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OMS cobra da Rússia agente que matou pesquisadora – 13/10/2026 – Equilíbrio e Saúde

Mais de uma semana após a morte misteriosa de uma jovem pesquisadora por pneumonia grave, a Rússia ainda não identificou publicamente o patógeno causador.

A princípio, a possibilidade de ela ter contraído a peste pneumônica em seu laboratório gerou temores de um surto no mundo inteiro, mas a preocupação já começou a ceder, uma vez que não surgiu nenhum outro caso na região de Irkutsk, onde Darya Shipilova, 28, funcionária do Instituto Antipeste da Sibéria e do Extremo Oriente, morreu em dois de outubro.

A ausência de uma explicação oficial para o óbito, apesar dos milhares de exames realizados em outros membros da comunidade e no corpo, alimentou preocupações sobre a possibilidade de o governo autoritário russo esconder algo.

De acordo com o Rospotrebnadzor, agência reguladora nacional de saúde pública, os restos mortais de Shipilova não apresentaram resultados positivos para nenhum dos patógenos perigosos com os quais trabalhava, inclusive a bactéria causadora da peste, e afirmou que ela morreu de pneumonia de origem desconhecida (a doença pode ser causada por inúmeros vírus, bactérias e fungos).

Em coletiva realizada em 7 de outubro, Maria Van Kerkhove, diretora de gestão de epidemias e pandemias da OMS (Organização Mundial da Saúde), afirmou que a instituição ainda quer entender o “agente causador” da fatalidade, esteja ele relacionado com a peste ou não. “Se a possibilidade foi descartada, como eles dizem, então do que ela realmente morreu?”, questionou.

Segundo os especialistas, a tecnologia de ponta utilizada na realização do procedimento já teria permitido às autoridades russas saber a resposta.

“É muito provável que tenham capacidade de realizar um sequenciamento genômico simples em poucos dias – e também de já terem feito isso, mas não compartilharam os resultados, o que é preocupante”, declarou Raj Panjabi, autoridade de saúde pública do governo Biden.

O fato é que as dúvidas persistem devido à falta de confiança pública em termos mundiais, decorrência, em parte, das perguntas sem resposta sobre as origens da Covid. Mais de seis anos depois que a pandemia virou o mundo de cabeça para baixo, ainda há dúvidas sobre um possível papel do laboratório que estudava o coronavírus de morcegos na China, onde ele foi detectado (Pequim descartou a possibilidade imediatamente e impediu uma investigação mundial).

Na Rússia, um possível caso de fuga de patógenos de um laboratório atrai enorme atenção, em parte porque o país é um dos poucos no mundo que continua a trabalhar com armas biológicas, de acordo com a avaliação anual de ameaças da inteligência dos EUA, gerando enorme preocupação entre autoridades e especialistas norte-americanos, devido às vulnerabilidades do país.

“Não temos uma vacina licenciada contra a peste; considerando que a Rússia possui um programa ilegal nesses termos, a questão é altamente preocupante”, admitiu Andrew Weber, pesquisador do Conselho de Riscos Estratégicos e ex-funcionário do Pentágono responsável pela biodefesa.

Porém, segundo fontes a par das informações –que falaram sob condição de anonimato para poder oferecer uma avaliação sincera–, não há indícios de que o instituto de Irkutsk estivesse realizando pesquisas nesse nível.

De acordo com o resumo de um estudo apresentado este ano em uma conferência sobre doenças infecciosas em Moscou, Shipilova estaria envolvida em testes para determinar as dosagens de antibiótico mais eficazes contra a Y. pestis, bactéria causadora da doença.

Endêmica na Sibéria e em algumas outras regiões do mundo, foi ela a causadora da “peste negra” que assolou a Eurásia no século XIV (e hoje é tratável com antibióticos se detectada rapidamente). A pneumônica é considerada a mais perigosa das três principais formas de infecção, pois tem alto nível de transmissibilidade de pessoa para pessoa e é mortal.

Referindo-se a Shipilova como “a paciente”, as autoridades afirmaram que ela havia sido vacinada contra os microrganismos perigosos com os quais trabalhava; que duas avaliações do instituto descartaram qualquer “situação de emergência” no laboratório; e que as medidas de quarentena adotadas na região foram implementadas por precaução, devido à natureza do trabalho da vítima.

As vacinas contra a peste existem há muito tempo, mas os especialistas levantaram sérias dúvidas sobre sua eficácia e segurança.

Além do tipo de patógeno causador da pneumonia que matou Shipilova, muitas outras perguntas permanecem sem resposta, inclusive onde ela esteve nos dias que antecederam sua morte, no que estava trabalhando e como/quando a doença se manifestou e progrediu.

No mundo inteiro, os laboratórios que trabalham com germes mortais tomam inúmeras precauções para evitar que os funcionários sejam infectados, mas já ocorreram acidentes.

Embora a Rússia tenha agido rapidamente para isolar e realizar exames naqueles que tiveram contato com a pesquisadora, o Rospotrebnadzor não realizou nenhuma coletiva de imprensa, divulgando informações apenas por meio de comunicados periódicos, e o Kremlin se recusou a responder a perguntas específicas, apenas pedindo ao público que ouvisse as autoridades de saúde.

Alexander Kelle, pesquisador do Instituto de Pesquisa para a Paz e Política de Segurança da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, admitiu que a falta de transparência sempre foi a principal característica da burocracia soviética e, atualmente, russa.

“Apesar disso, não se deve tirar conclusões precipitadas da escassez de detalhes. Só porque há falta de informações não significa que seja algo nefasto; os pesquisadores trabalham com patógenos perigosos porque há muitos motivos para isso. Sugerir qualquer ligação com uma guerra biológica seria forçar demais as evidências escassas que foram apresentadas até agora.”

Em mensagem de vídeo de oito de outubro, o governador de Irkutsk, Igor Kobzev, procurou encerrar o assunto, afirmando que o acompanhamento médico das pessoas na região havia sido concluído, e agradeceu aos colegas pela agilidade na ação, apesar da pressão e das dúvidas.

De quebra, acrescentou que a OMS tinha confirmado a ausência de riscos à saúde pública (embora a entidade tenha afirmado não ter recebido informações suficientes dos russos para realizar uma avaliação de risco).

K. R. Callaway contribuiu com a reportagem.

Autor: Folha

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