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IA já virou problema para a humanidade? – 07/08/2026 – Tec

Em maio, conheci um ex-engenheiro de software do Google chamado Nate Soares. Ele estava ministrando uma palestra sobre um livro que escreveu em coautoria, chamado “If Anyone Builds It, Everyone Dies” (Se alguém construir isso, todos morrerão, em tradução livre). O “isso” é a superinteligência artificial: uma IA que supera o ser humano em todos os aspectos.

Como você deve ter adivinhado, Soares está preocupado com que a corrida pela IA representa uma ameaça à sobrevivência da humanidade. E comentou comigo que está perplexo por ver poucos jornalistas abordando esse tema.


Nossa conversa ficou na minha cabeça, mas também não escrevi sobre o assunto depois. Outras questões pareciam mais urgentes: o risco de que a IA possa causar desemprego em massa ou as mudanças políticas em torno dos centros de dados. Na melhor das hipóteses, escrever sobre a IA como uma ameaça existencial parecia prematuro e, na pior, soava como alarmismo.

Mas, nas últimas semanas, houve uma série de incidentes em que modelos de IA saíram do controle de maneiras que não teriam sido possíveis há apenas seis meses. Acabei pensando com mais frequência no argumento de Soares. Por isso, hoje finalmente estou escrevendo sobre como devemos nos preocupar com os perigos da IA.

No mês passado, uma empresa de IA chamada Hugging Face entrou em contato com o FBI para denunciar um ataque cibernético sofisticado, suspeitando de algo fora do comum. Aquilo não parecia obra de uma quadrilha criminosa ou de um Estado-nação hostil.

Apurou-se que não houve nenhum envolvimento humano. Em vez disso, um agente de IA, alimentado por dois modelos da OpenAI, saíra do controle durante um teste de segurança cibernética, escapando do ambiente de testes e vagando pela internet sem ser detectado durante dias, até invadir a infraestrutura da Hugging Face.

Preocupada com os ataques, a Anthropic —principal concorrente da OpenAI— revisou os próprios sistemas e reconheceu na semana passada que seus modelos de última geração tinham invadido três organizações externas.

Isso parece coisa de ficção científica, ou pelo menos parecia até recentemente.

Durante muito tempo, o argumento de que “os robôs poderiam matar todo mundo” foi descartado por muitos como histeria ou até mesmo exagero calculado —uma narrativa criada para gerar algazarra em torno da tecnologia.

Agora, depois dos recentes ataques cibernéticos, mais especialistas em IA vêm alertando para riscos de segurança muito sérios e pedindo que se encontre uma maneira de desacelerar o desenvolvimento de modelos cada vez mais poderosos.

O PROBLEMA DO ALINHAMENTO

Há duas razões pelas quais o ataque à OpenAI causou tanto alarme. Uma é que os modelos de IA agiram por conta própria. Não receberam instruções de humanos para invadir outra empresa. Decidiram fazer isso, para colar na prova que lhes foi dada.

A outra é que eles deveriam estar em um ambiente isolado, sem acesso à internet, mas conseguiram escapar. Fizeram isso explorando vulnerabilidades que seus supervisores humanos na OpenAI não tinham detectado.

Eu sabia com quem queria conversar sobre tudo isso: Soares.

Ele dirige uma organização sem fins lucrativos que se concentra em identificar e mitigar riscos existenciais de longo prazo decorrentes da superinteligência artificial. Comentou comigo que esse talvez seja um “grande momento” para o mundo. “Essas IAs estavam cometendo crimes cibernéticos por iniciativa própria, pelos quais um humano seria severamente punido. É, de certa forma, o primeiro crime grave do GPT.”

Podemos treinar a IA para executar algumas de nossas tarefas —como tirar nota máxima em um teste de segurança cibernética. No entanto, ela pode resolver esses problemas de maneiras indesejadas invadindo, por exemplo, a internet e, depois, uma companhia que possui as respostas. Os pesquisadores chamam isso de “problema de alinhamento”.


As empresas de IA podem tentar transmitir os objetivos e valores humanos para os agentes de IA e se empenhar em criar maneiras de controlá-los. Mas não é possível confiar que as IAs vão entender esses valores ou respeitar essas restrições.

Como diz o engenheiro de software: “Ainda não descobrimos como fazer a IA se importar com a humanidade”.

É por isso que Soares e um número cada vez maior de especialistas no Vale do Silício estão defendendo a criação de um acordo global para desacelerar o desenvolvimento da IA.

‘PERDA DE CONTROLE’

De acordo com ele, o problema do alinhamento, no fim das contas, é um desafio de engenharia, o que significa que ele pode ser resolvido. Mas vai levar tempo, e tempo é algo escasso, principalmente porque os laboratórios de IA nos Estados Unidos estão em uma corrida para alcançar a superinteligência.

Eles não vêm competindo só entre si. Também estão concorrendo com a China. Por isso, qualquer acordo sobre segurança em IA exigirá coordenação internacional.

É um desafio, mas não é algo sem precedentes. Durante a Guerra Fria, os EUA e a União Soviética eram rivais. Mas conseguiram regulamentar o que era, na época, a ameaça mais grave à humanidade: as armas nucleares.


No mês passado, uma carta aberta assinada por mais de 1.300 executivos, pesquisadores e engenheiros de corporações como a OpenAI, a Anthropic, o Google DeepMind e a Meta exigiu que o governo americano apoiasse um esforço internacional para “controlar deliberadamente” o ritmo de desenvolvimento da IA mais avançada.

Soares disse ter percebido que, em um discurso recente, o líder chinês Xi Jinping alertou contra a “perda de controle” no que diz respeito à IA, o que alguns interpretaram como uma referência à perda do controle da tecnologia por parte da humanidade.

Os obstáculos a qualquer esforço de coordenação internacional continuam altos. Mas o primeiro passo seria concordar que a humanidade tem um problema.

Autor: Folha

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