
No começo de julho, a morte do ator Hikaru Kurosaki, que interpretou o super-herói Jaspion na televisão, reacendeu em muitos brasileiros de meia-idade um sentimento de nostalgia.
Hoje, o auge da influência japonesa nas telas brasileiras ficou para trás. A nova febre asiática são os doramas, as séries sul-coreanas de curta duração.
Mas a influência do Japão permanece.
Presença asiática é antiga
As produções de cinema e televisão asiáticas já estavam presentes no Brasil desde os anos 50, principalmente nas regiões Sul e Sudeste do país, graças à migração.
Essa presença ajudou a criar um público receptivo às produções japonesas. O importante é lembrar que nos anos 50 e 60, o cinema japonês era muito visto, não apenas pela colônia, em cidades como São Paulo e Curitiba.
Foram filmes como o épico O Portal do Inferno (1953), que ganhou o Oscar de Melhor Figurino, de Teinosuke Kinugasa; o clássico Contos da Lua Vaga (1953), dirigido por Kenji Mizoguchi; e com certeza, os monstros sagrados do cinema japonês, Akira Kurozawa, diretor de Rashomon (1950), ganhador do Oscar Especial e do clássico Os Sete Samurais (1954), e Godzilla (1954). Eles despertaram a curiosidade do público brasileiro pela produção cinematográfica do Japão.
A primeira invasão japonesa na TV
A década de 1960 foi crucial para a invasão japonesa na cultura brasileira, quando começaram a chegar, na segunda década de vida da televisão, as primeiras produções do Sol Nascente. Desenhos animados como Samurai Kid, O Oitavo Homem, O Ás do Espaço, Príncipe Planeta, O Super-Homem do Espaço, começaram a chegar nas principais emissoras brasileiras, mostrando que não era só a Hanna-Barbera que dominava a programação infantojuvenil.
Outros marcos da animação japonesa (anime) conquistaram fãs na década seguinte, como Speed Racer, Fantomas, Kimba – O Leão Branco, de Osamu Tezuka, que aumentou a audiência da TV Cultura de São Paulo, nas tardes de domingo, e o curioso conto de fadas de A Princesa e o Cavaleiro, na TV Record. Curiosidade: vários roteiros desse desenho não chegaram ao Brasil e por isso, o diretor de dublagem da série, Gilberto Baroli, acabou escrevendo a versões improvisadas desses episódios, sem saber japonês, mas usando o bom senso.
O que agitou a onda foi a chegada das primeiras séries de super-heróis japoneses, quando Nacional Kid entrou em cena contra os Incas Venuzianos na TV Record em 1964. O personagem, que surgiu no Japão para vender os primeiros rádios portáteis da National (marca que só entrou no Brasil no final dos anos 70), chegou causando um grande impacto na telinha. Afinal, quem poderia imaginar que o superpoderoso herói japonês, que se disfarçava de pacato professor Massao Hata, salvaria o planeta contra os Incas, adoradores do deus venusiano Auíca, dos seres Abissais, dos Subterrâneos e dos Zarrocos?
Com a janela aberta, chegaram Os Agentes Fantasmas (1968), O Príncipe Dinossauro (1967), Robô Gigante (1967), Vingadores do Espaço (1969), Ultra Q (1965), uma antologia de ficção científica inspirada em Além da Imaginação (1958). Em 1970, a TV Bandeirantes abria sua programação para o policial vindo da Nebulosa M78, Ultraman (1966).
Ultraman tinha 40 metros de altura e trocava de identidade com Hayata, membro da patrulha científica, organização mundial de combate a monstros gigantes. A série foi criada por Eiji Tsuburaya, o responsável por dar forma ao clássico monstro Godzilla. Sua ideia era ter uma série com monstros gigantes e um herói poderoso para enfrentá-los. Depois de Ultraman, vieram UltraSeven (1967) e Ultraman Jack, personagem da série O Regresso de Utraman (1971). Só para constar, a família Ultraman tem 43 membros efetivos em 36 séries produzidas pela Tsuburaya Productions até hoje.
No Japão, a imprensa definia essas produções como tokusatsu, algo como filme de efeitos especiais e práticos, no lançamento de Godzilla. É a utilização de efeitos óticos com cenários em escala, onde uma pessoa vestida de monstro andava e destruía tudo por onde passava. Na melhor adaptação brasileira, filme de monstro gigante. Daí para levar isso para a televisão, foi um gigantesco passo para o tokusatsu.
O último representante de herói japonês lutando contra monstros gigantes nesta fase foi Spectreman (1971), criado pela P Production, conhecida no Japão como uma companhia de poucos recursos. Quando vemos o herói da Nebulosa 71 encarando o Dr. Gori, um cientista louco com cara de macaco do planeta Épsilon, a limitação orçamentária da produção fica evidente em vários momentos da série. Spectreman, que fez sucesso no Brasil quando chegou em 1980 na Record e depois no SBT, foi feita a toque de caixa pela produtora quando souberam da nova série que traria Ultraman de volta à televisão.
Todas essas produções ganharam um novo começo quando o Fantástico Jaspion chegou no Brasil
A Invasão Tokusatsu
Foi na década de 1980 que aconteceu uma verdadeira avalanche de robôs gigantes, guerreiros espaciais, monstros colossais e super-heróis metálicos ganhando espaço na programação das emissoras brasileiras. Entre essas duas ondas nasceu uma geração que aprendeu que um herói também podia usar armadura cromada, pilotar uma nave espacial e enfrentar monstros vindos de outra galáxia. Mais do que uma moda passageira, foi um fenômeno cultural.
E tudo começou com O Fantástico Jaspion… nas videolocadoras.
Produzida pela Toei Company entre 1985 e 1986, a série foi concebida para celebrar os dez anos da franquia Metal Hero. No Japão, obteve boa repercussão, mas foi em países como Brasil, França e Filipinas que se transformou em um verdadeiro fenômeno cultural. A dublagem da série e de outras do gênero coube à Álamo. O Fantástico Jaspion começou sua trajetória no Brasil pela Everest Video, que lançou a série em VHS para videolocadoras.
O herói interpretado por Hikaru Kurosaki combinava coragem, ingenuidade e senso de justiça, características que dialogavam diretamente com o público infantil. Ao longo dos 46 episódios da série, ao contrário dos super-heróis ocidentais, Jaspion era apresentado como um aventureiro em constante aprendizado. Era possível notar a evolução do personagem, em que a ingenuidade inicial foi dando lugar a uma maturidade adulta digna de um super-herói.
Jaspion fez tanto sucesso que a Everest também negociou com a Manchete outras produções como Esquadrão Relâmpago Changeman (1985) e Comando Estelar Flashman (1986). O fenômeno cultural gerado por essas séries aconteceu quando foram exibidas pela Manchete dentro do Clube da Criança, apresentado por Angélica. Quem quiser conhecer O Fantástico Jaspion pode recorrer ao Prime Video.
Vieram então adaptações em quadrinhos, álbuns de figurinhas, brinquedos, bonecos e uniformes, entre as primeiras ideias para aproveitar o sucesso que os heróis tokusatsu estavam fazendo. Esse sucesso, contudo, também foi a porta para uma verdadeira avalanche de séries japonesas de heróis espaciais chegasse ao Brasil. Se num primeiro momento eles estavam em vídeo doméstico, num segundo ganharam espaço nas TVs brasileiras — incluindo a Globo, que em 1991 colocou no Xou da Xuxa as séries Irmão Bicrossers (1985) e Gigantes Guerreiros Gogge V (1982).
Cybercops – Os Policiais do Futuro (1988), foi uma das últimas séries tokusatsu dos anos 80 que chegaram à TV brasileira pela Sato Company, a mesma que trouxe o longa-metragem Akira para o cinema brasileiro (1988). Cybercops foi oferecida para Globo que tinha a ideia de fazer uma versão brasileira da produção, com atores brasileiros fazendo as identidades normais dos policiais, e usando cenas da série japonesa para completar o episódio. Mas a ideia foi descartada e a série acabou sendo um sucesso na Rede Manchete. Talvez seja pelo sucesso da concorrência com uma série recusada, que a Globo tenha decidido adquirir Bicrosses e GoggleV para sua programação.
O efeito Power Rangers
O que ninguém poderia imaginar é que uma produção mascarada de série original ocidental, seria decisiva para desestimular a aquisição de novas produções japonesas do gênero heróis espaciais e monstros gigantes. A última, por sinal, foi Ultraman Tiga (1996), exibida pela Record em 1997, mas que não deu a audiência que a emissora esperava, não renovando o acordo para novas séries da franquia da Família Ultra.
Foi no começo dos anos 90 que Haim Saban, dono da Saban Entertainment, teve a ideia de adaptar a série do gênero Super Sentai (guerreiros que lutam juntos pilotando um robô gigante). A ideia era editar cenas da série original Kyoryu Sentai Zyuranger (1992), tirando os atores japoneses e substituindo-os por atores ocidentais. Ele passou a série para a programação do canal pago Fox Kids, que mudou de nome para o canal Jetix, até ser comprada pela Disney, e se transformar no Disney XD. A franquia Power Rangers tem 23 séries diferentes, com 30 temporadas.
O resultado foi um dos maiores fenômenos de audiência ao redor do mundo, especialmente nos Estados Unidos, onde essa ocidentalização ajudou a tornar um gênero tipicamente da TV japonesa em cultura pop. O sucesso foi tão grande que seus personagens foram citados no episódio Aquele do Caso Esquisito, da primeira temporada de Friends. Numa das citações, Joey (Matt LeBlanc) pergunta para Mônica (Courtney Cox) sobre o jovem namorado da amiga: “Por que você não pergunta para ele qual é o Power Ranger mais forte?”
Um legado que continua vivo
Não se sabe o futuro em relação às séries tokusatsu voltando ao Brasil. Algumas delas, como Kamen Rider, têm ganhado espaço no Prime Video. Ao mesmo tempo, a Tsuburaya vem divulgando informações sobre a nova série do Ultraman para comemorar os 60 anos do personagem, além de uma comemoração especial do personagem.
A relação do Brasil com a cultura pop japonesa passou de um nicho nostálgico de TV aberta para uma das indústrias mais lucrativas do entretenimento moderno. O público brasileiro hoje consome produções japonesas de forma simultânea com Tóquio, e o futuro dessa parceria será focado em digitalização, internacionalização de estúdios e cocriações bilaterais. A era de depender de distribuidoras locais para comprar fitas físicas virou história. Gigantes do streaming como Netflix, Amazon Prime Video e Crunchyroll (dedicado à animação japonesa) passaram a investir pesado na coprodução e distribuição global imediata de grandes franquias.
Eventos como a Anime Friends reúnem milhares de fãs desses conteúdos, consolidando o maior segmento de consumo da América Latina. O Brasil é tradicionalmente um dos maiores mercados de mangás impressos do mundo, enquanto deixou de ser um consumidor passivo. Hoje, surgem produções feitas por criadores brasileiros que utilizam a estética dos animes e tokusatsus.
Mais do que uma lembrança nostálgica, esse legado continua vivo. E tudo indica que continuará influenciando o mercado audiovisual brasileiro por muitos anos.
E tudo isso começou a se tornar “realidade” com um jovem que liderou a luta contra um poderoso alienígena chamado Satan Goss… Jaspion!
Autor: Gazeta do Povo








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