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Jovens trocam excessos das telas por crochê – 11/05/2026 – Equilíbrio

Esqueça a imagem da avó sentada em uma poltrona com lãs e uma agulha tecendo um suéter. As gerações Y e Z têm ressignificado o crochê, transformando fios coloridos em roupas e bolsas exclusivas, uma nova carreira na moda ou em apenas em relaxamento.

Para além da estética handmade (feito à mão), os jovens encontraram no ritmo dos pontos uma forma de expressar sua arte, um refúgio contra estresse e antídoto para o excesso de telas, como um bálsamo para a mente.

Como muitos entusiastas dessa arte, Juliana Perezino, 29, Marie Castro, 37, e Junior Silva, 21, conhecido nas redes como Junior Crocheteiro, descobriram o encanto pelo crochê em casa, observando parentes tecendo cada peça. Para eles, a tradição virou carreira, mas garantem que o crochê continua a ser um refúgio que, mesmo nas horas vagas, mantém a inspiração fluindo.

A relação de Juliana com as agulhas começou cedo, aos seis anos, nas férias na casa da avó em Caldas Novas (GO). Enquanto as outras crianças da família aproveitavam as piscinas termais da cidade, Juliana preferia ficar no aconchego da sala aprendendo crochê com a avó e a bisavó. “Todo mundo me chamava de vovozinha”, diz.

O crochê, antes restrito às férias e limitado pela rotina escolar, ganhou força. Na reta final da faculdade de arquitetura, Juliana retomou as agulhas, focando na produção de roupas e bolsas para vender para as amigas. Em 2022, ela se mudou para São Paulo com o namorado e estabeleceu um desafio: teria que fazer o crochê dar certo antes de cogitar o retorno à sua área de formação. “Nada brilhava os meus olhos como o crochê, sempre gostei muito de fazer.”

No início, ela compartilhava peças e sua rotina no TikTok. “Hoje, meu foco mudou: parei de vender as peças físicas para trabalhar como criadora de conteúdo, vendendo os tutoriais digitais das minhas próprias criações”, explica Juliana.

Juliana revela que diferencia o crochê de trabalho, daquele que pratica nas horas vagas, longe das câmeras. “Vivemos com excesso de informações e telas, me sinto bombardeada de estímulos. O crochê me traz esse conforto de ter algo nas mãos para desacelerar.”

Marie conta que seu contato com o crochê começou aos oito anos, seguindo a tradição de pessoas que observavam mães e avós tecendo toalhinhas. Embora o interesse inicial tenha migrado para o tricô e, na adolescência, para o corte e costura, a redescoberta das artes manuais aconteceu aos 18 anos. Enquanto estudava vestuário, Marie ganhou um concurso de criadores cujo prêmio era criar uma coleção autoral. Foi essa conquista que permitiu que ela inserisse o crochê no seu trabalho.

Hoje, Marie compreende que o seu foco em aprender processos era, na verdade, uma busca por autonomia. “O artesanato é muito empoderador. Há uma sensação de realização e concretude muito forte, eu acho que chamou minha atenção esse processo terapêutico de materializar as ideias”, explica Marie.

Junior teve interesse pelo crochê aos 11 anos, observando a avó e a tia na sala de casa. Encantado ao ver os fios se transformarem em peças, pediu para aprender a técnica. “Elas foram as minhas primeiras mestras. No início, muita gente achava que era apenas um passatempo de criança, algo passageiro, mas eu levei o crochê a sério desde o primeiro ponto”, afirma.

Aos 15, Junior já fazia sucesso nas redes sociais, comandando lives onde conversava com seguidores e ensinava a técnica. “Enfrentei preconceitos e quebrei tabus. Afinal, ver um menino com uma agulha na mão ainda era um choque para muitos. Mas essa resistência só me deu mais força para transformar o crochê na minha profissão”, conta.

O sucesso levou Junior a São Paulo, onde conquistou independência financeira aos 18 anos. Hoje concilia a faculdade de design de moda com o trabalho da sua marca própria. “O crochê agora é o meu trabalho, a minha profissão, mas ao mesmo tempo ainda é o meu hobby. Se estou estressado ou ansioso, pego na agulha e faço crochê, não consigo viver sem ele.”, diz Junior.

Reconexão

Essa essência do trabalho feito à mão atrai as gerações Y e Z, segundo a professora do curso de moda da FAAP ( Fundação Armando Alvares Penteado), Edilma Salamanca. Para ela, o fenômeno das artes manuais não é apenas um passatempo, mas um movimento de mercado e comportamento. “É explicado por dois conceitos fundamentais, o que surge nas passarelas e é copiado pela massa, e o que emerge das ruas e periferias para influenciar o mercado de luxo”.

Edilma diz que hoje existe uma necessidade visceral de “desligar”. Num mundo saturado por telas, ela enfatiza que o toque físico converteu-se em um ato de resistência e sanidade mental. “Este resgate das artes manuais é uma resposta direta ao ambiente de trabalho adoecedor e à superficialidade das redes sociais. As agulhas tornaram-se ferramentas de consciência e um travão necessário para uma geração ao limite, que procura agora regressar ao real e à reconexão com o humano”, explica a docente.

Segundo o professor do curso de Psicologia da PUC (Pontifica Universidade Católica) Claudinei Affonso, em um mundo dominado pela virtualidade e saturação digital, as artes manuais surgem para as novas gerações como um refúgio mental ao excesso de telas.

“Embora não substitua o tratamento clínico, a prática do crochê e de outras atividades manuais é vista pela psicologia como ferramenta poderosa de reconexão. Essas atividades fazem com que o sujeito se volte para si mesmo, proporcionando uma experiência de presença que o mundo digital muitas vezes fragmenta”, afirma.

Apesar dos benefícios, o docente alerta que o crochê atua apenas como uma atividade complementar de relaxamento, não substituindo a arteterapia —que exige uma intervenção clínica conduzida por profissionais qualificados. “[O crochê] pode ajudar o sujeito relaxar e aliviar um pouco a ansiedade, mas não é uma terapia em si, porque esta envolve todo um quadro clínico diferente e acompanhamento profissional”, enfatiza.

Autor: Folha

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