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Food noise é termo para patologizar a fome – 18/08/2026 – Bruno Gualano

“Funcionou mesmo! Nossa, eu desenvolvi uma aversão à comida. Só de olhar, tipo… eu ficava pensando: ‘Pronto, agora vou comer um pedaço de chocolate’, sabe? Aí eu olhava para ele e, argh, quase vomitava.”

Quem fala é uma dinamarquesa usuária de caneta emagrecedora, em entrevista a pesquisadoras que colaboraram conosco. O relato se oferece como conquista sobre o food noise —o tal ruído que não nos deixa esquecer da comida.

Trouxe esse assunto para esta Folha quando ainda era incipiente. Agora que se tornou recorrente, volto à carga com uma crítica ao construto —mote de nosso artigo recém-publicado na revista cientítica Appetite.

O termo food noise tem origem no discurso popular. A hashtag explodiu no TikTok em 2024. Nas entrevistas com pacientes bariátricos que realizamos antes de 2023, nada parecido emerge. É índice de que talvez estejamos diante de um fenômeno que a era das canetas tornou audível.

As definições do ruído divergem: é eco ou chiado? Responde a algo do mundo —o cheiro do bolo, a propaganda de hambúrguer— ou brota sozinho? Não há consenso. Menos ainda sabemos qual nível de ruído seria normal, e sem isso não há como dizer o que, afinal, contaria como cura.

Tampouco sabemos aferi-lo. As escalas disponíveis se sobrepõem a instrumentos antigos de fissura e obsessão alimentar —tudo indica que capturam o mesmo fenômeno. Qual o interesse, então, em rebatizar condições já conhecidas?

Sigamos o dinheiro. Uma das escalas de food noise nasceu em parceria com a WW International, antiga Weight Watchers, que sabe uma ou duas coisas sobre lucrar convencendo alguém de que seu apetite é um problema. A outra pertence à Ro, telessaúde que comercializa o teste pelo qual o consumidor descobre se lhe convém calar a fome com remédio. Quem diagnostica o mal também vende a cura.

O food noise arrasta a fome do campo moral para o biológico. Ao patologizá-la, franqueia caminho à medicalização. Esse deslocamento pode aliviar a culpa do obeso, dirão os otimistas, mas não o estigma que recai sobre ele. Na rua (e em alguns consultórios), ninguém diz que o outro sofre de “ruído alimentar”, mas de “cabeça de gordo”.

A patologização do desejo não é propriamente uma inovação. Estoicos e epicuristas tomam a paixão (páthos) por doença da alma. Para os estoicos, porém, páthos é impulso desobediente à razão. A fome, pois, não é em si paixão, mas impulso; faz-se páthos apenas quando o juízo lhe concede o comando. Os epicuristas, por sua vez, contam entre os desejos naturais e necessários aqueles ligados à alimentação.

O contraste com a tradição contemporânea torna-se mais nítido na terapêutica. Os antigos prescrevem o que Foucault consagrará como práticas de si —incluindo abstinências dietéticas, é verdade—, mas com a finalidade de fortalecer o juízo, e não erradicar o apetite. Eles, portanto, educam o desejo; nós o sufocamos farmacologicamente.

O paradoxo contemporâneo, como lembra Alexandra Brewis, primeira autora de nosso artigo, é que essa cultura que celebra a contenção e moraliza o corpo floresce num ambiente tecnologicamente desenhado para nos fazer pensar a todo momento em comida.

Produtos formulados para serem irresistíveis, porções dilatadas, marketing que nos mira do outdoor ao scroll. Um lado do sistema fabrica o barulho; o outro, o silenciador. E ambos faturam alto. Tal cenário disfuncional nos obriga a interrogar quem são os agentes que trabalham incessantemente para aumentar o volume da fome, e o que se pode fazer para contê-los.

Tomar a fome –que caminha com a espécie desde os primórdios– por um intruso inconveniente deteriora nossas tradições culturais e as relações de afeto construídas ao redor da comensalidade. Estar em casa consigo mesmo, na fórmula que Foucault colhe em Sêneca, implica conviver com o desejo de comer – ainda que esse hóspede, açulado pela vizinhança, faça barulho fora de hora.


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Autor: Folha

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