
Vinte anos depois de transformar um emprego em uma revista de moda em um dos filmes mais queridos dos anos 2000, O Diabo Veste Prada voltou aos holofotes. Depois de uma passagem extremamente bem-sucedida pelos cinemas, O Diabo Veste Prada 2, disponível no Disney+ a partir desta quarta-feira (29), traz de volta Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci aos papéis que marcaram suas carreiras.
O interesse pela continuação não nasceu apenas da nostalgia. O primeiro filme se consolidou como um fenômeno cultural ao combinar humor, drama e uma crítica ao ambiente de trabalho competitivo da indústria da moda. Para uma geração de espectadores, a trajetória de Andy Sachs — a jovem jornalista que entra, quase por acaso, na poderosa revista Runway — virou um retrato das inseguranças do início da vida profissional. Ao mesmo tempo, Miranda Priestly, interpretada por Meryl Streep, tornou-se uma das personagens mais icônicas do cinema contemporâneo, inspirada na editora da Vogue Anna Wintour.
Esse legado explica por que a expectativa em torno da sequência era tão alta. Além de reunir novamente o elenco principal, o novo longa trouxe de volta o diretor David Frankel e a roteirista Aline Brosh McKenna, responsáveis pelo original. A proposta, porém, não era simplesmente repetir a fórmula de 2006, mas mostrar como o universo da moda e da imprensa mudou em duas décadas.
Na nova história, Andy retorna à Runway em um momento em que a revista enfrenta uma crise provocada pelas transformações da indústria editorial. A publicação precisa lidar com cortes de orçamento, pressão por audiência digital, mudanças de comportamento do público e questionamentos sobre seu papel em um mercado dominado por plataformas digitais, influenciadores e novas formas de consumo de informação.
A aposta funcionou também comercialmente. Produzido com um orçamento estimado em US$ 100 milhões, O Diabo Veste Prada 2 arrecadou cerca de US$ 690 milhões nas bilheterias mundiais, quase sete vezes o valor investido na produção. O desempenho supera com folga o do longa original, lançado em 2006, que faturou aproximadamente US$ 326 milhões no mundo a partir de um orçamento de cerca de US$ 35 milhões. Somados, os dois filmes ultrapassam a marca de US$ 1 bilhão em arrecadação global, um resultado expressivo para uma franquia composta por apenas dois filmes.
O sucesso demonstra que revisitar clássicos nem sempre significa apenas explorar a nostalgia. Diversas continuações de franquias famosas fracassaram nos últimos anos ao tentar repetir o passado. No caso de O Diabo Veste Prada 2, a combinação entre personagens conhecidos e uma história conectada às transformações atuais do mercado ajudou a manter o interesse do público.
A recepção da crítica, porém, foi mais dividida do que a resposta das bilheterias.
A revista Variety considera que a sequência foi produzida com inteligência e respeito pelo filme original, mas avalia que ela é inferior em praticamente todos os aspectos narrativos e emocionais. Para a publicação, o filme reproduz muitos dos momentos clássicos da primeira obra, porém sem alcançar o mesmo impacto, funcionando quase como uma homenagem ao original. Ainda assim, a revista destaca que Meryl Streep continua sendo o grande destaque do elenco e elogia a forma como a trama incorpora discussões atuais sobre a crise da mídia tradicional.
O The Guardian adotou um tom bem mais favorável. O jornal inglês elogia o reencontro do elenco, o humor, as referências ao primeiro filme e a maneira como a sequência atualiza situações conhecidas para um novo contexto. Para a crítica, trata-se de um entretenimento leve, divertido e eficiente, capaz de agradar principalmente quem guarda carinho pelo longa de 2006.
Já o site espanhol Aceprensa diz que principal mérito da película é o elemento que diferencia a continuação de uma simples operação nostálgica. Segundo a publicação, o grande acerto do roteiro é incorporar as profundas mudanças vividas pelo jornalismo nas últimas duas décadas. O filme utiliza como pano de fundo temas como o avanço da inteligência artificial, a cultura do clickbait, a precarização da profissão, o crescimento dos influenciadores digitais e a crise enfrentada pelas publicações tradicionais.
Na avaliação do Aceprensa, essa atualização dá novo significado à história de Andy Sachs. Em vez de apenas revisitar personagens conhecidos e repetir cenas famosas, a sequência procura discutir como o trabalho de jornalistas e editores foi transformado em um ambiente muito diferente daquele retratado em 2006. Para o site, essa camada torna o filme mais interessante do que uma simples celebração de aniversário da franquia.
No fim, O Diabo Veste Prada 2 talvez não alcance o mesmo impacto cultural do original, algo que até parte da crítica considera praticamente impossível de reproduzir. Mas os números mostram que o público continua disposto a acompanhar Miranda Priestly e companhia.
Autor: Gazeta do Povo








.gif)












