Brasília
Maior farmacêutica do Brasil, a EMS tenta elevar em 108% a alíquota de importação de canetas emagrecedoras que chegam prontas do exterior.
A empresa pediu, em setembro, para a Camex (Câmara de Comércio Exterior) subir de 7,2% para 15% o imposto cobrado sobre os chamados agonistas de GLP-1.
O movimento se dá após a EMS lançar uma linha própria de medicamentos contendo semaglutida e pode atingir parte dos concorrentes que fornecem canetas da mesma substância, como a Novo Nordisk, dona do Ozempic e Wegovy, além da Hypera, Sandoz e Eurofarma.
A EMS argumenta que existem assimetrias entre o imposto cobrado na importação do produto acabado e o cobrado para componentes do remédio —como o corpo da caneta, tampa e fenol—, que vão de 12% a 18%.
Ainda diz que a entrada de medicamentos indianos, com “preços significativamente inferiores”, pode pressionar empresas que investiram para produzir no Brasil.
A própria farmacêutica hoje se beneficia de imposto zero para importação da caneta injetora e outros dispositivos, concedido em março pelo governo federal e válido por um ano. Naquela ocasião, a empresa se preparava para lançar as primeiras canetas de semaglutida e afirmou que os componentes eram importantes para a “futura fabricação”.
Agora, a EMS apresentou dois pedidos à Camex para aumentar a cobrança sobre a caneta importada. Um temporário, de 24 meses, que pode ser decidido pelo governo do Brasil, e outro permanente, que depende também da aprovação dos demais países do Mercosul.
A empresa mira canetas de semaglutida, como Wegovy, e também de liraglutida, que é a base da geração anterior de emagrecedores como o Saxenda. Os pleitos não atingem o Mounjaro (tirzepatida), que tem patente até 2036 e é produzido no Brasil apenas pela Eli Lilly.
CRÍTICAS
Concorrentes da EMS, além do sindicato que representa o setor, criticaram o plano da farmacêutica.
“O caminho para fortalecer a indústria local é reduzir o custo de produzir no Brasil, e não aumentar o custo de quem importa. A concorrência em igualdade de condições, inclusive tributárias, é saudável para o mercado e, sobretudo, para o paciente”, diz Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindusfarma.
A EMS ainda anexou aos pedidos planilhas mostrando que vendeu R$ 61,3 milhões em 2025 em canetas, além de R$ 425,1 milhões em 2026, quando lançou o medicamento mais moderno, contendo semaglutida.
A empresa disse à Folha que não tem o objetivo de restringir a concorrência ou beneficiar uma empresa específica, mas “estabelecer condições que reconheçam os investimentos realizados por companhias que desenvolvem tecnologia e mantêm produção no Brasil”.
Ainda afirma que investiu mais de R$ 1 bilhão para ampliar a capacidade produtiva e tecnológica instalada no país, o que inclui o desenvolvimento e fabricação das canetas. A farmacêutica diz que políticas para diferenciar a fabricação local da importação do produto acabado estimulam investimentos e reduzem a dependência externa.
Nos pedidos feitos à Camex, a EMS argumenta que a mudança não deve encarecer os produtos de concorrentes, já que eles têm preço máximo definido pelo governo. As canetas, porém, costumam ser vendidas nas farmácias por valores abaixo deste teto.
AS CANETAS BRASILEIRAS
Os medicamentos imitam a ação do GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano, e atuam no controle dos níveis de glicose no sangue e nos mecanismos de saciedade. São indicados para tratamento de diabetes e obesidade.
A EMS é uma das empresas nacionais neste mercado, pois tem uma fábrica própria de peptídeos sintéticos, tecnologia usada na produção das canetas, em Hortolândia (SP).
As primeiras canetas da empresa, porém, ainda são montadas no país com medicamento e outros componentes trazidos do exterior. O plano é utilizar o insumo feito no interior de São Paulo no futuro.
A farmacêutica nacional também foi a primeira a colocar no mercado uma caneta com semaglutida para concorrer com os produtos da Novo Nordisk, que antes detinha a patente da substância.
O Ozivy —nome que junta as marcas dos rivais Ozempic e Wegovy— foi registrado pela Anvisa em maio apenas para o controle da diabetes, mas tem sido vendido fora da bula (off-label) e passou a disputar o mercado de produtos para obesidade.
Veja lista de canetas emagrecedoras de semaglutida aprovadas pela Anvisa desde maio:
Aprovações se deram após queda da patente do Ozempic, da Novo Nordisk
Além do medicamento da EMS, a Anvisa registrou mais nove em 2026 com a mesma substância. O resto do mercado é composto basicamente por canetas que chegam prontas ao Brasil —ou seja, são alvo do pedido feito pela empresa à Camex.
As novas drogas intensificaram a disputa no mercado e fizeram os preços cair. Empresas também montaram parcerias: a Eurofarma vende o Poviztra, da Novo Nordisk, enquanto a Hypera traz a caneta feita na Índia pela Sun Pharma.
A Novo Nordisk afirma, em nota, que realiza “investimentos relevantes de longo prazo no país”, que incluem a expansão da fábrica de Montes Claros (MG), e que acredita que medidas que afetem o ambiente concorrencial e a dinâmica do setor “devem ser avaliadas de forma ampla, considerando seus potenciais impactos sobre investimentos, competitividade, abastecimento e acesso dos pacientes”.
A empresa dinamarquesa diz que não comenta sobre pedidos apresentados por outras empresas e que não avaliou o impacto da proposta da EMS sobre seus negócios.
Já a Sandoz, que tem parcerias com a Biolab para distribuir a caneta Owozy, afirma que as medidas tarifárias aplicáveis a medicamentos acabados “devem ser avaliadas a partir de critérios técnicos, transparentes e não discriminatórios”. Diz ainda que devem considerar possíveis efeitos sobre a concorrência e o acesso aos medicamentos.
A Biolab também é contra o pedido. “A empresa entende que as farmacêuticas brasileiras entraram no segmento de GLP-1 com a regulamentação conhecida e não concorda em mudança posterior das regras.”
Autor: Folha









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