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Suplementos de ômega-3 são benéficos para o cérebro? – 20/07/2026 – Equilíbrio

Em teoria, tomar um suplemento de ômega-3, ou de óleo de peixe, faz muito sentido.

Os ácidos graxos ômega-3 são vitais para a saúde do cérebro: eles são usados na construção das células cerebrais, mantendo as membranas celulares flexíveis e permitindo que os neurônios criem novas conexões e se comuniquem com outras células.

Inúmeros estudos demonstraram que pessoas com níveis mais elevados de ômega-3 no sangue apresentam melhor cognição e cérebros com aspecto mais saudável, além de um risco menor de desenvolver demência. Por outro lado, observou-se que pessoas com doença de Alzheimer apresentam níveis mais baixos de ômega-3.

Mas há um porém: a grande maioria dos ensaios clínicos constatou que os suplementos de ômega-3 não oferecem praticamente nenhum benefício para a cognição ou para os sintomas de demência.

“Faz sentido, intuitivamente”, que os neurônios precisem de ácidos graxos para sua saúde e que, portanto, se deva tomar um suplemento desses ácidos, diz Kristine Yaffe, professora de psiquiatria, neurologia e epidemiologia na Universidade da Califórnia, em São Francisco.

“O problema é que a maior parte das evidências, particularmente as provenientes de ensaios clínicos, simplesmente não sustenta essa ideia”, afirma Yaffe.

Um estudo publicado no mês passado oferece um excelente exemplo disso. Os cientistas responsáveis pelo ensaio clínico tentaram cobrir todas as frentes: os participantes eram idosos que não consumiam muito peixe (alimento rico em ômega-3), o que sugeria que eles poderiam ser os mais beneficiados pelo suplemento.

Cerca de metade dos participantes apresentava um risco genético elevado para Alzheimer —outro grupo que, segundo especialistas, poderia necessitar de mais ômega-3. Os pesquisadores chegaram a realizar punções lombares em alguns participantes para confirmar se o suplemento realmente aumentava os níveis de ômega-3 no cérebro.

No entanto, em comparação com um placebo, o suplemento não trouxe nenhum benefício no que diz respeito à cognição ou à estrutura cerebral das pessoas.

Então, o que explica essa discrepância? Os cientistas têm algumas hipóteses, e a maioria delas está relacionada à dieta e ao estilo de vida.

Hipótese 1: A maioria das pessoas já ingere quantidades suficientes de ômega-3

Existem três tipos principais de ômega-3 importantes para a saúde: EPA (Ácido Eicosapentaenoico) e DHA (Ácido Docosahexaenoico), encontrados principalmente em peixes, e ALA (Ácido Alfa-Linolênico), presente em nozes e sementes. O fígado consegue converter pequenas quantidades de ALA em EPA e DHA.

O DHA é o mais importante para a cognição, e existe uma grande reserva dele em nossos cérebros. Segundo Richard Bazinet, professor de ciências nutricionais da Universidade de Toronto, a quantidade de DHA que nossos cérebros utilizam diariamente representa apenas uma fração mínima dessa reserva.

Mesmo que as pessoas não consumam muito peixe, Bazinet acredita que elas provavelmente obtêm ômega-3 suficiente por meio da alimentação, especialmente a partir do ALA, para repor a pequena quantidade de DHA que o cérebro consome.

“Todos nós ingerimos grandes quantidades” de ALA, afirma Bazinet. E, se a ingestão de DHA for baixa, o fígado pode converter o ALA em DHA e enviá-lo para o cérebro.

Na visão de Bazinet, como praticamente todas as pessoas obtêm ômega-3 suficiente na dieta, os benefícios cerebrais observados por cientistas em indivíduos com níveis elevados de DHA no sangue provavelmente decorrem de outros fatores além do ômega-3 —muito provavelmente de outros hábitos saudáveis que costumam acompanhar uma dieta rica em peixe.

Por exemplo, quando alguém come peixe no jantar, geralmente o acompanha com vegetais, e não com ultraprocessados.

“Se você vai comer um bom filé de atum, talvez coma também um pouco de salada”, diz Bazinet. E, “ao fazer essa refeição, você deixa de comer outra coisa” que seria menos saudável para o cérebro”.

Hussein Yassine, professor de neurologia na Faculdade de Medicina Keck da Universidade do Sul da Califórnia, acredita que o fator mais importante é a maneira como o cérebro utiliza o ômega-3.

Existe, no cérebro, uma molécula responsável por decompor e eliminar o ômega-3. Todas as pessoas possuem essa molécula, mas Yassine descobriu que ela é mais ativa em indivíduos com risco genético de Alzheimer.

É possível que o cérebro dessas pessoas metabolize o ômega-3 mais rapidamente, reduzindo seus níveis. Para melhorar a saúde do cérebro, Yassine, que também liderou o estudo recente sobre suplementos de ômega-3, acredita que algumas pessoas precisam não apenas aumentar a ingestão de ômega-3, mas também reduzir a atividade daquela outra molécula.

A pesquisa é preliminar, mas há evidências de que essa molécula é influenciada pela microbiota intestinal e apresenta menor atividade em pessoas que mantêm uma dieta rica em vegetais, fibras e alimentos fermentados. Em outras palavras, para beneficiar o cérebro, é preciso obter os nutrientes do atum, bem como os da salada ou de outros acompanhamentos saudáveis.

Se uma pessoa tem uma alimentação inadequada “e você simplesmente lhe dá um suplemento em que a única alteração é o nível de ômega-3 no sangue e no cérebro, nosso estudo sugere que isso não funcionará”, afirma Yassine.

Hipótese 3: Para obter benefícios, é necessário consumir grandes quantidades de ômega-3 ao longo de décadas

Nem todo mundo está desistindo dos suplementos de ômega-3. Gene Bowman, professor assistente de neurologia na Harvard Medical School, acredita que uma das razões pelas quais os ensaios clínicos tendem a fracassar é que eles testam os suplementos por apenas alguns anos, e esse pode não ser tempo suficiente para detectar alterações no cérebro.

Quando as pessoas apresentam níveis elevados de ômega-3 no sangue, geralmente é porque consumiram alimentos ricos nessa substância —cerca de três porções de peixe por semana, segundo algumas estimativas— ao longo de décadas.

“Acredito que uma das explicações para essa desconexão ou inconsistência possa ser estritamente metodológica”, diz Bowman.

Independentemente do motivo pelo qual os suplementos de ômega-3 parecem não atingir as expectativas, as pesquisas atuais sugerem que é uma dieta equilibrada —e não uma pílula— que pode ajudar a manter o cérebro saudável. Isso provavelmente também se aplica à saúde do coração, outro motivo pelo qual muitas pessoas tomam suplementos de ômega-3.

“As melhores evidências, por mais limitadas que sejam, indicam que o consumo de alimentos com ômega-3 parece ser benéfico e está associado a melhores resultados para a saúde cerebral”, diz Bazinet. “Mas optar pelo atalho dos suplementos” não parece oferecer o mesmo benefício.

Autor: Folha

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