
Durante algum tempo, a discussão sobre o futuro do cinema foi dominada pela ideia de que o público havia perdido o hábito de ir às salas. Os números mais recentes, porém, mostram um cenário diferente — ainda que com uma ressalva importante: não se trata de uma recuperação uniforme de todo o mercado, mas de uma concentração cada vez mais evidente em filmes capazes de transformar a sessão em acontecimento. Homem-Aranha: Um Novo Dia e A Odisseia deram a primeira demonstração dessa força. Agora, Vingadores: Doomsday e Duna: Parte Três chegam para testar até onde ela pode chegar.
O caso mais impressionante até aqui é o de Homem-Aranha: Um Novo Dia. Segundo o site Deadline, o filme da Sony e da Marvel ultrapassou US$ 2 bilhões em bilheteria mundial em apenas 17 dias, tornando-se o segundo longa mais rápido da história a alcançar a marca, atrás apenas de Vingadores: Ultimato, que levou 11 dias. O filme acumulava US$ 786,5 milhões nos Estados Unidos e Canadá e US$ 1,238 bilhão nos mercados internacionais, chegando a US$ 2,024 bilhões no total. No terceiro fim de semana, arrecadou US$ 189,7 milhões no mundo, incluindo US$ 71 milhões na América do Norte.
O desempenho ajuda a explicar por que a corrida pelos próximos grandes lançamentos começou tão cedo. Não é apenas a bilheteria final que chama atenção, mas a disposição do público de organizar sua ida ao cinema com semanas ou meses de antecedência. O fenômeno ficou ainda mais nítido com A Odisseia, de Christopher Nolan. Em sua quinta semana, o filme já havia alcançado US$ 1,294 bilhão mundialmente, sendo US$ 505 milhões nos Estados Unidos e US$ 789,3 milhões no exterior.
Experiência premium
O sucesso de Nolan também mostra que a retomada não depende exclusivamente de personagens conhecidos. Existe uma demanda específica por experiências cinematográficas que justifiquem a ida à sala. No BFI IMAX, em Londres, A Odisseia tornou-se a maior bilheteria da história do cinema. O local vendeu mais de 101 mil ingressos, gerando £2,68 milhões em uma única tela, com ocupação de 95% nas sessões então disponíveis. O filme ultrapassou Avatar e assumiu o primeiro lugar do ranking histórico do cinema britânico. Antes mesmo da estreia, já havia quebrado o recorde de pré-venda do BFI IMAX, com 28 mil ingressos vendidos nas primeiras 24 horas e receita de £750 mil.
O detalhe mais revelador é que essa demanda está diretamente ligada ao formato. A Odisseia foi filmado inteiramente com câmeras IMAX e, no BFI, pode ser visto em uma rara cópia de 70mm. No mercado chinês, a Deadline informou que o IMAX representou quase 80% das vendas de ingressos em 40% das sessões durante a estreia do filme. No fim de semana analisado pela publicação, A Odisseia arrecadou US$ 37 milhões mundialmente apenas em IMAX, levando sua bilheteria acumulada nesse formato para US$ 346,4 milhões.
É nesse contexto que a segunda onda começa. Vingadores: Doomsday e Duna: Parte Três não estão simplesmente chegando como duas grandes produções de Hollywood. Eles chegam depois de um período em que o público foi treinado a enxergar determinados filmes como eventos que exigem planejamento — e, em alguns casos, disputa.
Pane na venda de ingressos
A pré-venda de Doomsday é especialmente significativa. Segundo o TheWrap, a Disney abriu a venda geral com quatro meses de antecedência, depois de já ter iniciado em julho a comercialização de ingressos para formatos premium em mil salas. Nos dois primeiros dias, fontes ouvidas pelo site afirmaram que o ritmo de vendas estava aproximadamente 65% acima do registrado por Homem-Aranha: Um Novo Dia no mesmo período.
A comparação, contudo, exige cautela. A janela de quatro meses é muito maior que a habitual e não há histórico suficiente para saber como esse ritmo vai se comportar ao longo de todo o período. Normalmente, a venda antecipada concentra uma onda inicial de fãs motivados, perde intensidade e volta a crescer nas semanas que antecedem a estreia.
Mesmo com essa ressalva, a estratégia mostra o tamanho da aposta. A expectativa em torno do filme foi construída durante quase um ano, desde o teaser que antecipou o retorno de Chris Evans. A volta de personagens populares e a presença de Robert Downey Jr. em um novo papel dentro do universo da Marvel criaram um tipo de antecipação que a franquia vinha precisando depois de um período menos expressivo comercialmente.
Duna: Parte Três chega por outro caminho. A pré-venda em larga escala ainda não havia começado, mas sessões especiais em IMAX 70mm já estavam sendo disponibilizadas. A procura foi suficiente para provocar congestionamentos em plataformas de venda e, em determinados casos, uma espécie de mercado paralelo.
Na terça-feira, 18 de agosto, fãs relataram longas filas digitais e falhas nos sites e aplicativos da AMC e da Fandango enquanto tentavam comprar ingressos para as sessões de IMAX 70mm. A NBC News registrou relatos de pessoas esperando mais de uma hora e até uma fila que dava a volta no quarteirão de um cinema da AMC em Nova York. Alguns ingressos começaram a aparecer no eBay por atravessadores por até US$ 1.000.
Esse valor não representa o preço oficial cobrado pelos cinemas, claro. É o preço pedido por revendedores. E justamente por isso ele funciona como um dos sinais mais extremos da demanda: quando um ingresso com disponibilidade limitada passa a ser anunciado por dez vezes, vinte vezes ou mais o preço original, existe um grupo de compradores disposto a pagar para garantir uma experiência que considera escassa.
A Forbes encontrou anúncios de ingressos para Duna: Parte Três em IMAX 70mm por cerca de US$ 200 e lembrou que, no caso de A Odisseia, alguns cambistas chegaram a pedir US$ 1.000. A NBC News, por sua vez, registrou anúncios semelhantes para Duna 3. O fenômeno não é novo, mas sua repetição em lançamentos recentes sugere que o ingresso premium se tornou parte importante da disputa comercial em torno desses filmes.
Adam Aron, CEO da AMC, reconheceu que o tráfego no site e no aplicativo da rede durante a venda de Duna 3 foi aproximadamente três vezes maior que o registrado na abertura das vendas de Homem-Aranha: Um Novo Dia. A empresa havia se preparado depois de problemas anteriores, mas a demanda voltou a superar as previsões. Aron resumiu a situação dizendo que a rede achava estar preparada, mas não estava.
Segundo ele, a AMC aprovou cerca de US$ 2 milhões em recursos de tecnologia para reforçar os sistemas de venda de ingressos. O episódio é revelador porque transforma uma questão de infraestrutura em um indicador de mercado: o problema não foi a falta de interesse, mas a dificuldade de processar simultaneamente o volume de pessoas tentando comprar.
A disputa também envolve as próprias telas. Duna: Parte Três será privilegiado nas salas IMAX durante o período inicial de lançamento, enquanto Doomsday buscará outras experiências premium. O resultado é uma competição que vai além da quantidade de espectadores: os grandes estúdios estão disputando quais filmes ocuparão os formatos considerados mais desejáveis pelo público.
Por isso, a perspectiva para dezembro é tão significativa. O TheWrap aponta que tanto Doomsday quanto Duna: Parte Três têm condições de alcançar resultados históricos. No caso de Duna, a expectativa mais concreta é superar os US$ 714 milhões mundiais de Duna: Parte Dois, o maior resultado da franquia até agora.
Para Doomsday, as expectativas são ainda maiores. O TheWrap considera que o filme tem potencial para superar US$ 2 bilhões mundialmente, especialmente se a recepção for positiva e o forte engajamento observado na pré-venda se converter em público durante a exibição. Mas a própria publicação ressalta que o ritmo inicial não permite prever com segurança o comportamento das vendas nos meses seguintes.
O que os dados permitem afirmar com mais segurança é algo menos grandioso, mas talvez mais interessante: os grandes blockbusters estão recuperando a capacidade de transformar o cinema em um evento. Homem-Aranha: Um Novo Dia mostrou isso com uma passagem relâmpago pela marca de US$ 2 bilhões. A Odisseia demonstrou que um filme original pode mobilizar multidões quando oferece uma experiência particularmente valorizada, sobretudo em IMAX. Agora, Doomsday e Duna: Parte Três chegam ao fim do ano com uma demanda antecipada que já está pressionando os sistemas de venda e criando escassez em determinados formatos.
Se os dois filmes transformarem a antecipação em bilheteria, 2026 poderá terminar não apenas como um ano de grandes sucessos, mas como um momento em que os blockbusters voltaram a exercer uma influência decisiva sobre o hábito de ir ao cinema.
Autor: Gazeta do Povo








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