
Bilionários que financiam organizações de esquerda nos Estados Unidos têm injetado milhões de dólares nas campanhas de candidatos do Partido Democrata neste ciclo eleitoral. O dinheiro tem beneficiado tanto políticos ligados aos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês), a ala socialista do partido, quanto nomes da corrente progressista considerados mais moderados.
O apoio financeiro tem ajudado a impulsionar diversos candidatos desses setores que já conquistaram vitórias importantes nas primárias democratas para as eleições legislativas de novembro. O objetivo dos grandes doadores é ampliar a presença da esquerda e da ala progressista da legenda no Congresso americano.
Entre as principais bandeiras defendidas por muitos dos candidatos apoiados estão a ampliação do acesso ao aborto, mudanças profundas na atuação do ICE, a agência responsável pela fiscalização migratória, maior controle sobre armas de fogo e a expansão de políticas associadas à agenda woke.
Bilionários como George Soros, da Open Society; Reid Hoffman, cofundador da rede social LinkedIn; Michael Bloomberg, da Bloomberg; e Stephen Mandel, fundador do fundo de investimentos Lone Pine Capital, estão entre os grandes financiadores de grupos que bancam as campanhas democratas neste ciclo eleitoral.
O dinheiro doado por eles nas campanhas percorre caminhos diferentes: uma parte abastece grandes PACs nacionais, comitês políticos que arrecadam recursos para apoiar candidatos e causas eleitorais, outra parte é investida nos chamados super PACs, plataformas que podem receber e gastar valores praticamente ilimitados para favorecer ou atacar candidaturas, desde que não coordenem suas ações diretamente com as campanhas.
O maior financiador é Soros. Um levantamento feito pela revista americana Fast Company mostra que o bilionário progressista já destinou cerca de US$ 102 milhões (cerca de R$ 525 milhões) ao chamado Democracy PAC, organização política de sua família que envia recursos para financiar diversas candidaturas do Partido Democrata.
De acordo com o site americano FactCheck.org, o Democracy PAC de Soros já investiu mais de US$ 40 milhões (R$ 206 milhões) em organizações de esquerda que atuam nas campanhas de candidatos democratas. O dinheiro do bilionário progressista tem servido para beneficiar diversos nomes de diferentes correntes do partido, incluindo da própria ala socialista. Entre os destinatários aparecem grupos como o Senate Majority PAC, plataforma criada para viabilizar a candidatura de senadores democratas.
Por sua vez, Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, já doou US$ 11,5 milhões (R$ 59,2 milhões) no chamado Lone Star Rising, super PAC criado para financiar a candidatura do democrata James Talarico ao Senado americano, segundo informações do jornal local Texas Tribune.
Talarico não integra a ala socialista da legenda, mas faz parte do grupo progressista dos democratas. Ele defende a liberação do aborto, políticas mais brandas para imigração, leis pró-LGBT e maior tributação sobre bilionários. Ironicamente, o candidato também faz campanha pela proibição de super PACs e pela redução da influência de bilionários na política dos EUA, apesar de sua candidatura ser beneficiada por um super PAC financiado majoritariamente pelo bilionário Hoffman.
Em Nova York, Michael Bloomberg já destinou, segundo a imprensa americana, até US$ 10 milhões (R$ 51,4 milhões) para financiar a candidatura do democrata Micah Lasher, vencedor da primária da legenda por uma cadeira de Manhattan na Câmara dos EUA. Lasher é considerado mais moderado dentro do Partido Democrata, mas defende posições progressistas em diversos temas sociais, como a liberação do aborto e políticas trans.
Stephen Mandel e sua esposa, Susan Mandel, também já doaram nos últimos meses milhões de dólares em organizações voltadas a fortalecer candidatos democratas considerados “moderados” nas primárias. Entre os principais grupos financiados pelo casal estão a Majority Democrats e a The Bench, que receberam juntos mais de US$ 15 milhões (R$ 77,2 milhões) para desenvolver uma plataforma eleitoral capaz de conter o avanço da ala socialista do partido. As organizações atuam financiando campanhas, recrutando candidatos e direcionando recursos para disputas internas do Partido Democrata nas quais nomes mais moderados enfrentam candidatos ligados à esquerda socialista.
Um dos beneficiados por essa rede é Luke Bronin, candidato democrata à Câmara por Connecticut. Sua campanha nas primarias democratas recebeu apoio direto e indireto das organizações mantidas pelos Mandel. Apesar de ser apresentado como uma alternativa mais “moderada” dentro da legenda, Bronin defende a liberação do aborto e restrições ao porte de armas nos EUA, bem como mudanças nas políticas migratórias, deixando as leis de fronteira mais brandas para imigrantes ilegais.
Socialistas democratas e ala progressista do partido contam com forte apoio financeiro de empresários
Soros está por trás da campanha de Abdul El-Sayed, vencedor da primária democrata ao Senado dos EUA pelo estado do Michigan.
Apesar de dizer que não faz parte da ala socialista da legenda, El-Sayed defende políticas similares às do grupo, como tributação sobre grandes fortunas, liberação do aborto, afrouxamento da segurança nas fronteiras e restrições ao apoio dos EUA a Israel. Ele também é aliado do prefeito socialista de Nova York, Zohran Mamdani, e próximo de diversas outras figuras do grupo – contando inclusive com apoio de eleitores socialistas.
A campanha de El-Sayed conta neste momento com o apoio financeiro do Senate Majority PAC, organização que já recebeu US$ 9 milhões (R$ 46,3 milhões) do Democracy PAC de Soros.
Depois da vitória do democrata na primária da legenda em Michigan, o Senate Majority PAC declarou apoio oficial a El-Sayed e passou a atuar na disputa dele contra o republicano Mike Rogers pela cadeira do estado no Senado americano. Segundo o site especializado Campaigns & Elections, o grupo iniciou em agosto uma compra de espaço publicitário de US$ 3 milhões (R$ 15,4 milhões) em TV para atacar Rogers e favorecer El-Sayed, que tem liderado as pesquisas locais.
O dinheiro de Soros também chega a outros candidatos progressistas por meio do J Street Action Fund, super PAC ligado à organização J Street, que atua para eleger democratas favoráveis a uma política americana mais crítica ao governo israelense e à condução da política em Gaza. O grupo já recebeu US$ 2,25 milhões (R$ 11,5 milhões) do Democracy PAC, tornando a organização de Soros seu principal financiador no atual ciclo eleitoral.
O J Street Action Fund financia neste momento as campanhas dos candidatos progressistas Daniel Biss, candidato à Câmara dos EUA pelo 9º Distrito de Illinois; Aisha Wahab, senadora estadual da Califórnia que disputa a vaga na Câmara pelo 14º Distrito do estado e conta com apoio dos socialistas democratas; e Scott Wiener, senador estadual que concorre à cadeira da democrata Nancy Pelosi na Câmara pelo distrito de São Francisco.
Já entre os grupos que financiam candidatos formalmente ligados aos Socialistas Democráticos da América está o Justice Democrats PAC, organização eleitoral criada para recrutar e eleger candidatos progressistas e socialistas dentro do Partido Democrata, que ganhou projeção nacional depois de ajudar na ascensão da deputada Alexandria Ocasio-Cortez.
Também atua nesse espaço o American Priorities PAC, super PAC voltado a favorecer candidatos democratas mais críticos à política dos Estados Unidos em relação a Israel. Eles são financiados por doadores como Sam Mahrouq, empresário do setor automotivo dos EUA e CEO do MEI Group, que colocou cerca de US$ 625 mil (R$ 3,2 milhões) no super PAC; Nazar Khan, cofundador da mineradora de bitcoin TeraWulf, que doou cerca de US$ 250 mil (R$ 1,2 milhão); e Haroon Mokhtarzada, empresário de tecnologia, que repassou aproximadamente US$ 125 mil (R$ 643,1 mil).
Juntos, os dois grupos colocaram mais de US$ 1 milhão (R$ 5,1 milhões) na campanha da socialista Darializa Avila Chevalier durante a primária democrata para definir o candidato do partido à Câmara dos EUA pelo 13º Distrito de Nova York. Com o apoio, Avila Chevalier venceu a disputa local e será a candidata democrata na eleição de novembro. O Justice Democrats gastou cerca de US$ 845 mil (R$ 4,3 milhões) na campanha dela e o American Priorities, aproximadamente US$ 500 mil (R$ 2,5 milhões).
Integrante da ala nova-iorquina do DSA, que tem entre suas principais figuras o prefeito Mamdani, a socialista defende abolir o ICE e transferir recursos das Forças Armadas para políticas sociais.
Claire Valdez, outra candidata socialista democrata em Nova York para a Câmara dos EUA, também recebeu apoio das duas organizações. Valdez defende fortalecimento dos sindicatos e políticas destinadas a limitar a cooperação de governos locais com operações federais de imigração.
Em Michigan, Donavan McKinney, membro do DSA em Detroit, também recebeu apoio do Justice Democrats e derrotou o deputado democrata moderado Shri Thanedar na primária local. Sua campanha defende o fortalecimento dos sindicatos e mudança nas leis criminais. Ele agora vai disputar uma cadeira na Câmara dos EUA em novembro.
Autor: Gazeta do Povo








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