Toda mulher aprende que não pode engravidar na adolescência. Mas que também tem prazo para engravidar. Entre os marcos da gravidez possível, agimos como se toda gestação fosse segura. Eventuais riscos no parto são tratados como exclusividade de certas condições: gestação precoce, diabetes, cardiopatia, gravidez gemelar.
É tão esperado que tudo corra bem que, desde a última década, fazemos partos ao vivo. Há espectadores olhando por um vidro, enquanto fotógrafos buscam o melhor ângulo para registrar o momento. Ninguém espera que haja intercorrências. Contudo, segundo dados das Nações Unidas, uma mulher morre a cada dois minutos devido a complicações na gravidez ou no parto.
A médica Cecília Emerick não teve dificuldades para engravidar, nem qualquer problema em suas duas gestações. O parto de seu primeiro filho, quatro anos antes do segundo, também correu com tranquilidade. “Em nenhum momento da minha vida imaginei que alguma coisa pudesse acontecer no nascimento da minha filha, Stela. Ninguém fala sobre isso.”
Com 39 semanas, a bolsa estourou e Cecília entrou em trabalho de parto muito rápido, já em período expulsivo (perto do nascimento). Em 20 minutos, deu à luz. Mas ela teve uma rotura uterina, que é a ruptura completa ou incompleta das camadas do útero. Embora seja uma intercorrência rara (incidência de 0,05% a 1% das gestações), é associada a desfechos catastróficos. Foi o que aconteceu com elas.
O bebê ficou um período sem receber oxigênio, e a mãe perdeu mais da metade do sangue. Enquanto Cecília estava desmaiada, a equipe médica reanimava Stela. Quando acordou, ainda na sala de cirurgia, viu a filha intubada. “Ninguém precisou me contar. Eu não sabia o que tinha acontecido, mas entendi que algo tinha dado errado.”
Mãe e filha foram separadas: Cecília na UTI adulto, Stela na UTI neonatal. O trauma do parto não é maior do que os traumas gerados pela falta de sensibilidade das equipes de saúde. “Eu tive laceração de bexiga, tive que tirar o útero para não morrer. Cobravam que eu ficasse com ela no colo mesmo quando eu já estava dormente e não aguentava mais tanta dor física. Entendi o absoluto despreparo das pessoas para lidar com o sofrimento de uma puérpera, mãe de um bebê entre a vida e a morte. Eu dormia ouvindo os choros dos bebês saudáveis nos quartos ao redor.”
Apenas quatro anos depois foi sancionada a lei 15.139/2025, que instituiu a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, determinando a oferta de acomodação em ala separada para mães como Cecília. Ainda hoje, no entanto, ela conhece mulheres na mesma situação que viveu.
Enquanto estava no hospital, Cecília recebia informações erráticas. Uma das médicas que conversou com ela disse que a tomografia estava absolutamente normal. “Fui à igreja agradecer pelo milagre.” No dia seguinte, o médico neurologista afirmou que o que tinha acontecido era uma catástrofe. A criança dependeria de aparelhos de manutenção de vida enquanto vivesse.
Quando o chefe da UTI neonatal conversou com Cecília, ela expressou que não achava aceitável que a filha tivesse uma vida condicionada à manutenção por aparelhos de forma irreversível. Sua decisão era amparada em valores pessoais e conhecimento técnico. A médica é paliativista desde 2014.
“Quando entendi a extensão dos danos neurológicos, eu sabia o que deveria ser feito. Ela era linda, um bebê maravilhoso. Nasceu com 3,100 kg. Mas jamais conseguiria respirar sozinha. Stela foi amada por 22 dias. E continua sendo, é minha filha. Optei pela extubação paliativa, e a sua morte, numa sala reservada, com ela no meu colo e amparada pela minha família, foi o momento em que mais senti que pude protegê-la.”
Depois que Stela morreu, Cecília enfrentou um luto insuportável. Ela se sentia sozinha, porque o que havia acontecido com ela parecia ser um absurdo que nunca tinha acontecido com ninguém. Há uma desumanização muito grande quando a dor que quase nos aniquila nunca encontrou outra hospedeira.
Ao começar a dividir sua história, porém, muita gente conhecida dizia ter algo para contar. Em silêncio, muitas mães também esperaram que desse tudo certo —até que não deu.
Ao saber que seu útero tinha sido retirado, Cecília pensou em adoção. Depois, acabou decidindo congelar embriões com seu marido. Ela não tem irmãs ou primas que poderiam gestar, mas amigas se ofereceram para a missão. Foi quando sua mãe, Márcia, disse: “De jeito nenhum. Eu faço”.
“Foram os meses de maior ansiedade da minha vida. Minha mãe tinha 66 anos. Sete meses depois da vida e morte da minha filha, ela estava grávida do nosso embrião.”
Lara nasceu no dia 27 de setembro de 2022, dia de São Cosme e Damião, padroeiros dos médicos e das crianças. Sem qualquer intercorrência.
“O que aconteceu com a Stela não mudou minha relação com a morte, que era bem trabalhada, mas mudou minha relação com a vida. Ela ressignificou minha maneira de olhar o mundo, as relações pessoais. E meu trabalho com cuidados paliativos, que ainda é um privilégio para poucas pessoas.”
“Recentemente, abri uma empresa, a Casa de Stela, que tem o objetivo de capacitar médicos e levar cuidados e conforto de dores como a que passamos para o maior número de pessoas. O pior dia da minha vida não foi quando meu bebê morreu. Ali eu pude ser mãe dela e aliviar seu sofrimento. O pior dia da minha vida foi quando ela nasceu sem que eu pudesse impedir a sua dor.”
Cecília, o marido e os filhos vivos, Olavo, 9, e Lara, 4, falam sempre sobre a irmã. “Eu faço questão de que ela não seja apagada. Ela não é só parte da nossa história, nossa história é como é porque Stela existiu. Eu sou mãe de duas meninas e um menino. Sempre serei.”
Autor: Folha








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