quarta-feira, julho 22, 2026
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Cristãos e identitários querem um Homero para chamar de seu

Confesso de saída que ainda não vi a Odisseia de Christopher Nolan. Enquanto meia internet decide se o filme salva ou trai Homero, fico do lado de fora, mais interessado na briga.

De um lado, celebram um Odisseu adoecido pelo trauma da guerra e as mulheres enfim destacadas na epopeia. De outro, mandam esquecer o “elenco woke” e comemoram: o filme presta porque derrama a moral cristã num vaso grego. E aqui está o que me prende, porque é a meu respeito. Por um instante, torci junto. Um Homero do meu time, cristão como eu. Levei um susto, porque era o mesmo erro que eu ia denunciar nos outros.

Cada facção lê Homero no espelho e aprova o que reconhece: uma cobre o poema de trauma e identidade, as lentes obrigatórias da época; a outra prefere o velho catecismo. O anacronismo não tem partido, é a maneira contemporânea de encarar o passado: só o toleramos quando já concorda conosco.

Ben Shapiro, por exemplo, se entrega inteiro à interpretação de Nolan. Ele mesmo escreveu, sobre a “lei de Zeus” do filme – trate os outros como gostaria de ser tratado –, que “não há nada assim na mitologia grega”, que é “cópia direta da moralidade bíblica”. Diagnosticou a falsificação e aplaudiu: chamou de vitória civilizacional. Acusou o filme de enxertar em Homero uma moral que não é de Homero, e comemorou porque a moral enxertada era a sua. É o crítico woke ao contrário, mesma régua e sinal trocado.