
Confesso de saída que ainda não vi a Odisseia de Christopher Nolan. Enquanto meia internet decide se o filme salva ou trai Homero, fico do lado de fora, mais interessado na briga.
De um lado, celebram um Odisseu adoecido pelo trauma da guerra e as mulheres enfim destacadas na epopeia. De outro, mandam esquecer o “elenco woke” e comemoram: o filme presta porque derrama a moral cristã num vaso grego. E aqui está o que me prende, porque é a meu respeito. Por um instante, torci junto. Um Homero do meu time, cristão como eu. Levei um susto, porque era o mesmo erro que eu ia denunciar nos outros.
Cada facção lê Homero no espelho e aprova o que reconhece: uma cobre o poema de trauma e identidade, as lentes obrigatórias da época; a outra prefere o velho catecismo. O anacronismo não tem partido, é a maneira contemporânea de encarar o passado: só o toleramos quando já concorda conosco.
Ben Shapiro, por exemplo, se entrega inteiro à interpretação de Nolan. Ele mesmo escreveu, sobre a “lei de Zeus” do filme – trate os outros como gostaria de ser tratado –, que “não há nada assim na mitologia grega”, que é “cópia direta da moralidade bíblica”. Diagnosticou a falsificação e aplaudiu: chamou de vitória civilizacional. Acusou o filme de enxertar em Homero uma moral que não é de Homero, e comemorou porque a moral enxertada era a sua. É o crítico woke ao contrário, mesma régua e sinal trocado.
Enquanto meia internet decide se o filme de Christopher Nolan salva ou trai Homero, fico do lado de fora, mais interessado na briga
Convém, então, lembrar do próprio Homero. Comecemos pela virtude que organiza a Odisseia inteira: a hospitalidade, a xenía (ξενία), da palavra xénos (ξένος), que designa ao mesmo tempo o estrangeiro, o hóspede e o anfitrião: o desconhecido que bate à porta é, antes de tudo, um hóspede em potencial. Tinha força de instituição sagrada, guardada por Zeus Xénios, o protetor dos estrangeiros, e um rito exato. Quando um estranho aparece no palácio de Ítaca, o jovem Telêmaco se envergonha de vê-lo parado à porta, toma-lhe a mão e o senta à mesa; só depois da refeição se permite perguntar quem ele é. Acolhe-se antes de saber o nome ou o merecimento de quem chega, numa ética do reconhecimento anterior a qualquer informação sobre o outro. E com um fundo temível: o mendigo na soleira podia ser um deus disfarçado – no Canto 1, é Atena sob a forma de um viajante. Por isso o poema pesa cada personagem pela hospitalidade, do Ciclope que devora os convidados aos feácios que devolvem Odisseu à pátria.
Nada disso, porém, é a Regra de Ouro. A hospitalidade de Homero brota do temor dos deuses e da honra, não do amor ao próximo nem da ideia de que o outro seja meu igual diante de Deus. Acolhe-se o estrangeiro por aidṓs, a vergonha de faltar com ele, e por medo da némesis, a indignação alheia. É a moral do que os outros veem, não da culpa que rói por dentro; não existe vida interior, tão cara ao cristianismo após Santo Agostinho. E é ela que, no fim, arma a mão de Odisseu contra os pretendentes, que morrem por serem maus hóspedes: instalados na casa do dono ausente, devoram-lhe os bens e cotejam-lhe a mulher. O mesmo Zeus que protege o estrangeiro à porta garante o castigo de quem profana a sua lei. A chacina no salão no Canto 22 é a hospitalidade cobrando a própria dívida, e nada ali é a Regra de Ouro.
É esse mundo, pagão e sem perdão nem culpa interior, que as duas domesticações não suportam. Traduzir Odisseu por “trauma” converte o herói que carrega o horror e ainda age no paciente que o horror define; a honra encolhe o diagnóstico. Dar “mais voz” às mulheres rebaixa quem já manda no poema. Homero chama Penélope de períphrōn, a prudentíssima, e lhe dá a astúcia da mortalha, tecida de dia e desfeita de noite; Circe e Calipso prendem o herói, Atena o conduz pela mão. Dar microfone a quem o poeta já coroou de prudência é uma promoção às avessas. Espreme-se Homero até caber nas únicas categorias que a época sabe manejar: a vítima e a identidade. Como dizemos, às sensibilidades contemporâneas.
Um só episódio guarda tudo isso, e é significativo que, ao que se comenta, seja um dos que Nolan cortou. Preso na caverna do Ciclope Polifemo, Odisseu diz chamar-se Oûtis, “Ninguém”: a astúcia que o salva, pois o gigante cego berra aos vizinhos que “Ninguém” o ataca, e ninguém vem.
É a mêtis, a inteligência que o define, e Atena o ama por ela, pela lábia que engana até deuses – virtude que nem o culto à autenticidade nem o amor ao próximo saberiam elogiar. Mas, já a salvo no mar, Odisseu não resiste e grita ao monstro o próprio nome, para levar a glória do feito, e aí está a hýbris, a desmedida. Polifemo, filho de Posídon, pede ao pai que aquele nome pague caro. Toda a perseguição do mar nasce de um herói que não soube calar o próprio nome.
A opção de Nolan por cortar o “Ninguém” apaga a astúcia e a culpa no mesmo gesto, e com elas a razão de Posídon existir na trama. Sobra uma vítima do mar sem falta que a explique. Não vi as soluções do filme, falo do que li por aí. Então, me calo.
Uns querem um Homero que já tenha lido sobre trauma e representatividade; outros, um que já tenha ido à missa. Ninguém quer o Homero que existe
Cristianizá-lo é o mesmo encolhimento, só que à direita, e é o erro de Shapiro. Falo como quem leva o cristianismo a sério: enfiar a Regra de Ouro em Homero falsifica o mundo grego e, pior, barateia o próprio Evangelho, rebaixado a ética simpática que qualquer um assina sem susto. A força do cristianismo está na ruptura e na cruz, não num bom conselho de convivência. Usar Cristo de verniz para deixar Homero apresentável à nossa sensibilidade perde os dois. Um cristão deveria recusar essa vitória com o mesmo vigor com que recusa a outra. Shapiro não é cristão, diga-se de passagem.
A briga é, no fundo, uma disputa pelo direito de não sair de casa. Uns querem um Homero que já tenha lido sobre trauma e representatividade; outros, um que já tenha ido à missa. Ninguém quer o Homero que existe: pagão, duro, movido a glória e a sangue, indiferente à nossa ideia de dignidade e, por isso, capaz de dizer sobre o humano algo que não sabíamos. Um clássico serve para nos arrancar de nós mesmos; lido no espelho, só confirma o que já pensávamos, e quem só nos dá razão deixou de ter o que ensinar. Para isso usamos o GPT 5.5, ele é ótimo em elogios.
Se Nolan traiu Homero, não sei dizer, e já confessei que ainda não vi o filme. Toda adaptação reinterpreta, isso eu sei bem; é o ofício dela. Como diz Umberto Eco, a arte é obra aberta. Mas a briga em torno dele revela o que já não suportamos: que um defunto de 3 mil anos discorde de nós e jogue na cara o que nós somos. Cada facção quer, no fundo do poço grego, enxergar o próprio rosto. Eu inclusive quis ver o meu. Nesse caso, rosto no espelho não ensina nada. Só serve para bajular. Então vamos deixar Homero ser Homero.
Autor: Gazeta do Povo








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