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Médico desenha em receitas para quem não pode ler em PE – 19/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

“Meu patrão está sentindo o quê?” É assim que o médico da família e comunidade Lucas Cardim, 39, aborda quem entra em seu consultório. A expressão transparece uma característica do seu atendimento, a aproximação com os pacientes. Foi essa busca por adaptar o linguajar de “doutor” que o fez criar uma plataforma digital que possibilita receituários ilustrados com as indicações de tratamento.

Em seus atendimentos no sertão de Pernambuco, Cardim se deparou com um problema de acesso à saúde que não está na falta de consultas ou medicamentos. Muitos pacientes que buscam o posto de saúde na zona rural de Petrolina, a 712 km do Recife, têm dificuldade para ler o receituário.

A primeira estratégia que adotou foi desenhar à mão nas receitas. Além do nome dos medicamentos, rabiscava símbolos para sinalizar os turnos que cada um deveria ser tomado: a xícara de café para os da manhã e uma lua com estrelas para os da noite. A quantidade era indicada com bolinhas, assim o paciente contava como quem cata feijões.

“Muitos profissionais desenham para os seus pacientes, isso não é uma coisa nova. Mas outros não. Seja por excesso de demanda, seja por carências de formação, eles não têm esse hábito”, diz Cardim.



Muitos profissionais desenham para os seus pacientes, isso não é uma coisa nova. Mas outros não. Seja por excesso de demanda, seja por carências de formação, eles não têm esse hábito

Filho de mãe sertaneja e neto de um não letrado, o recifense diz que as memórias no interior o fizeram ter muito afeto pela região. Medicina foi sua segunda formação; a primeira foi jornalismo, ambas em universidades públicas.

Como desenhar tomava muito tempo das consultas e até deixava alguns pacientes envergonhados, o médico buscou otimizar o processo.

Fez contato com Davi Rios, amigo de infância, que é engenheiro de software no Google. Juntos desenvolveram a plataforma Cuidado Para Todos, (cuidadoparatodos.com.br), em que é possível gerar receituários ilustrados em minutos.

Por meio do site, os profissionais acessam gratuitamente o sistema, que permite montar receituários com desenhos, fotografias e outros elementos. Também é possível colocar QR-codes que direcionam para vídeos com o passo a passo de aplicações, como seringas.

O sistema, que começou com três ícones, já contempla mais de 200 medicamentos. Segundo o idealizador, a aceitação tem sido boa principalmente por quem faz tratamento de doenças crônicas.

Para quem tem asma, há detalhes sobre o uso da bombinha de ar. Aos diabéticos, explica-se desde o armazenamento da insulina à aplicação no lugar correto.

“Eu me surpreendi porque logo no primeiro dia que eu cheguei aqui ele preparou uma pasta com todos os exames, receitas e tudo relacionado aos problemas”, diz o paciente Severino Leal de Brito Neto, 52. Como é diabético, assiste aos vídeos para tomar a insulina com a caneta.

Cardim faz adaptações para cada um que chega. Enquanto a Folha acompanhava sua rotina, atendeu um idoso que iria iniciar o tratamento para parar de fumar. Para ele, explicou como fazer o rodízio dos adesivos no corpo a partir de um paralelo com a plantação da roça, que é dividida por piquetes.

Já José Manoel de Barros, 64, queixou-se de dor de barriga e vômitos. Morador de Salgueiro, a 237 km dali, recebeu indicações para o tratamento da água que consome.

Com a receita em mãos, o aposentado disse que foi sua primeira vez atendido assim. “O cabra não sabe ler, sabe mal assinar o nome. Foi importante demais para mim isso aqui, eu estou sabendo como tomar o medicamento”.

No receituário que Barros recebeu, e que a Folha pode verificar, não mostrava apenas o nome do medicamento e a dose, mas também uma orientação por escrito de tomar água filtrada. E mais: ao lado, um desenho de um copo direto da torneira com um grande X vermelho em cima, indicando ser um erro, seguido dos desenhos de uma água fervendo na panela e outro do líquido passando por um filtro.

No Brasil, 29% da população de 15 a 64 anos têm dificuldade para entender textos simples, segundo o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional), estudo coordenado pela Ação Educativa e que teve início em 2001. Por isso, o desejo dos criadores da Cuidado Para Todos é que ela seja implantada no SUS (Sistema Único de Saúde) pelo país.

“A gente quer doar a tecnologia para o Ministério da Saúde para que ele pegue os códigos e consiga fazer adaptações dentro do PEC [Prontuário Eletrônico do Cidadão]”, diz Cardim.

A plataforma já está presente na saúde pública de dez municípios e três distritos indígenas. Além de Pernambuco, são os estados de Alagoas, Bahia, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo. Mas, o formulário padrão é aberto para qualquer lugar do país, sem vínculo institucional.

Segundo o médico, é possível afirmar que em Bebedouro, comunidade onde atende, mais da metade dos pacientes que antes era descompensada com a glicemia conseguiu estabilizar a situação.

O que impressiona, conta, é que usam os mesmos medicamentos que já tinham acesso anteriormente, mas agora com mais informação.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

Autor: Folha

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