Eu adoro jogos. Não tenho mais tempo, estamina ou oportunidades para jogar handebol ou vôlei (no basquete sempre fui uma negação), então as pilhas de jogos de tabuleiro crescem nas minhas estantes. Jogos são oportunidades de aprendizado e superação em que todos sempre ganham, mesmo quando perdem a partida. Por isso, teimo em jogar Catan com meu filho, um jogo em que ganha quem atingir primeiro um certo número de marcos construindo sua civilização em uma ilha, apesar de o moleque quase sempre ganhar: insisto em entender o que na minha estratégia quase sempre falha. Um dia eu chego lá.
Num jogo, o máximo que se perde é a honra ou a vergonha (a minha já se foi há tempos), enquanto se ganha experiência, somente com a qual se desenvolvem habilidades. Jogos são oportunidades de colocar permitências em prática às custas de recursos esgotáveis: tempo e dinheiro, que é como trocamos o nosso tempo pelo produto do tempo dos outros.
Pois todo jogo tem um custo, seja ele apenas do nosso tempo ou da mensalidade do clube, da caixa com tabuleiro e peças bonitinhas, ou, no mundo moderno, de mais créditos ou do superpoder temporário que permite não perder o jogo em um aplicativo no telefone. São custos que vêm com zero promessas e uma garantia: diversão.
A palavra “garantia” é importante, porque sua falta é a incerteza que leva o cérebro a tentar de novo. Quando eu insisto em mais uma partida de Catan com meu filho, meu futuro naquela partida é incerto e depende das minhas ações e decisões. Isso é um prato feito para os circuitos do cérebro que decidem quais esforços valem a pena e nos dão prazer com a expectativa de ver nossas ações se desenrolarem. Mas, neste caso, a incerteza do resultado da partida vem com a garantia de uma hora deliciosa brincando (e aprendendo) com meu filho. O único custo é meu tempo, que eu considero muitíssimo bem empregado.
A diferença entre jogar e apostar é que jogar é consumir recursos, e só. Apostar, ao contrário, é pagar para criar para si a expectativa da possibilidade de ganhar não só o jogo, mas mais do próprio recurso que o jogo custa: dinheiro. Comprar um jogo é trocar recursos por oportunidades de entretenimento garantido; fazer uma aposta é comprar a expectativa de ganhar recursos para apostar de novo e comprar mais expectativas de ganhar mais recursos, ad infinitum em teoria, mas até o último centavo do salário, na prática.
Porque, obviamente, se a plataforma que oferece o “serviço” existe, é porque ela dá (muito) dinheiro para o seu dono. Toda plataforma de apostas é, por definição, predatória, ou ela não existiria, pois consiste no esquema de pirâmide mais descarado, mal e porcamente disfarçado de jogo. O prêmio para o apostador, quando acontece, é o custo para a plataforma de fisgar a presa com a ilusão de ganhos, pois é calculado para ainda assim favorecer a casa. Uma vez fisgado, o apostador somente perde mais e mais dinheiro comprando esperanças.
E assim vem também a dependência, com a ilusão da esperança de que só a plataforma resolve a falência causada por ela mesma.
Não é droga, mas é como se fosse. Permitir ou proibir a “oportunidade” de apostar ou usar drogas é uma questão de decidir se a prática é puramente predatória ou pode ter algum valor recreativo. No caso das apostas (bet é o cacete), não há dúvida de que elas são puramente predatórias. Decidir proibir é apenas uma questão de honestidade e coragem.
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Autor: Folha




















