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Pausa de arrefecimento para o cérebro – 09/07/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Eu não sou fã de futebol, mas de desempenho extraordinário, então não acompanho o esporte, mas assisto alegremente a jogos que prometem espetáculo de uma forma ou de outra, como Alemanha x Curaçao, Argentina x Cabo Verde, mais os jogos da França, com Mbappé e Dembélé juntos em campo nesta Copa do Mundo. Com isso, só registrei desta vez a parada técnica para hidratação, instituída à discrição do árbitro em Copas lá em 2014, mas agora tornada obrigatória pela Fifa.

Sei que ela é controversa entre os aficionados. Muitos reclamam da interrupção no ritmo do jogo. Quando finalmente notei a novidade, eu reclamei foi de outra coisa: achei que era a Fifa cedendo à pressão da televisão estadunidense, que não gosta do caráter contínuo do futebol que não dá oportunidades para transmitir anúncios. É claro que a televisão tem muito dinheiro a ganhar com mais pausas com mais anúncios. Além disso, o telespectador daquele país está acostumado ao futebol americano, de cronômetro intermitente e cujas várias interrupções espontâneas mais outras tantas programadas transformam os 60 minutos oficiais em maratonas de às vezes três horas ou mais.

Mas a parada técnica em questão faz todo sentido. O problema é que, aqui no Brasil, ela foi traduzida como “para hidratação”, o que diverte minha prima (que suprime risinhos toda vez que a pausa é anunciada porque o cérebro dela complementa a “hidratação” com… “capilar”!) e não faz jus ao que ela realmente é.

Pois a parada técnica agora obrigatória da Fifa é um “cooling break”, cujo propósito não é os jogadores tomarem uma aguinha ou Gatorade, e sim lhes dar uma oportunidade para arrefecimento, quer dizer, para deixar baixar a temperatura do corpo. E com isso, como eu aprendi recentemente, vem o que na minha opinião é o mais importante da pausa de arrefecimento: esfriar o cérebro.

Já expliquei aqui que o cérebro funciona sempre a todo vapor, o que o faz esquentar, o que por sua vez mantém o cérebro em alta atividade, exatamente como um motor antigo a diesel que, uma vez aquecido, não desliga imediatamente. É o corpo que normalmente dissipa o calor do cérebro, mantendo-o abaixo de 40°C, que é quando o calor começa a ficar perigoso à vida. Em um dia normal, é comum o corpo funcionar a módicos 36°C, o que é ótimo para o cérebro.

Mas, quando o corpo usa seus músculos, ainda mais em ritmo acelerado e constante como numa partida de futebol, também ele produz calor. Assim o calor gerado em modo contínuo pelo cérebro não tem como se dissipar, sobretudo quando o ar também está quente, e chegam as consequências: a sensação de fadiga (que é o cérebro, não o corpo, pedindo penico, funcionando acima de 40°C), a redução da velocidade de tomada de decisões, e, claro, a redução do esforço muscular, que é como o cérebro aumenta suas chances de voltar a perder calor para o corpo.

Nada disso é o que a torcida gosta de ver em campo. Queremos jogadores ágeis e prontos para disparar a toda para além da defesa até os últimos minutos de acréscimos após o tempo regulamentar.

E se queremos isso… é do nosso interesse a pausa de arrefecimento acontecer, e acontecer direito: não só com hidratação, pois ela é apenas um meio de arrefecimento, mas também com gelo no pescoço, como os noruegueses já aprenderam, e um estudo alemão recentemente comprovou. Globo, SBT, SporTV e CazéTV, anotem aí: é pausa de arrefecimento, não de hidratação!

Referências

Herculano-Houzel S (2026). A supply-limited framework of brain function accounts for the evolution of endothermic brains. In Kaas JH, Herculano-Houzel S (eds), Evolution of the Nervous System, 3rd edition, Volume I (Herculano-Houzel S, ed.). Elsevier, London.

Schwarz E, Oliveira CB, Muñoz MD, Alanis A, Alanis M, Lara A, Freeze A, Costa JA, Meyer T, Duffield R (2025). Effects of pre-cooling and cooling breaks on thermoregulatory, physiological and match running responses during football in moderate and hot temperatures. Sports Med 56, 573-587.


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Autor: Folha

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