O estádio Conde Rodolfo Crespi, do Clube Atlético Juventus, está passando por uma transformação com a chegada do time da Mooca à primeira divisão do Campeonato Paulista depois de 19 anos.
Contratada pela SAF (Sociedade Anônima do Futebol), que controla o clube desde outubro de 2025, a obra de ampliação do estádio da rua Javari foi iniciada sem autorização da Prefeitura de São Paulo. O imóvel é tombado desde 2016.
Segundo a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), o projeto de reforma e restauração apresentado pela SAF-Juventus continua em análise por técnicos do DPH (Departamento de Patrimônio Histórico).
A Folha procurou a SAF-Juventus por e-mail e telefone, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
A reforma prevê aumentar a capacidade para 10.000 pessoas, uma exigência da FPF (Federação Paulista de Futebol) para os estádios da série A1 do Paulistão. Hoje, a rua Javari comporta 3.800 torcedores.
Operários e tratores começaram a fazer escavações e demolições de parte do setor conhecido como “geral” em maio. As obras começaram uma semana depois de o Juventus ser o campeão da série A2 —em uma partida vencida por 2 a 1 contra a Ferroviária, em Araraquara (SP)— e conseguir acesso à elite do futebol paulista.
Inaugurado em 1929, o pequeno estádio da rua Javari foi construído por imigrantes italianos moradores da Mooca, na zona leste de São Paulo. Reformado em 1941, ele depois passou por um longo processo de tombamento pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental).
Em agosto de 2004, uma lei municipal incluiu o estádio na lista de imóveis classificados como Zepec (Zonas Especial de Preservação Cultural). Mas foi só em 2016 que o Conpresp aprovou o tombamento definitivo.
Em 2020, a prefeitura publicou uma resolução com as orientações sobre o que deveria ser preservado integralmente, como os guichês da bilheteria, portões de madeira, cobertura das arquibancadas, pinturas na cor grená e a geral (espaço em frente às arquibancadas principais).
O projeto apresentado à prefeitura pelo estúdio Sarasá, especializado em intervenções em bens tombados, prevê a construção de duas novas arquibancadas independentes dos setores antigos, além de uma área para camarotes. Quatro torres de iluminação de LED serão instaladas nas laterais.
O novo estádio terá uma nova loja do clube, além de um bar. Também serão construídos novos banheiros e outro espaço para a venda do cannoli, tradicional doce italiano muito procurado pelos torcedores durante os jogos.
Em dezembro do ano passado, a pedido da SAF-Juventus, o Conpresp também aprovou a instalação de grama sintética no estádio.
Em nota, a prefeitura afirmou que ainda não foi deliberada uma multa ao clube por iniciar a obra sem autorização. Segundo a gestão Nunes, o Conpresp aprovou, em uma reunião em 8 de junho, parte das intervenções já realizadas, mas o órgão solicitou novos estudos sobre possíveis mudanças no tombamento do estádio.
Essas alterações também precisarão ser aprovadas por órgãos de preservação do patrimônio nos âmbitos estadual e federal, segundo a prefeitura.
SAF foi aprovada em 2025 e divide torcedores
A SAF-Juventus foi aprovada por 84% dos conselheiros do clube em outubro do ano passado. Na época, as empresas Contea Capital e Reag Capital Holding fizeram uma proposta de R$ 480 milhões em investimentos por 90% do clube.
Em seguida, a Reag anunciou sua saída do negócio após ter sido incluída nas investigações de uma megaoperação da Polícia Federal contra a lavagem de dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital). Hoje, a SAF-Juventus é controlada apenas pela Contea Capital.
Embora o acesso à primeira divisão depois de quase duas décadas tenha sido muito comemorado na rua Javari, a gestão privada da SAF e a reforma do estádio dividiram os torcedores do Juventus nos últimos meses.
Uma parcela diz acreditar que o clube poderia fechar as portas se não houvesse ingestão de dinheiro e mudanças de gestão. “Do jeito que estava, o Juventus ficaria eternamente correndo atrás do próprio rabo”, diz Luís Roberto Ribeiro Dias, 62, dono de uma loja de camisas e produtos do clube.
Para ele, a reforma “vai atender melhor” ao público atual do Juventus. “O estádio fica sempre lotado, muita gente de fora da Mooca vem aos jogos. Era bem nítido que precisava melhorar a estrutura, os degraus das arquibancadas eram bem antigos e deteriorados”, diz Dias.
Outra parcela da torcida, no entanto, defende que a nova gestão e a transformação da rua Javari em uma “arena” descaracterizam a identidade de “futebol raiz” do Juventus, um clube criado por operários e ligado ao bairro.
Quando os conselheiros do clube aprovaram a SAF, a torcida organizada Setor 2 anunciou o encerramento das atividades em protesto. Integrantes disseram que não iriam mais aos jogos. Criada nos anos 2000, a torcida tinha como lema o “ódio eterno ao futebol moderno.”
O comerciante Marcos Prieto, 52, foi contra a chegada da SAF e a reforma do estádio, embora tenha ido a todos os jogos da campanha de acesso à série A1 e mostre orgulhoso uma foto com o troféu.
“Tenho sempre o pé atrás. Meu maior medo é ‘arenizar’, turistar. Hoje, muitos turistas vêm aos jogos pra postar fotos nas redes sociais comendo cannoli. O Juventus virou um clube meio cult, ele gentrificou”, diz Prieto, que tem uma tatuagem com o escudo do clube no braço.
Para o torcedor, a popularização do Juventus com jogos em um estádio maior pode ajudar a melhorar o desempenho no campo, mas também pode significar a perda da identidade como um clube da Mooca.
“Hoje, o único clube de São Paulo ainda realmente ligado a um bairro é o Juventus. Alguns torcedores desistiram, mas eu continuo aqui porque o Juventus é a minha vida”, diz.
Autor: Folha








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