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Psicodélicos contra o retrocesso da civilização neoliberal – 01/10/2026 – Virada Psicodélica

Na antevéspera de eleição fatídica para o Brasil, é imperativo admitir: o comunismo não morreu. Mas se engana a direita do filho 01 quando apavora crentes apontando leninistas comedores de criancinhas debaixo das camas. O espectro que ronda nossos sonhos é o comunismo lisérgico, não o marxista.

A expressão vem de Mark Fisher, que fui ler por incitação de intelectuais que respeito, como Luís Fernando Tófoli, Bruno Torturra e Alessandra Orofino. Gosto do adjetivo na locução, não tanto do substantivo, mas reconheço seu potencial comunicativo ao chocar a burguesia progressista à qual me filio.

A abrasividade da expressão incomoda, mas atrai. No ideário de Fisher, condensa o projeto de reunir a crítica estética e existencial dos hippies tomadores de LSD com a crítica social e política do movimento pelos direitos civis, contra a Guerra do Vietnã, pelo orgulho gay e contra a destruição da natureza. Com muita festa e música.

Em menos palavras, tudo o que o renascimento psicodélico deixa de fora. A virada clínica deflagrada na Universidade Johns Hopkins e no Imperial College de Londres, com um lado B de Brasil, reformatou psicodélicos como drogas experimentais para tratar só os transtornos individuais, como depressão e ansiedade.

Fisher não testemunhou a guinada que adiou –mas não exorcizou– a blasfêmia do comunismo lisérgico. Deixando inacabada a introdução para o livro-manifesto que nunca escreveu, matou-se em 2017 dias antes de Donald Trump tomar posse do primeiro mandato.

Ele abre seu prefácio com citação de Herbert Marcuse em “Eros e Civilização”: “Quanto mais próxima está a possibilidade real de libertar o indivíduo das restrições outrora justificadas por escassez e imaturidade, maior é a necessidade de manter e otimizar essas restrições, para que a ordem de dominação estabelecida não se dissolva”.

E Marcuse arremata: “A civilização precisa defender-se contra o espectro de um mundo que poderia ser livre” (minha tradução, com ajuda da IA que nos vai sujeitando).

Por “civilização” entenda-se o status quo neoliberal, ou o que Fisher apelidou de realismo capitalista, sob o pressuposto de que não existiria alternativa ao presente modo de produção de bens e de males. Se não há alternativa, é preciso inventá-la, e a perspetiva escancarada nos anos 1960 serve de guia para os perplexos.

“E se a contracultura foi apenas um início cambaleante?” Eis a pergunta lançada por Fisher, na tradução de Amauri Gonzo publicada pela revista Jacobina. “E se o sucesso do neoliberalismo não fosse uma indicação da inevitabilidade do capitalismo, mas um testamento à escala da ameaça prometida pelo espectro de uma sociedade que pode ser livre?”

Não se trata de volta ao passado, seja ele a miragem de ordem e harmonia perdidas fabricada pela internacional direitista, seja a reconexão carola com a sabedoria ancestral da floresta idealizada por quem prefere chamar de enteógenos e medicinas sagradas o que a explosão contracultural politizou como psicodélicos.

Precisamos falar de Marcuse e Fisher. Para não resvalar na alternativa fácil e enganosa do misticismo.


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Autor: Folha

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