Ainda bem que não morri. Por sorte, ou porque não era para ser, consegui chegar até aqui para contar minha trajetória. Ainda que não tenha muitas glórias e conquistas, nem mesmo algum feito para a humanidade, tem muita coisa legal.
Saí um pouco com esse sentimento da exposição da Janis Joplin, que está em cartaz no MIS. É um programa divertido, com muita música boa, e a história dela, mesmo que breve, é espetacular. As salas são coloridas, mostram símbolos e frases, os selos psicodélicos dos discos que exaltavam seu enorme talento.
Em uma delas, “Festival”, é possível deitar sobre almofadas e ficar vendo Jimi Hendrix e outros grandes nomes da época arrebentarem no palco. Vale muito a pena. Tanto que mandei mensagem para a Paula levar seus filhos e escrevi para meu irmão levar minha sobrinha. Tenho certeza de que vão gostar.
Mas a última sala é uma porrada. É o fim da exposição e da vida dela. O corpo foi encontrado segurando um maço de cigarro, depois que a cantora não compareceu a uma gravação importante que ela vinha fazendo. Me deu uma aflição e uma tristeza profunda ao sair. Ela viveu 27 anos apenas, e mesmo assim deixou uma vasta obra. “Hoje ela teria 86 anos”, comentou Roberto, que estava comigo.
Overdose. O lado vibrante da exposição e a vivência de tanta coisa maravilhosa, como o festival de Woodstock, são uma explosão de vida. Tenho meu lado hippie e fiquei fascinada com as roupas, o jeito de viver. Ela foi um meteoro.
Toda vez que alguém morre jovem, escuto essa frase de que a pessoa passou na Terra como uma estrela cadente. É romântico. Imagina ser a beleza de uma estrela cadente? É poético. E é também triste.
Fico imaginando o sofrimento que o abuso das drogas e do álcool causou nela. Se, por um lado, as substâncias provocaram tanta euforia e a fizeram ver muita beleza, por outro, tem a dependência, a compulsão e, em muitos casos, como o dela, a morte.
Nunca usei cocaína, anfetamina, craque, enfim, drogas consideradas mais pesadas. Mas abusei do álcool, tive que fazer lavagem estomacal mais de uma vez. Isso quer dizer que quase morri devido ao excesso. Ainda bem que consegui atravessar todos esses obstáculos. Batida de carro, solidão, tentativas de partir para sempre.
Não foi fácil. Hoje de manhã, caminhando, ouvindo o cantar dos passarinhos (que tanto me irritavam na ativa), fui processando tudo que vi na exposição e tudo que senti. Com 27 anos, eu também quase morri quando enfiei meu carro em uma caçamba. Estourei minha cara, e ainda bem que não fiquei com quase nenhuma cicatriz. Com essa idade foram embora não só Janis Joplin, mas Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain, Amy Winehouse. Todos mortos por abuso de substâncias.
A aflição de ver a mostra e sentir que eu poderia ter sido uma vítima me deixou mexida demais. Será que, se pudesse voltar atrás, eu não faria tanto uso do álcool? Tenho minhas dúvidas.
Estou limpa há exatos oito anos e sete meses. Quando cheguei em casa, percebi que minha planta tinha dado flor. E é um pouco isso, sou flor em grande parte do tempo, murcho algumas vezes e, de certa forma, coisas dentro de mim morrem. Mas vale a pena esperar a primavera. Para ver todas as cores lindas que pude ver não só na exposição, mas também em tantos lugares da natureza.
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Autor: Folha








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