
Em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional, nesta segunda-feira (21), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a chamar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de “imperador” e criticou as tarifas impostas por Washington contra produtos brasileiros. Lula também fez críticas à operação dos EUA na Venezuela, que capturou Nicolás Maduro em janeiro deste ano.
Na conversa, Amanpour relembrou a última entrevista concedida por Lula a ela, em julho de 2025, quando o brasileiro afirmou que Trump havia sido eleito para governar os Estados Unidos, e não para ser o “imperador do mundo”. Questionado se ainda mantinha essa avaliação sobre o presidente americano, Lula respondeu que sim.
“Ele age como imperador. É uma forma de governar com a qual eu não concordo”, afirmou Lula.
Segundo o presidente brasileiro, Trump governa a partir de uma lógica na qual o país que possui mais poder econômico, riqueza e força pode impor suas decisões aos demais.
“É a lei do mais forte. Eu não concordo com isso”, disse.
A expressão já havia sido repetida por Lula desde a entrevista de 2025. A ocasião mais recente ocorreu em junho deste ano, durante a cúpula do G7, na França, quando ele afirmou que Trump “continua agindo como imperador” e que o americano “fala muito e ouve pouco”.
Lula diz que tarifas dos EUA contra o Brasil foram baseadas em “mentiras”
Durante a entrevista, Lula também voltou a criticar as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e afirmou que as medidas foram justificadas com informações falsas.
“Acho que aquelas tarifas, aquelas sobretaxas, foram baseadas em mentiras”, declarou.
Em julho deste ano, os Estados Unidos aplicaram uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros com base em uma investigação da Seção 301 da Lei de Comércio americana, que apontou práticas consideradas prejudiciais aos interesses dos EUA em áreas como comércio digital, meios de pagamento, propriedade intelectual, etanol e aplicação de leis anticorrupção. Dias depois, entrou em vigor uma sobretaxa adicional de 12,5%, decorrente de uma investigação americana sobre produtos associados a trabalho forçado. Com as novas medidas, a tarifa média sobre produtos brasileiros subiu para 17,7%, e algumas exportações passaram a enfrentar cobranças acumuladas de até 37,5%.
Lula mencionou a balança comercial entre os dois países e afirmou que o Brasil registra déficit no comércio com os Estados Unidos. Tal argumento tem sido usado pelo governo Lula para contestar as justificativas usadas por Washington para elevar as tarifas sobre produtos brasileiros.
O presidente disse ainda que o Brasil decidiu procurar outros mercados em vez de concentrar sua reação às tarifas americanas. Lula disse que, com as tarifas, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 9%, enquanto as importações de produtos americanos pelo Brasil recuaram 8,5%. Em contrapartida, afirmou que as relações comerciais brasileiras cresceram, em média, 10,5% com outros 57 países.
Lula citou aumentos de 20% no comércio com a China, 18% com o Japão, 16% com a Alemanha, 8% com a Indonésia e 14% com o Vietnã. Segundo ele, o comércio com a União Europeia (UE) também cresceu 23%.
“Não vou ficar chorando pelo leite derramado. Vou procurar outros parceiros para tentar comprar e vender”, afirmou.
Lula ameaça aplicar reciprocidade contra os EUA
Lula afirmou na entrevista que pretende aguardar as negociações entre Brasília e Washington antes de aplicar a Lei da Reciprocidade contra produtos americanos. O petista lembrou que conversou por telefone com Trump há cerca de um mês e meio e afirmou que o contato permitiu a retomada das negociações comerciais. Em agosto, os dois presidentes conversaram sobre o tarifaço e concordaram com a realização de novas tratativas entre representantes dos dois governos.
“Enquanto estivermos na mesa de negociação, não tenho que aplicar a lei da reciprocidade. Tenho que ter mais paciência”, disse Lula.
Contudo, Lula avisou que o governo brasileiro poderá adotar a medida caso as conversas não produzam um acordo. “É importante que você saiba que, se não houver acordo, vamos ter que aplicar a lei da reciprocidade”, afirmou.
Lula diz que ações dos EUA na Venezuela “não são boas para a democracia”
Na conversa, Lula também voltou a fazer críticas à operação militar conduzida pelos Estados Unidos em 3 de janeiro, que resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em Caracas e na transferência dos dois para os Estados Unidos, onde estão presos e aguardando julgamento.
Em janeiro, Lula classificou os bombardeios em território venezuelano e a captura de Maduro como uma “afronta gravíssima à soberania da Venezuela” e afirmou que a ação estabelecia um precedente perigoso nas relações internacionais.
À CNN, o petista afirmou que Washington transmite a impressão de ter assumido o comando do país. “É muito grave o que os EUA fizeram com a Venezuela”, disse Lula. Segundo o presidente, os acordos firmados após a queda de Maduro dão a impressão de que os Estados Unidos passaram a ocupar uma posição de comando sobre Caracas. Lula afirmou que, em sua avaliação, a soberania venezuelana “acabou” e disse que a forma como Washington atua no país não é positiva para a democracia.
“Em cada documento que lemos, nos acordos, parece que os EUA são o grande chefe da Venezuela. A soberania do país acabou. Isso não é bom”, disse.
Lula também criticou a relação do governo Trump com o líder chavista Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente o Executivo venezuelano após a captura de Maduro. O brasileiro disse que, se estivesse no lugar de Delcy, convocaria eleições nacionais para que os venezuelanos escolhessem o próximo presidente.
Lula já havia afirmado, semanas depois da captura de Maduro, que caberia aos venezuelanos decidir o futuro do país e que Trump deveria permitir que a Venezuela exercesse sua soberania e cuidasse de seus “interesses democráticos”.
Lula diz que Trump favorece o unilateralismo
Amanpour também questionou Lula sobre a iniciativa Partners for Multilateralism (P4M), lançada neste fim de semana pelo presidente brasileiro em conjunto com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, o presidente do Quênia, William Ruto, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. Os quatro apresentaram a proposta em um artigo conjunto publicado no Financial Times às vésperas da Assembleia-Geral da ONU.
A P4M foi concebida como uma plataforma aberta para aproximar países de diferentes regiões e correntes políticas e formar coalizões em defesa do multilateralismo. Segundo seus idealizadores, a iniciativa não pretende criar um novo bloco internacional, mas pressionar pela reforma da ONU e de outras instituições multilaterais, além de ampliar a cooperação em áreas como segurança, economia, inteligência artificial, mudanças climáticas e saúde.
Na resposta, Lula afirmou que o mundo enfrenta uma “guerra econômica” que considera desnecessária e acusou Trump de demonstrar preferência por relações unilaterais entre os países.
“Estamos enfrentando agora uma guerra econômica que é desnecessária para o mundo”, afirmou.
Para Lula, o multilateralismo ajudou a manter algum equilíbrio nas relações comerciais internacionais. O presidente argumentou que negociações baseadas apenas na força de cada país tendem a beneficiar aqueles com maior poder econômico, militar e tecnológico.
Segundo ele, o comércio internacional precisa funcionar como uma “via de mão dupla”, com equilíbrio entre compras e vendas e regras que impeçam que uma única potência imponha suas condições às demais.
“Há sempre a possibilidade de privilegiar aquele que é mais forte, aquele que é mais forte na economia, que tem mais armas, que tem mais tecnologia”, disse.
A entrevista foi concedida em Nova York, onde Lula participa da Assembleia Geral das Nações Unidas. A agenda oficial do petista nesta segunda-feira incluiu reuniões com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, e com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. O petista será o primeiro chefe de Estado a discursar nesta terça-feira (22) na Assembleia, seguindo a tradição da entidade, e Donald Trump falará na sequência.
Autor: Gazeta do Povo








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