Londres
|Financial Times
Foram necessários 20 anos para que os computadores eliminassem as datilógrafas, 30 anos para que a lâmpada elétrica transformasse os ambientes das fábricas e gerações para que os tratores reduzissem a força de trabalho agrícola.
Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, afirma que a inteligência artificial reduzirá pela metade os empregos de nível inicial em áreas administrativas até 2030. O cofundador da Microsoft, Bill Gates, alertou que, dentro de uma década, “sem as políticas adequadas, haverá muito menos [empregos] do que existem hoje”.

Economistas dizem que efeitos da IA podem variar conforme setor, função e velocidade de adoção
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Aly Song – 29.set.26/Reuters
A maioria dos economistas é cética em relação às previsões apocalípticas do Vale do Silício. Eles argumentam que previsões anteriores de que a automação provocaria um desastre no mercado de trabalho —incluindo um estudo amplamente citado de 2013 que alertava que metade dos empregos nos Estados Unidos poderia desaparecer em uma década— não se concretizaram.
“Desde que os números começaram a aparecer… todos os números se mostraram errados!”, observou o Nobel de Economia Sir Christopher Pissarides, cofundador do Instituto para o Futuro do Trabalho.
Ainda assim, à medida que aumentam os alertas sobre o potencial destrutivo da IA, entender seus possíveis efeitos sobre os mercados de trabalho se tornou “quase o único tema em torno da economia”, segundo Simon Johnson, ex-economista-chefe do FMI que comanda o novo AI Economics Institute do Reino Unido.
Economistas não veem um futuro sem empregos. Mas reconhecem espaço para mudanças rápidas e disruptivas na natureza do trabalho —sem garantia de que os ganhos proporcionados pela tecnologia serão distribuídos de forma equilibrada.
As previsões sobre o resultado final variam muito.
Uma pesquisa liderada por Cosmina Dorobantu, da Escola de Economia de Londres, analisou 74 estudos sobre os impactos reais e potenciais da IA. O relatório recente afirma: “Quem estiver procurando um número sobre o efeito da IA sobre o emprego pode escolher entre estimativas que vão de menos 20% a mais 25%. Para os salários, o intervalo vai de menos 34% a mais 40%. Escolher um único número de destaque… é uma decisão sobre qual história contar”.
Há poucos sinais de que a IA esteja eliminando empregos em escala na economia global. Mesmo nos Estados Unidos, onde a adoção da tecnologia está mais avançada e dados recentes mostram queda no número de postos em setores como o financeiro, o Laboratório de Orçamento de Yale não encontrou evidências claras de que a IA esteja mudando a composição das ocupações ou deixando recém-formados sem trabalho.
“As taxas de emprego na maioria dos países da OCDE continuam próximas de níveis recordes, apesar de alguns sinais recentes de enfraquecimento”, observou Stijn Broecke, que lidera pesquisas sobre os efeitos da IA no mercado de trabalho na OCDE, sediada em Paris. A organização acaba de realizar uma pesquisa com 8.000 empregadores em 13 países, que indica que apenas um em cada dez dos que adotaram IA está reduzindo o quadro de funcionários —e somente um em cada cem está fazendo isso principalmente por causa da IA.
O desenvolvimento mais preocupante é uma desaceleração, em vários países, das contratações de profissionais em início de carreira em ocupações relacionadas à tecnologia —algo compatível com a possibilidade de a IA turbinar a produtividade de funcionários mais experientes enquanto assume tarefas rotineiras antes realizadas pelos mais jovens.
Mas não há consenso sobre a causa. “O desemprego entre jovens recém-formados piorou desde 2015. É uma tendência de longo prazo. A IA claramente não é o único fator”, argumentou Broecke, citando um possível excesso de oferta de graduados, o avanço do trabalho remoto e as taxas de juros elevadas.
A ausência de perdas agregadas de empregos pode ser apenas a calmaria antes da tempestade.
“Converse com executivos do setor não tecnológico —aqueles que usam IA como clientes— e muitos dizem que não precisam de tantos trabalhadores quanto antes da IA”, afirmou Johnson. “Isso ainda não aparece nos números… mas a ameaça da automação é muito real.”
Uma modelagem do Anthropic Institute, publicada no mês passado, incluiu um cenário extremo no qual avanços rápidos nas capacidades da IA reduziriam em 20% o emprego em ocupações “cognitivas” até 2030, deixando um em cada cinco trabalhadores de áreas administrativas e um em cada dez trabalhadores no total desempregados.
O modelo é altamente sensível às premissas utilizadas. O cenário extremo pressupõe que a IA se tornará rapidamente capaz de executar a maioria das tarefas sem supervisão humana, será amplamente adotada e produzirá grandes ganhos de produtividade.
Outros cenários apontam para mudanças mais moderadas, mas Anton Korinek, que liderou a modelagem, disse que “pessoalmente dá mais peso” aos cenários que mostram uma rápida aceleração da adoção da IA a partir de 2028, com a tecnologia se tornando capaz de rivalizar com e substituir executivos experientes, e não apenas funcionários em início de carreira.
Na prática, as empresas podem demorar para demitir trabalhadores mesmo quando as ferramentas de IA já são capazes de executar o trabalho.
Broecke, da OCDE, disse: “Existe o custo da tecnologia. Há barreiras legais, preferências sociais, questões éticas. Há todo tipo de razão pela qual algo teoricamente possível não acontecerá na prática”.
As previsões mais alarmantes geralmente se baseiam em medidas da chamada exposição à IA —uma análise da capacidade da tecnologia de executar as diferentes tarefas que compõem uma função.
Esses estudos sobre a exposição potencial à IA são “uma primeira análise útil”, mas superestimam as prováveis perdas de empregos, segundo Ronnie Chatterji, economista-chefe da OpenAI. Isso ocorre porque, em geral, “as tarefas não são ponderadas de acordo com sua importância para o trabalho ou para o salário” e os estudos não levam em conta as barreiras à mudança organizacional ou a maneira como as funções podem evoluir.
“Um emprego não é uma tarefa”, concordou Luis Garicano, professor da Escola de Políticas Públicas da LSE.
Todos os empregos são compostos por “conjuntos” de tarefas, argumentou Garicano. Algumas, como tradução ou redação, podem ser relativamente fáceis de separar e automatizar. Outras —como enfermagem ou política— são baseadas principalmente em relações humanas. No meio estão o que ele chama de “empregos confusos”, com “conjuntos emaranhados de tarefas difíceis de separar”.
Ele dá como exemplo os consultores, que podem passar duas semanas analisando dados para reformular um programa de fidelidade, mas meses tentando descobrir como ajustá-lo para que as partes interessadas fiquem satisfeitas e se comprometam a implementá-lo. A IA pode escrever a apresentação em PowerPoint —mas ela é resultado de “todo um conjunto de reuniões”, disse.
Economistas argumentam que as previsões mais pessimistas também tendem a subestimar o potencial da IA para criar novos empregos.
Isso ocorre, em parte, por uma falha de imaginação, dizem os otimistas. Um estudo de 2024 realizado por economistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts constatou que a maioria das ocupações existentes nos Estados Unidos —incluindo novidades como tatuadores e hipnoterapeutas— surgiu apenas depois de 1940.
O emprego também pode crescer em ocupações já existentes cuja demanda aumente por causa da IA. Engenheiros de telecomunicações são muito procurados para trabalhar em data centers. Se a IA aumentar a prosperidade geral, as pessoas poderão ter mais dinheiro para gastar com serviços que exigem muita mão de obra.
Mesmo em áreas nas quais a IA economiza mão de obra, o efeito geral sobre o emprego pode ser positivo se os preços caírem o suficiente para atrair novos consumidores —por exemplo, se a orientação jurídica ficar barata o bastante para que mais pessoas possam contratar advogados.
“Sou otimista em relação ao fato de que os seres humanos terão muito o que fazer”, disse Chatterji, da OpenAI. Ele observou que os países costumam gastar mais com saúde e educação à medida que ficam mais ricos, de modo que os ganhos da IA poderiam ser “investidos na redução do tamanho das turmas e na oferta de mais serviços de saúde”.
Se a IA eliminar empregos, porém, também poderá reduzir a demanda dos consumidores —e, ao avaliar o efeito agregado, “não é óbvio para que lado isso iria”, disse Korinek.
Um ponto em que executivos de tecnologia e economistas concordam é que os governos não precisam esperar a revolução da IA se desenrolar. Gates argumentou que algumas profissões deveriam ser classificadas como “reservadas aos humanos”.
Raghuram Rajan, ex-presidente do banco central da Índia, está entre as várias vozes que defendem um “imposto simbólico” sobre o uso da IA, para garantir que as empresas não adotem tecnologias que economizem mão de obra simplesmente “porque o custo tributário é menor do que o do trabalho humano”.
Outros argumentam que os governos deveriam se preocupar menos com a possibilidade de a IA estar eliminando empregos e mais com o risco de a tecnologia reduzir as habilidades dos trabalhadores, pressionar os salários e criar novas divisões entre vencedores e perdedores.
A principal preocupação de Pissarides é que a IA agrave as desigualdades existentes caso poucos grupos dominantes capturem os ganhos. “É muito improvável que monopólios fortes levem a mais igualdade”, argumentou. “Quem vai fazer com que enfermeiros ou funcionários de hotéis recebam bons aumentos salariais se a IA aumentar a produtividade dos gerentes?”
Autor: Folha








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