Sabe aquele momento em que, acabada a comida, nos delongamos à mesa por horas a fio, enchendo taças, contando causos, trocando ideia sobre a vida? Aprendi que esse hábito é profundamente latino, segundo reportagem da Wine Enthusiast. A publicação chamava esse instante final da refeição de sobremesa —sem se referir ao doce. A curiosidade é que o termo vem sendo aplicado em restaurantes de Los Angeles, onde há forte comunidade latina.
Reconheci a descrição do momento como algo familiar, uma ocasião de muito prazer que, tenho certeza, é um grande gerador de lembranças para diversas pessoas, e também um fortalecedor de laços com o poder de um nó cego. É quando contamos e ouvimos histórias com mais atenção e paciência, afinal a fome já passou e o primeiro torpor do álcool também, neutralizado pela refeição.
É uma forma brasileira, latina e até um pouco europeia de se viver à mesa, mas nada norte-americana. Nos EUA, sempre me choquei com a coreografia dos garçons, que trazem a conta antes de a pedirmos quando consideram que é hora de liberar a mesa.
Hoje, em São Paulo, são difíceis os tempos para donos de restaurante, com aluguéis pela hora da morte e custos estratosféricos, que justificam a importação de um hábito tão deprimente quanto a reserva com minutos contados para a refeição. Seria o fim desse after? Entendo os motivos, mas espero que não. A sobremesa eterna, afinal, é também um tipo de remédio antissolidão, uma das pragas deste século.
Na sobremesa sem doce, há quem tome chá, café, licores e até os vinhos de sobremesa — Porto, Moscatel de Setúbal, Madeira etc. Mas se você quiser dar um reset no jogo, prefira os vinhos secos.
É possível continuar no mesmo estilo que acompanhou a refeição, sem prejuízo, se as garrafas abertas estiverem na linha dos mais leves: brancos, rosados e laranjas. Também dá para pular de um branco para um rosado e dos dois para um laranja.
Um branco que amo para esses momentos é o Gigi Bianco Trebbiano 2024 (R$ 153 na Wines4U), um vinho que tem certa complexidade e não significa um declínio em relação ao que se tenha bebido antes. Tem notas de carambola e pera e toque floral. É bem fresco, mas não apresenta aquela acidez cítrica que chega a marcar a boca. É muito agradável sem comida e tem final longo.
O rosado francês Vignoble du Loup Blanc Soif 2022 (R$ 83 na Peso da Régua) é muito leve, fresco e quase salino. Dá uma sensação de limpeza, quase como um enxaguante bucal. Traz nota de morango suculento e vai bem sozinho ou com um docinho.
Se você bebeu um tinto pesado durante a refeição, melhor retroceder um pouco e optar por algo frutado, com pouco corpo. Fácil de achar, o alentejano Esporão Monte Velho (R$ 59 na Shopper) é uma dica de bom preço que vai para o lado da geleia, com nota de fruta negra madura e suculenta. Outra ideia é o Ribeiro Santo Tinto (R$ 129 na Toque de Vinho), também português, mas do Dão, um corte da deliciosa alfrocheiro, tinta roriz e touriga nacional, que traz fruta vermelha mais fresca e desce facinho.
Agora, para zerar tudo mesmo, um espumante é o ideal, porque as borbulhas são como um lava-jato não só para a boca, mas para a alma. O Cave Geisse Amadeu Brut Brasil (R$ 99 na Bacco’s) é superfino, fresco, com borbulhas que duram muito tempo na taça, o tipo de vinho que vai dar vontade de deixar sua sobremesa eterna ainda mais longa.
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Autor: Folha



















