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IA transforma preguiça em falsa produtividade – 07/10/2026 – IA

Financial Times
“Não sei como vamos reagir”, disse ele a Kenny Malone, do Planet Money, da NPR. “Cem anos atrás, C.S. Lewis escreveu um livro chamado Cartas de um diabo a seu aprendiz, sobre um demônio no inferno cuja função é escrever cartas para seu chefe, um demônio de alto escalão, um gerente, relatando suas tentativas de corromper uma pessoa na terra. E há uma carta em que eles dizem: ‘Ótima notícia. Meu humano acaba de ganhar uma invenção chamada telefone’.”

E o que há de errado com o telefone, alguém poderia perguntar? Clark lembra que o demônio mais jovem explica: “Sempre que meu humano está sozinho e, de outra forma, refletiria sobre si mesmo e se aproximaria de Deus, ele pega o telefone e liga para os amigos, o que o aproxima do inferno. Então, o que isso acerta e o que erra? O que acerta é que coisas como os telefones realmente mudaram profundamente a maneira como as pessoas se relacionam umas com as outras.”

Escultura grande de robô azul com boca aberta segurando um cérebro rosa com as duas mãos, em ambiente externo com árvores e pessoas ao fundo.

Carro alegórico que representa um robô de IA se alimentando de um cérebro durante desfile de Carnaval na segunda-feira de Rosas, em Düsseldorf, no oeste da Alemanha

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Ina Fassbender – 03.mar.25/AFP

Clark certamente tem razão ao dizer que os telefones nos mudaram. Em 1975, um grande incêndio em uma central telefônica no Lower East Side, em Manhattan, interrompeu mais de 100 mil linhas telefônicas —potencialmente por meses, embora o serviço tenha sido restabelecido após cerca de três semanas. Pouco depois da retomada, dois pesquisadores de mídia, Alan Wurtzel e Colin Turner, entrevistaram algumas centenas das pessoas afetadas e perguntaram como elas haviam se sentido sem um telefone funcionando e quais implicações isso havia tido.

Dois terços dos entrevistados disseram que a falta de telefone os deixou “isolados” ou “inquietos”, e mais da metade afirmou ter sentido as duas coisas. Muitos lamentaram a perda da possibilidade de fazer e receber ligações de amigos e familiares. Por outro lado, um terço das pessoas afirmou que, durante o período em que as linhas estavam fora do ar, passou a visitar outras pessoas pessoalmente com mais frequência; a mesma proporção disse ter recebido mais visitas.

Há aqui uma complexidade que vale observar. Como escreveu o cientista político Robert Putnam em “Jogando Boliche Sozinho” (2000), “socialmente falando, o telefone tanto dá quanto tira”. O incêndio de 1975 demonstrou que “o telefone parece reduzir tanto a solidão quanto a socialização presencial”.

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Muita coisa mudou desde 1975, mas a conclusão de Putnam continua plausível. O telefone, assim como todas as tecnologias hiperconectadas que vieram depois, tem dois lados.

“A cada passo, a IA nos confronta com resumos elegantes, mas esquecíveis, e invenções confiantes e plausíveis”

Duvido que C.S. Lewis tivesse ficado surpreso. As Cartas de um diabo a seu aprendiz estão cheias de descrições de situações que poderiam igualmente aproximar os seres humanos de Deus ou da perdição. Apaixonar-se, explica o demônio veterano Fitafuso, “é simplesmente uma ocasião que nós e o Inimigo estamos tentando explorar”. O mesmo vale para a guerra. Até mesmo o pecado pode aproximar uma pessoa de Deus, ao provocar reflexão e arrependimento. Se amor, guerra e pecado são armas de dois gumes, não deveríamos nos surpreender ao descobrir que o mesmo vale para o telefone —ou para a inteligência artificial.

Por que, então, C.S. Lewis teria dito que o telefone era um atalho para o inferno? Os fãs de Lewis já devem ter adivinhado a resposta: ele não disse. Jack Clark havia se lembrado de forma equivocada de quase todas as suas afirmações. Lewis não escreveu As Cartas de um diabo a seu aprendiz (1942) um século atrás; as cartas não são escritas por um demônio aprendiz, mas endereçadas a ele por seu tio, Fitafuso. E não há nenhuma menção ao telefone.

Sem querer criticar Clark com muita severidade por ter se equivocado durante uma conversa no palco —isso acontece facilmente—, há algo magnificamente simbólico em ouvir uma autoridade em IA generativa produzir uma sequência de afirmações encantadoras, instigantes e convincentes sobre C.S. Lewis, todas factualmente incorretas. O Planet Money acrescentou uma “correção” à gravação da conversa, observando que C.S. Lewis havia “falado sobre os aspectos negativos dos aparelhos, incluindo o rádio” em “uma carta particular diferente”.

Curioso para saber exatamente o que C.S. Lewis havia dito sobre o rádio, fui atrás de uma citação amplamente atribuída a ele —um conselho irônico sobre como evitar Deus: “Concentre-se em dinheiro, sexo, status, saúde e, acima de tudo, em suas próprias queixas. Mantenha o rádio ligado. Viva no meio de uma multidão. Use bastante sedação.”

Mas onde ele escreveu originalmente essas palavras? Colei a citação no Google, mas, antes mesmo de qualquer resultado de busca, a IA Gemini, do Google, se apressou em me informar: “Você está citando ou parafraseando de perto C.S. Lewis em As Cartas de um diabo a seu aprendiz”. Boa tentativa, demônio veterano; as palavras foram escritas duas décadas depois de Screwtape.

Se o telefone pode nos conectar, mas também nos afastar uns dos outros, o que devemos pensar da IA generativa? Eu diria que ela nos conecta —e também nos afasta— dos fatos. Quem já pediu a um modelo de linguagem de grande escala que produza um relatório de pesquisa sabe como os resultados podem ser impressionantes: abrangentes, completos, repletos de links úteis e rápidos. É uma ferramenta de pesquisa que rivaliza com o Google e, antes dele, com o catálogo de uma biblioteca.

E, ainda assim, a cada passo —e agora, a cada busca no Google—, a IA nos confronta com resumos elegantes, mas esquecíveis, e invenções confiantes e plausíveis. Os defensores da IA continuam me dizendo que essas ficções quase não acontecem mais. Meus próprios olhos, que não mentem, contam uma história diferente.

Em outras palavras, o telefone facilita o contato superficial. Isso pode ser o começo de uma relação humana mais significativa ou pode substituí-la. Os grandes modelos de linguagem oferecem a mesma tentação quando se trata de adquirir conhecimento. Uma pesquisa superficial se torna fácil. Nós permitimos que ela catalise uma investigação e uma compreensão mais profundas? Ou deixamos que as substitua?

A escolha é nossa. Colocada dessa maneira, a questão chega perto de ser moral. Podemos facilmente imaginar o que Fitafuso teria pensado disso.

Meu caro Vermebile,

Fico satisfeito em saber que o paciente se apaixonou pela máquina. Não tente convencê-lo de que ela é infalível. Essa abordagem grosseira não resistirá por muito tempo ao contato com as evidências esmagadoras em contrário.

Você precisa ser mais sutil. Ele aprenderá a desconfiar dela, sim, mas sua desconfiança pode ser mantida em um nível teórico. É fácil transformá-la em cinismo, um excelente estado de coisas do nosso ponto de vista. Questões sobre fatos específicos são o que deve ser evitado. Queremos que ele seja complacente, não curioso.

Incentive-o a sentir que checar os fatos é uma ineficiência pedante que está abaixo dele. Deixe-o desfrutar de sua preguiça e chamá-la de produtividade. Os humanos há muito tendem a confundir ter uma resposta com encontrar a verdade. Esse é o jogo.

Seu afetuoso tio,

FITAFUSO

Autor: Folha

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