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Jejum bíblico vira dieta nas redes sociais; entenda – 13/05/2026 – Equilíbrio

Conteúdos que associam práticas religiosas a estratégias alimentares inspiradas na Bíblia, como o jejum, vêm ganhando espaço nas redes sociais, especialmente em plataformas como Instagram, TikTok e YouTube, para redução de peso. Em vídeos curtos, usuários compartilham rotinas, testemunhos de fé e mudanças no corpo, ampliando o alcance do tema e mobilizando debates entre líderes religiosos, profissionais de saúde e pesquisadores.

Na prática, esses conteúdos mostram rotinas com alimentos considerados naturais, como frutas, legumes e grãos, geralmente associadas à reeducação alimentar e intercaladas com períodos de jejum.

Muitos criadores desses conteúdos se identificam como cristãos e descrevem a experiência como um propósito espiritual. Vídeos com títulos como “7 dias de jejum com Deus”, “dieta de Daniel” ou “como emagreci buscando a Deus”, reúnem relatos de perda de peso, que variam de alguns quilos em poucos dias a mudanças ao longo de semanas.

Parte dessas publicações menciona reduções rápidas, como 3 a 5 quilos em uma semana, o que acende alerta de especialistas, especialmente em casos sem acompanhamento adequado. Alguns conteúdos também associam o chamado “jejum bíblico” a resultados físicos, embora essa relação não seja descrita dessa forma nos textos bíblicos. Em comum está a ideia de que fatores emocionais e espirituais podem influenciar como as pessoas se alimentam.

A nutricionista Kesia Araújo, que atua com foco em comportamento alimentar, afirma que seu método une princípios da nutrição e da mudança de hábitos. “Muitas pessoas sabem o que fazer, mas não conseguem sustentar mudanças“, diz. Segundo ela, a proposta envolve também aspectos emocionais e espirituais, partindo do princípio de que pensamentos e comportamentos influenciam a relação com a comida.

A teóloga Angelita Kayo, que produz conteúdos sobre espiritualidade, afirma que não utiliza o conceito de dieta. “É um processo de reconstrução que envolve corpo, mente e espírito”, diz, acrescentando que eventuais mudanças físicas podem ocorrer como consequência desse percurso.

Já a nutricionista Liliane Neto, conhecida nas redes como “nutri adventista”, afirma que padrões alimentares baseados em vegetais podem trazer benefícios quando bem planejados. Segundo ela, essa escolha também dialoga com interpretações religiosas.

“Os adventistas entendem que Deus criou o homem e também seu combustível perfeito através das plantas. Entendem que alimentos como frutas, legumes, verduras, cereais, feijões, castanhas e sementes oferecem todos os nutrientes que o organismo precisa”, explica.

Do ponto de vista religioso, o jejum possui outro significado. O pastor Valdinei Ferreira, colunista da Folha, afirma que a prática está ligada à busca de comunhão com Deus, e não a objetivos físicos. “O objetivo é espiritual, não o corpo”, diz.

Segundo ele, não há base bíblica para vincular o jejum ao emagrecimento. Na tradição cristã, a prática envolve a privação de alimentos por um período para dedicação à oração, leitura da Bíblia e reflexão. Um dos trechos mais citados é o episódio em que Jesus afirma que “nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Lucas 4:4).

O pastor ressalta que a Bíblia não associa o jejum à transformação física. A referência mais citada é o capítulo inicial do livro de Daniel, que não trata de jejum, mas de uma alimentação baseada em legumes e água. No relato, a escolha estava ligada à obediência religiosa, e não a uma estratégia de saúde ou emagrecimento.

Para ele, o uso dessas práticas com finalidade estética pode representar uma distorção do sentido original. “Benefícios físicos podem até ocorrer, mas são secundários. O jejum busca fortalecer valores espirituais, não atender a padrões estéticos”, afirma. Ele acrescenta que associar práticas religiosas a promessas de emagrecimento pode gerar impactos negativos tanto na saúde física quanto na vida espiritual.

Entre os médicos, a perda rápida de peso é vista com cautela. A endocrinologista Fernanda Salles, do Hospital Sírio-Libanês, afirma que dietas restritivas levam o corpo a usar gordura e massa muscular como fonte de energia. “[Nesses casos] Há perda de massa muscular e redução do metabolismo”, diz.

O jejum prolongado ou uma alimentação desequilibrada pode causar déficit de nutrientes e afetar a imunidade e os hormônios. Para Cynthia Valério, diretora da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), promessas de resultado rápido devem ser vistas com cautela. “Pode significar perda de saúde, não ganho”, afirma.

A nutróloga Marcella Garcez, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia, diz que restrições severas levam o corpo a economizar energia. “Isso pode dificultar a continuidade da perda de peso e prejudicar a qualidade nutricional.” Entre os riscos estão desidratação, hipoglicemia e desequilíbrios de eletrolíticos, que são os minerais essenciais, como sódio, potássio, magnésio e cálcio. A nutricionista Camila Manzolini, do Hospital Sírio-Libanês, afirma que a falta de minerais pode causar tontura, fraqueza e desmaios.

Paulo Augusto Miranda, ex-presidente e atual coordenador da Comissão Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, diz que restrições extremas podem levar a um quadro semelhante à desnutrição.

Além dos efeitos físicos, dietas restritivas podem ter impactos hormonais e comportamentais. O psiquiatra Elton Kanomata, do Einstein Hospital Israelita, afirma que essa mudança na alimentação pode levar a aumento de ansiedade, culpa e episódios de compulsão. A nutricionista Débora Donio, também do Einstein, diz que restrições afetam os sinais de fome e saciedade.

Cynthia Valério afirma que práticas religiosas não devem ser tratadas como estratégia de emagrecimento. “O emagrecimento deve ser conduzido de forma segura e gradual”, pontua.

Autor: Folha

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