aos cerca de US$ 267 milhões em comissões do IPO de 2010 do Agricultural Bank of China, quando a instituição abriu o capital simultaneamente em Xangai e Hong Kong, operação na qual a CICC também desempenhou papel fundamental.
Apesar do sucesso da CICC em levar as queridinhas do setor de tecnologia aos mercados públicos, os investidores parecem menos dispostos a aceitar a nova realidade do setor bancário chinês. As ações do banco em Hong Kong estão quase 12% abaixo de seu pico, enquanto as negociadas em Xangai acumulam queda superior à metade.
Em um documento apresentado à Bolsa de Hong Kong no mês passado, o banco afirmou que registraria um aumento substancial no lucro do primeiro semestre. A mensagem ecoou a campanha de Pequim para transformar o setor financeiro em um instrumento do Estado.
No comunicado, a CICC afirmou ter “seguido de perto as diretrizes de política para promover a reforma do mercado de capitais. (…) A empresa empenhou todos os esforços para servir à economia real e à estratégia nacional impulsionada pela tecnologia”.
Autor: Folha








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