Domingo, o país inteiro vai vestir a mesma camisa, torcer pelo mesmo resultado, sofrer pelo mesmo jogo, no mesmo minuto. Só o futebol tem esse poder. Nenhuma eleição une assim. Nenhum feriado faz o Brasil inteiro respirar junto.
E a gente sabe de uma coisa incômoda: a Noruega nunca perdeu para o Brasil.
São quatro jogos na história. Dois empates, duas vitórias —todas norueguesas. O mais doloroso aconteceu em 1998, na França, quando o Brasil já estava classificado e viu o time escandinavo virar o placar nos minutos finais. Bebeto abriu, Flo empatou, Rekdal decidiu de pênalti. Isso foi há quase 30 anos.
E o tabu segue de pé, esperando um novo capítulo.
Mas tabu não é sentença. Tabu é só uma história que ainda não teve seu final escrito.
Domingo, no MetLife Stadium, o Brasil tem a chance de reescrever essa história. Não interessa o que aconteceu em 1988, em 1997, em 1998. Interessa o que vai acontecer às 17h, em Nova Jersey. E é para isso que a gente acredita —não porque o passado garante alguma coisa, mas porque o presente ainda está em aberto, e o Brasil sabe reabrir o que parecia fechado.
Ah, e tem mais uma coisa.
O técnico da Noruega, Ståle Solbakken, chamou o Brasil de favorito. Disse que a nossa seleção está encontrando o próprio ritmo, que tem bons jogadores em todas as posições. Discurso bonito. Educado. A gente já ouviu isso antes.
Foi assim antes do amistoso contra a França, em março. Vieram elogios, vieram flores, disseram que o Brasil carregava cinco estrelas no peito e que ser favorito contra o pentacampeão seria impossível. Palavras bonitas, ditas com toda a educação do mundo. E a França venceu por 2 a 1.
Discurso bonito não ganha jogo. Às vezes é armadilha disfarçada de gentileza: desarma antes, ataca depois. A gente não é bobo. A gente sabe reconhecer quando elogio é isca.
Então não cai nessa. Escuta a gentileza, agradece, e joga como se ninguém tivesse dito nada gentil sobre o Brasil —porque, em campo, favoritismo não decide nada. Decide quem quer mais, quem corre mais, quem acredita até o apito final.
E esse Brasil, esse Brasil que parou tudo para torcer junto, esse Brasil que não desanima mesmo depois de quatro jogos sem vencer os noruegueses, esse Brasil sabe exatamente o que quer.
Não é hora de duvidar. É hora de lembrar por que este país inteiro se cala, se une e vibra junto toda vez que essa camisa entra em campo. Porque não é só uma seleção jogando. É um país parando pra respirar no mesmo ritmo —o motorista de ônibus, o síndico do prédio, a criança que nem sabe o nome de todos os jogadores, mas sabe gritar gol. É o bar lotado, é o vizinho com quem você não fala há meses batendo à porta pra assistir junto. Só o futebol faz isso. Só uma Copa transforma estranhos em torcida única.
E é por isso que a gente não desanima. Não porque o resultado esteja garantido —nada nunca está —, mas porque o hexa não se constrói com medo do adversário. Constrói-se acreditando, mesmo sabendo do tabu, mesmo sabendo que a Noruega chega embalada, com um dos melhores atacantes do mundo. A gente acredita porque essa seleção já mostrou nesta Copa que sabe virar o jogo nos minutos finais. Fez isso contra o Japão. Pode fazer de novo.
Domingo, 17h, Nova Jersey. O tabu tem quase 30 anos. E a gente não vai deixar de acreditar que ele pode acabar agora.
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Autor: Folha








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