Longe dos grandes centros, é no interior que a rede Havan encontrou seu principal motor de crescimento. Ao priorizar cidades médias e polos regionais, a empresa dribla a saturação das capitais e aposta em um Brasil onde o consumo avança fora do radar tradicional do varejo — e onde uma única loja pode atrair clientes de dezenas de municípios ao redor.
Com 190 lojas espalhadas pelo país, a maior parte delas está fora das capitais. Isso ocorre porque a rede enxerga essas regiões no interior do Brasil como polos de desenvolvimento e consumo. “A Havan sempre teve uma estratégia muito forte de interiorização. Acreditamos que cidades médias têm grande potencial e, muitas vezes, são mercados carentes de opções de compras e lazer”, afirma o dono da empresa, Luciano Hang, em entrevista à Gazeta do Povo.
Entre os indicadores que mais pesam na escolha de uma cidade para a abertura de uma nova unidade, Hang cita que o principal é o potencial regional. De acordo com ele, são avaliados fatores como alcance da loja, localização estratégica, fluxo de pessoas — especialmente em rodovias — e demanda da comunidade.
Também entram na análise a infraestrutura, a facilidade de acesso, a disponibilidade de terrenos e o impacto econômico que o empreendimento pode gerar. “Não buscamos privilégios, mas sim condições para investir com segurança e contribuir com o desenvolvimento local”, diz Hang.
Além de movimentar a economia local, cada nova unidade também gera empregos. Em média, uma loja da rede cria cerca de 200 postos de trabalho diretos e oportunidades indiretas.
Logística e escala operacional no suporte do plano de expansão
Para dar suporte à expansão pelo interior, a Havan investe em logística. O Centro de Distribuição em Barra Velha (SC) ocupa uma área de 1,5 milhão de metros quadrados, com mais de 200 mil metros quadrados construídos.
A operação é automatizada, com dois sorters, quatro transelevadores e cerca de oito quilômetros de esteiras. Ao todo, cerca de 2,5 mil colaboradores atuam no complexo, sendo mil motoristas e 1,5 mil na área operacional. “Tudo isso permite agilidade e precisão no abastecimento das lojas e garante que a mercadoria chegue com rapidez, independentemente da distância”, afirma Hang.
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Avanço da Havan no interior reflete transformação estrutural do consumo
O avanço de redes como a Havan no interior não é isolado, mas parte de uma transformação mais ampla no consumo brasileiro. O professor de varejo do MBA em Gestão Comercial da Fundação Getulio Vargas (FGV) e diretor da Canal Vertical, Roberto Kanter, avalia que o movimento é híbrido: reflete tanto o crescimento econômico e demográfico de cidades médias quanto a maturidade das capitais.
Segundo ele, os grandes centros enfrentam custos elevados, saturação de oferta e intensa disputa pelo consumidor. Em contrapartida, cidades médias concentram renda, população relevante e menor concorrência estruturada. “A decisão estratégica não é apenas ‘fugir’ da capital, mas capturar mercados com melhor relação entre custo de operação, potencial de demanda e visibilidade de marca”, analisa.
De acordo com Kanter, a atratividade dessas cidades pode ser observada em diferentes indicadores. Entre eles, o avanço da urbanização fora das metrópoles, a geração de empregos formais e o aumento do potencial de consumo. Ele cita como exemplo o IPC Maps — estudo que mede o potencial de consumo das famílias brasileiras —, que aponta uma crescente relevância econômica de cidades intermediárias.
“Há ainda indicadores indiretos, como expansão de serviços, infraestrutura logística e presença de polos regionais de saúde, educação e agronegócio, que funcionam como motores locais de renda”, afirma.
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Entrada de grandes redes redesenha comércio local
Para o especialista, o movimento é impulsionado por quatro vetores principais: o demográfico, o econômico, o concorrencial e o comportamental — este último marcado por um consumidor mais conectado e alinhado ao padrão nacional de consumo.
A presença de grandes redes no interior gera efeitos ambivalentes sobre o comércio local. Por um lado, segundo Kanter, fortalece a economia ao gerar empregos, ampliar a oferta de produtos e elevar o nível de concorrência. Ainda conforme o professor, o efeito é a pressão em pequenos negócios, que têm menor capacidade de investimentos em tecnologia e de estratégias de marketing, além da margem reduzida para negociação com fornecedores.
“O resultado depende da capacidade de adaptação do comércio local. Mercados mais estruturados tendem a se reorganizar; os menos preparados podem perder participação”, afirma Kanter.
Ele ressalta que o modelo é sustentável, desde que baseado em critérios rigorosos de expansão e análise de mercado. “O risco de saturação surge quando há expansão sem disciplina analítica. O limite não é geográfico, mas estratégico”, ressalta.

Projeto em São Miguel do Oeste exemplifica estratégia de interiorização
A cidade de São Miguel do Oeste, no extremo-oeste de Santa Catarina, ilustra esse movimento de interiorização. O município deve receber uma nova unidade da Havan após mais de uma década de tratativas.
Segundo o prefeito Edenilson Zanardi (PL), o interesse da rede pela cidade existe há cerca de dez anos. “Estou bastante confiante de que até o final deste ano seja inaugurada a loja da Havan, que vai agregar muito para São Miguel do Oeste e toda a nossa região”, declara o prefeito.
De acordo com Zanardi, a instalação ocorre sem concessão de incentivos fiscais. A prefeitura prevê apenas adequações viárias no entorno, como a construção de uma via marginal em um dos principais acessos da cidade. “É uma obra que precisaríamos fazer de qualquer forma. A Havan não pede e não quer nenhum tipo de contrapartida.”
A unidade será instalada próxima ao entroncamento das BR-163 e BR-282, por onde circulam mais de 12 mil veículos por dia. A localização deve atrair consumidores de um raio de até 100 quilômetros. A prefeitura estima a geração de mais de 100 empregos diretos e a ampliação do fluxo econômico local.
A área de influência inclui municípios do oeste catarinense, além de regiões do Paraná e do Rio Grande do Sul, podendo alcançar entre 30 e 50 cidades e uma população superior a 300 mil pessoas. A proximidade com a Argentina — a cerca de 27 quilômetros — também é vista como um diferencial.
“Os argentinos visitam a cidade e a tendência é de aumento desse fluxo com a chegada da Havan”, projeta Zanardi. “A concorrência é saudável. A Havan deve atrair mais visitantes, que também acabam consumindo no restante do comércio da cidade”, completa.
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Autor: Gazeta do Povo








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