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Letra cursiva ativa redes neurais únicas e é insubstituível na alfabetização

Nossa rotina está cada vez mais cercada de aparelhos que nos levam a digitar. Isso vale tanto para os adultos quanto para as crianças, que parecem já nascer familiarizadas com a tecnologia. Aos poucos, a escrita à mão perde espaço, já que a comunicação digital é mais rápida e prática. Entretanto, especialmente na fase de alfabetização, a escrita manual é fundamental para ativar importantes redes neurais e estimular o desenvolvimento cognitivo das crianças.

Nesse contexto, um tipo específico de escrita tem papel especialmente relevante: a letra cursiva. Mais do que um simples desenho de palavras, ela exige a integração coordenada de diferentes sistemas cognitivos e motores. A neuropsicopedagoga Marjorie Collere explica que a escrita cursiva favorece a integração visomotora da criança, estimulando sua capacidade de coordenar aquilo que vê com os movimentos das mãos e dos dedos. Isso ocorre porque esse tipo de escrita exige a conexão contínua entre as letras que formam cada palavra.

“Quando escrevemos na letra cursiva isso exige um maior planejamento motor e automatização dos traçados. Dessa maneira o cérebro participa mais ativamente da aprendizagem aprimorando a atenção, a memória, a linguagem e o processamento da informação. Isso contribui especialmente na memória de longo prazo”, diz a especialista, ao explicar que o mesmo não acontece com o uso da chamada escrita bastão, que é mais fragmentada, embora tenha também seu papel no desenvolvimento cognitivo.

Um estudo publicado em 2024 na revista Frontiers in Psychology, conduzido pelos psicólogos e pesquisadores Audrey van der Meer e Ruud van der Weel, reforça esse entendimento. Os pesquisadores analisaram a atividade cerebral de estudantes universitários durante tarefas de digitação e de escrita manual em letra cursiva. Ao comparar as duas atividades, observaram que a escrita à mão, diferentemente da digitação, aumentava a conectividade entre regiões cerebrais ligadas às funções motoras e sensoriais, além de estimular de forma mais intensa áreas relacionadas à memória.

E, se para os adultos a escrita manual já exerce um impacto importante, na infância seus efeitos são ainda mais significativos. Segundo Marjorie, é nesse período, marcado por maior plasticidade neural, que o cérebro apresenta mais facilidade para desenvolver novas aprendizagens e formar conexões neurais.

“O treino da letra cursiva é bem completo para o cérebro infantil, porque a criança vai precisar ativar várias áreas cerebrais, desde a coordenação motora até a organização espacial. São novas conexões neurais sendo fortalecidas”, diz.

Existe uma idade certa para aprender a letra cursiva?

Tanto a neuropsicopedagoga Marjorie Collere quanto a professora do programa de pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Silvia Colello, afirmam que não existe uma idade exata para aprender a letra cursiva. O mais importante, segundo elas, é que o educador observe o estágio de desenvolvimento e aprendizagem da criança. Marjorie destaca, inclusive, que em determinados momentos é necessário priorizar o fortalecimento de outras habilidades. “Assim, ao conhecer esse modo de escrita, a criança o fará com mais qualidade, sem produzir por produzir, mas se apropriando dessa forma de linguagem.”

Silvia Colello explica que a alfabetização costuma começar com a letra bastão, para que a criança desenvolva familiaridade e agilidade no reconhecimento das letras e compreenda a formação das palavras. No entanto, uma vez assimilado o sistema alfabético e consolidada a base da escrita, ela já pode iniciar o aprendizado da letra cursiva. Nesse processo, a escola desempenha um papel fundamental.

“Muitas vezes a própria criança manifesta o desejo de aprender a letra cursiva, que algumas chamam de ‘letra de gente grande’. Mas a escola também tem que cumprir o seu papel de despertar desejos, e se a criança não está tão motivada, a escola tem que fazer o seu papel de provocando, desafiando, convocando essa criança para se envolver nas atividades de aprendizagem da letra cursiva.”

Letramento digital e escrita manual

Tanto do ponto de vista neurológico quanto educacional, as especialistas concordam que, no contexto atual, não faz sentido excluir a comunicação escrita manual ou a digitada. Ambas são importantes para a inserção das crianças na sociedade contemporânea. Além disso, para muitas delas, a escrita cursiva representa também um marco emocional de autonomia e amadurecimento.

Segundo Silvia Colello, vivemos em uma cultura essencialmente escrita. Aprender a ler e escrever, portanto, é parte fundamental da capacidade de viver, participar, agir, produzir e interagir em uma sociedade letrada. “E, se é verdade que essa sociedade está cada vez mais digital, também é verdade que a letra cursiva continua presente no nosso cotidiano e nas nossas práticas diárias”, afirma a professora. Para ela, embora a tecnologia ofereça inúmeras facilidades, a criança possui um cérebro naturalmente preparado para aprender.

“Então, não é o caso de a gente ficar pensando como aliviar a criança de aprender menos coisas. A criança pode aprender tudo. Se ela pode aprender a letra bastão ou a letra de imprensa, inclusive para lidar com toda essa parafernália digital que a gente tem no mundo, ela pode aprender também a letra cursiva que faz parte do nosso mundo”, ao reforçar que é preciso formar crianças como leitoras e escritoras.

“Se a gente pode ensinar o mais, por que vamos nos conformar com o menos? A educação não se trata de economia, mas de formar leitores e escritores com tudo o que têm direito. Posso levar a turma ao laboratório de informática hoje e, amanhã, escrever uma carta para o ‘Papai Noel’ em letra cursiva”, defende a professora. 

De acordo com a neuropsicopedagoga Marjorie, é importante para o desenvolvimento cognitivo da criança que exista esse equilíbrio entre o uso da tecnologia e a escrita manual. Isso porque, embora os recursos digitais sejam cada vez mais presentes e necessários, a escrita à mão continua desempenhando um papel fundamental. “São habilidades distintas, mas igualmente imprescindíveis nos dias de hoje. A escrita cursiva é valiosa para a maturação neurológica do indivíduo”, afirma.

Um rito de passagem

Conquistar a linguagem escrita — especialmente a manuscrita — funciona como um verdadeiro rito de passagem para as crianças e também para adultos em processo de alfabetização tardia. Segundo Silvia Colello, os pequenos têm uma motivação natural para compreender o mundo ao seu redor. E, apesar do avanço da tecnologia, a letra cursiva continua presente nas práticas cotidianas dos adultos com quem convivem.

“Para os adultos, dominar a escrita cursiva pode ser ainda mais significativo. No caso daqueles que foram alfabetizados tardiamente, a letra bastão muitas vezes representa uma marca de limitação. Já a letra cursiva funciona como um rito de passagem, mostrando que eles também podem escrever como os demais adultos da sua época”, afirma.

Observando as crianças com as quais já trabalhou, Marjorie destaca o papel que a escrita manual e cursiva, especificamente, tem no desenvolvimento social da criança. 

“Eles se sentem mais competentes e autônomos. Percebemos que começam a se identificar como pertencentes a um novo grupo”, afirma a especialista. Ela ressalta, porém, a importância de observar os objetivos e a funcionalidade desse aprendizado para cada criança. Atualmente, trabalhando diretamente com crianças autistas, a especialista destaca a necessidade de alinhar expectativas para que esse rito de passagem aconteça com qualidade e seja, de fato, benéfico ao desenvolvimento do aluno.

Autor: Gazeta do Povo

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