
Encontraram um papiro da “Ilíada”, de Homero, amarrado ao corpo de uma múmia egípcia de 1600 anos. Agora os arqueólogos tentam entender o que o texto literário tinha a ver com o contexto funerário. E enquanto eles tentam entender isso e você boceja, fico olhando para a minha estante e pensando no tempo, na ambição de imortalidade, no desencanto do jornalismo que ignora a descoberta e, já que estamos aqui, na política. Por que não?
É que vejo os livros todos lindamente organizados pela minha digníssima esposa e me dou conta de que nenhum deles me oferece uma resposta clara e definitiva sobre a vida. Nenhum deles é um manual. Alguns sugerem que se vá por aqui, outros por ali. Há livros que não sugerem nada, que são apenas convites à contemplação daquilo que o ser humano é capaz de criar. E há também aqueles que são mero passatempo.
No tempo dos faraós é que era bão
Entre os livros, está a “Ilíada”, numa edição toda bacanona, tradução elogiada e premiada. Aqueles frufrus todos de hoje em dia. Uma edição bem diferente da que emprestei na Biblioteca Pública e que li assim meio na pressa, sem entender, só para dizer que estava lido e, com alguma sorte (na verdade, muita sorte), impressionar alguma moça da faculdade. Será que a múmia também andava com o papiro para cima e para baixo? Se sim, com que objetivo e esperança?
E lá se vão 1600 anos desde que a múmia sentiu o ar do deserto entrando por seus pulmões pela última vez. Será que ela reclamava do domínio bizantino e, de si para si, evocava com saudade o glorioso tempo dos faraós? Por que lia a “Ilíada” e por que escolheu aquele trecho específico para acompanhá-la no Além? A múmia com seus sonhos e medos, reduzida a uma notícia para a qual damos de ombros, entretidos que estamos com nossos problemas que daqui a 16 séculos nem nota de rodapé serão.
Autor: Gazeta do Povo








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