sexta-feira, maio 15, 2026
13.3 C
Pinhais

Psicodélicos: resuotados negativos modulam entusiasmo – 14/05/2026 – Virada Psicodélica

Todos os dias chega na caixa de email uma mensagem sobre artigos recomendados de ciência psicodélica, indicando dois a quatro trabalhos em média. A maioria são estudos sem novidade, muitas revisões por autores interessados em surfar na onda da promessa terapêutica de alteradores da consciência.

Hoje serão considerados dois, e com resultados negativos. Desfechos desfavoráveis, afinal, podem ser tão úteis para fazer um campo científico avançar quanto os promissores, e convém não omiti-los.

O primeiro relata um estudo alemão sobre eficácia e segurança de psilocibina para depressão chamado Episode. O trabalho envolveu 144 adultos com depressão resistente atendidos em dois hospitais universitários. Participantes foram divididos em quatro grupos que receberam combinações variáveis de psilocibina (25 mg e 5 mg) ou placebo desconhecidas tanto para eles quanto para experimentadores e avaliadores (triplo cego).

Os resultados do teste clínico de fase dois no periódico Jama Psychiatry podem ser considerados negativos porque seu objetivo primário (“primary endpoint”) não foi alcançado. Buscava-se redução de ao menos 50% em escores da escala de depressão de Hamilton (HAMD17) após seis semanas, e as diferenças entre grupos não se mostraram estatisticamente significativas.

Os autores ressalvam, porém, que objetivos secundários –como pontuações obtidas na escala de Beck (BDI-II)– apontam claro potencial terapêutico da psilocibina. Não é a primeira vez que isso ocorre.

Outro artigo com desenlace similar chamou a atenção em 2021, reportado neste blog sob o título “Psicodélico empata com antidepressivo e pode ganhar partida nos pênaltis”. Neste caso, a psilocibina de cogumelos “mágicos” figurou em comparação direta com escitalopram, antidepressivo muito usado da classe de inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRSs).

Liderado por Robin Carhart-Harris, o teste clínico no New England Journal of Medicine (NEJM) também claudicou estatisticamente no objetivo primário, medido pela escala Qids-SR-16. Mas o autor RCH se esforçou por lhe dar leitura positiva, apontando que várias metas secundárias apontavam efeito terapêutico evidente.

Assim procede a ciência, com a acumulação de dados empíricos, interpretações, críticas e reinterpretações. Mesmo resultados negativos como os obtidos pelo pesquisador da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) contribuem para refinar o desenho de novos estudos. Foi o caso de outro artigo desfavorável, o segundo recente, que tem dado o que falar.

Um colaborador prévio de Carhart-Harris no Imperial College de Londres, Balázs Szigeti (que também se mudou para a UCSF), está por trás do trabalho publicado igualmente no Jama Psychiatry, na mesma data do Episode (18 de março). De novo se tratava da comparação direta entre psicodélicos e ISRSs, porém mais abrangente.

O trabalho atacava um ponto fraco, a dificuldade de manter sigilo sobre quem tomou psicodélico ou placebo, pois o efeito subjetivo do primeiro é óbvio. O voluntário que ficou sem a droga psicoativa sai decepcionado e tende a se sentir pior (o chamado efeito nocebo). Isso infla a diferença nos escores entre os braços do estudo e faz psicodélicos parecerem melhores do que talvez sejam.

Szigeti e colaboradores compararam então testes clínicos de psicodélicos com estudos de antidepressivos do tipo “open label”, sem controle por grupo de placebo. Concluíram que não há diferença significativa nos benefícios obtidos com as duas classes de substâncias quando se comparam escores só do antes e depois dos pacientes.

Numa entrevista, Szigeti assinalou que os ISRSs tampouco se saem muito bem quando cotejados seus testes com e sem placebo. Isso para não mencionar que antidepressivos dessa classe hoje disponíveis têm efeitos adversos sérios, como perda de libido, e não funcionam para um terço ou mais dos deprimidos –justamente as limitações em que psicodélicos se perfilam como alternativa, com a provável vantagem de uso esporádico e benefício prolongado.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas